“Uma lata de lixo” – Gloria Swanson

O médico se chamava Henry C. Bieler e seu consultório era tão pequeno e modesto que conferi novamente o endereço antes de entrar. Não havia recepcionista nem enfermeira, apenas uma sala simples com algumas cadeiras e um aviso na parede com os dizeres: PROIBIDO FUMAR. "Ah, não!", pensei. "Será que fiz esta longa viagem até Pasadena para ouvir um sermão sobre os perigos do fumo?" 

O Dr. Bieler era um homem franzino, pouco mais alto do que eu. Lembrava mais um guarda-livros do que um médico. Não usava avental nem estetoscópio, não cheirava a remédio nem a desinfetante. Repeti o que já havia informado por telefone — que eu temia estar com úlcera e que a Sra. Crey o havia recomendado. Ele não parecia prestar muita atenção às minhas palavras. Apenas me fitava. Indicou uma cadeira em frente à sua mesa convidando-me a sentar. Finalmente, falou: 

Por favor, tire os brincos. 

Levei a mão à orelha enquanto pensava: "Que coisa mais ridícula, acho melhor ir embora." O médico, porém, continuava a me olhar com insistência de modo que tirei os brincos e guardei-os na bolsa. Tirando da gaveta um grande bloco amarelo e um lápis, o doutor perguntou: 

— O que você jantou ontem à noite? 

Eu continuava confusa por causa da história dos brincos, mas ao menos esta pergunta relacionava-se com o meu estômago, onde sentia a dor, e portanto apressei-me a colaborar. 

— Um coquetel de camarão. 

— Você não comeu aquelas coisinhas antes de ir para a mesa? 

 — Ah, sim. Deixe-me ver, comi umas amêndoas defumadas, azeitonas verdes envoltas em bacon e um ovo recheado. 

Ele anotava tudo. Quando chegou ao ovo, pediu-me que aguardasse um instante até que pudesse me alcançar. Divertida, olhei o que ele escrevia. Ovo recheado não eram apenas duas palavras e sim uma lista de todos os ingredientes: ovo, maionese, mostarda, páprica, molho inglês, cebolinhas. 

— E também um pouco de patê e um folheado de queijo — conclui apressada a fim de fazê-lo compreender que eu era uma mulher ocupada e não estava com disposição para besteiras. Sem alterar o ritmo, ele adicionou esses itens à lista. 

— Você bebeu? — perguntou ele. 

— Sim. Uma pequena dose de vermute. 

— Muito bem. Agora voltemos ao jantar. O coquetel de camarão foi servido com que molho? 

Tive vontade de dizer-lhe para adivinhar mas consegui me controlar. — Um molho vermelho. 

Ele parou uns instantes para pensar e em seguida acrescentou vários itens à lista. Continuou me questionando, prato por prato, o que eu consumira na noite anterior durante o jantar com Henri e seus amigos: sopa, peixe, frango, os diversos vinhos, a geléia que acompanhava o frango, o molho e o recheio do peixe, as ervilhas, os aspargos frescos. 

— Com molho holandês? — Ele indagou. Eu assenti e ele anotou. 
— E a sobremesa? — Perguntou ele quando chegamos ao fim. 
— Minha cozinheira inglesa preparou um bolo — informei. 

— Compreendo — murmurou ele ao listar os ingredientes: ovos, farinha de trigo, geléia de framboesa, xerez, creme batido, lascas de amêndoas, cerejas ao marasquino. 

— Café? 

— Não. 

— Nenhuma bebida depois do jantar? 

— Uma taça de champanhe — eu disse — e fumei vários cigarros — acrescentei, imaginando ser o que ele queria que eu confessasse. 

A informação não pareceu interessá-lo. A essa altura, ele já preenchera três folhas e estudava-as com a minúcia de um contador. 

— Bem, agora vejamos — disse ele — Feche os olhos enquanto eu leio cada item que anotei. Quero que você imagine um prato vazio e, à medida que eu for contando os ingredientes, visualize-os formando uma pilha no prato. Ou melhor ainda, imagine jogando as colheradas no lixo. 

O Dr. Bieler pôs-se a ler bem deva ar. Comecei a sentir tamanho enjôo que pensei que ia vomitar. Ao terminar, ele perguntou calmamente: 

—Diga-me, que animal, inclusive um porco, iria ingerir tal mistura em menos de duas horas? 

Fiquei estarrecida. Ninguém jamais havia falado comigo dessa maneira. Ele me lançou um sorriso zombeteiro, antes de me atingir em cheio: 

— Por que você trata o seu estômago como se fosse uma lata de lixo? 

Trocamos um sorriso de completa confiança. Compreendi que ele era o médico de que eu precisava e ele sabia que eu poderia ser curada. 

O Dr. Bieler me contou que, quando cursava a faculdade de medicina, ele próprio fora uma pessoa doentia, com asma e problemas nos rins. 

Seus professores recomendavam todos os tratamentos convencionais, mas ele estava cada vez pior. Por fim, ele encontrou um livro, há muito tempo esgotado, sobre o jejum. Como havia tentado de tudo sem sucesso, achou que não tinha nada a perder, a não ser o peso supérfluo. À medida que emagrecia, seus amigos e professores ficaram preocupados. No entanto, ele não se sentia mal e, quando havia perdido 27 kg, estava livre também da asma e dos distúrbios renais. 

Ele começou a ler livros sobre medicina natural, escritos por médicos americanos que haviam estudado e clinicado no início do século, antes que os médicos passassem a receitar apenas medicamentos padronizados, produzidos pelos grandes laboratórios farmacêuticos internacionais. A essa altura, tornou-se um dissidente e voltou ao bom senso usado em época mais sadia. 

Achei que suas palavras faziam sentido. Na verdade, só de ouvi-lo já me sentia melhor. Ao fim de uma hora e meia, disse que eu podia recolocar os brincos. Receitou-rne uma série de lavagens intestinais e uma dieta consistindo de sopa de legumes feita com abobrinha, salsão e vagem, pedindo que retomasse dentro de uma semana. 
Antes de sair perguntei: 

— Por que me pediu para tirar os brincos? 

— Para ver seus lóbulos. Lóbulos compridos, como os seus, indicam glândulas supra-renais sadias. 

Os primeiros dias foram difíceis e, à medida que meu organismo eliminava as toxinas acumuladas, Henri protestava indignado que em vez de me curar eu acabaria ainda mais doente. No entanto, quando voltei para o Dr. Bieler, eu me sentia outra mulher. Ao apresentar-me ao estúdio para o próximo filme, tinha a pele sedosa, os olhos claros e brilhantes e os nervos tranqüilos. 

O Dr. Bieler era um grande médico porque era um excelente professor. Ensinou-me coisas simples como: Não existem milhares de distúrbios físicos, apenas um — a toxemia. Envenenamos a nós mesmos e uns aos outros. A dor é um sinal divino, enviado pelos céus, por Deus, pela Mãe Natureza, o que seja, advertindo-nos que é preciso mudar nossos hábitos, parar de nos envenenar, desintoxicar-nos. Se nos alimentamos de maneira simples, comendo alimentos naturais em quantidades pequenas, nosso maravilhoso organismo se cura naturalmente. Cada indivíduo é responsável pela própria saúde. Ele disse que não permitia que seus pacientes tomassem qualquer medicamento, nem mesmo uma simples aspirina. Tomar analgésicos é tratar os sintomas, advertiu, é loucura semelhante a desligar o alarme e deixar o fogo se alastrar. 

À sua maneira, o Dr. Bieler era um gênio. Ele modificou a minha vida. No entanto, era tão modesto quanto o preço da sua consulta: três dólares. 

Fonte: Um Assassinato Perfeitamente Legal — Nossa Alimentação. Organizado por Hildegard Bromberg Richter. Paulus, São Paulo, 1997. 

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