Um teto sobre a cabeça, um direito humano

O contexto internacional é um tanto bizarro para tratar de moradia nesse momento. A crise financeira, que provoca estragos no mundo todo, teve início justamente no setor de imobiliário dos Estados Unidos da América. Os empréstimos facilitados que financiaram as construções dos norte-americanos se revelaram parte de uma gigantesca bolha financeira. E também uma parte de um padrão crônico de consumo acima de suas posses, às custas do restante do mundo. O sistema bancário internacional desempenhou o papel de bandido nessa situação. Aqueles que são os principais responsáveis pela crise que afeta centenas de milhões de pessoas necessitam, agora, de apoio financeiro dos governos. 

A construção civil 

Nas tentativas de recuperação, a dupla “rei carro e imperador presunto” deve ser mantida a qualquer custo, se a economia real quiser continuar funcionando. O mesmo pode ser dito da “construção civil”, com uma diferença: moradia é um dos direitos humanos. Não é possível dizer o mesmo do consumo de carne ou do uso de veículos particulares.

O que chama a atenção é que, nos EUA, muitas casas são construídas de madeira (2), enquanto no Brasil são exatamente essas as casas que as pessoas querem deixar. No programa de Cooperhaf (3), as “belas mas desgastadas” casas de madeira das propriedades rurais são invariavelmente transformadas em construções de alvenaria.

Entretanto, um dos desafios que se apresentam nas atuais assembléias gerais da Cooperhaf é um maior emprego de bioconstruções. Casas de terra e palha, por assim dizer, como Gilson Giombelli (3) nos mostrou. 

27 mil casas 

Cerca de 2 mil pessoas se reuniram hoje em Pinhalzinho para a assembléia geral da Cooperhaf no estado de Santa Catarina. A maioria chega ao local marcado em um dos 18 ônibus, pagos pelas prefeituras municipais envolvidas. No mesmo dia, em Erechim, pouco menos de 2 mil pessoas se reúnem em assembléia e festejar. Elas vêm de todas as partes do Rio Grande do Sul.

Atualmente, Cooperhaf é uma das grandes realizações da Fetraf-Sul/CUT e – já há alguns anos – também da Fetraf-Brasil. É uma sinergia entre Fetraf – na qualidade de sindicato dos agricultores familiares –, Cooperhaf – como cooperativa habitacional – e Cresol – como cooperativa de crédito. O Governo Federal investe nessas iniciativas via Caixa Econômica Federal (CEF). No momento, estão sendo realizados trabalhos em 13 estados, geralmente com os menos favorecidos da área rural. Uma alternativa que surgiu agora é prestar de serviços para a construção civil nas cidades. Até hoje, foram construídas cerca de 17 mil casas “para” e “com” 17 mil famílias. Cerca de mais 10 mil casas estão programadas. “Para” e “com”? Sim, o processo ocorre fundamentalmente em mutirão e envolve muito mais do que simplesmente construir uma moradia. O que chama a atenção durante essas reuniões é a presença de muitos casais. Isso é novidade para mim. Em muitas outras reuniões da Fetraf, a maioria dos presentes é do sexo masculino, embora as mulheres que comparecem deem uma considerável contribuição. Também há participação de vários jovens. O processo desenvolvido por Cooperhaf, pelo jeito, mobiliza os casais e até a família inteira. Presenciar essa participação é emocionante! 

Nem tudo foi privatizado 

O presidente Lula quer combater a crise que também começa a afetar o Brasil acelerando a construção de casas populares. Os políticos afirmam que eles dispõem hoje de bem mais instrumentos do que muitos outros países que também foram afetados pela crise. Por exemplo, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica não foram privatizados. Assim, alguns bancos daqui não são parte do problema e sim parte da solução: eles ainda têm capacidade de investir em tais programas sociais. Além disso, o Brasil ainda possui de 200 bilhões de dólares em reservas internacionais. E ainda há disponibilidade de 160 bilhões de reais que podem ser utilizados enquanto, desde o início da crise, já foram injetados 100 bilhões de reais para garantir a liquidez do mercado. 

Até 2010, o governo quer construir um milhão de casas pelo programa “Minha casa, minha vida”. Ele pode, tranquilamente, aprender algumas lições com as milhares de famílias que se encontram na dinâmica de Cooperhaf.

Sim, moradia é  um direito humano, mas vai além de ter quatro paredes e um teto. Isso é claramente perceptível nesses grandes encontros. Na saída, todos recebem uma muda: é de uma espécie de árvore nativa, para ser integrada à propriedade. Na tentativa de vencer a monocultura de pínus e eucalipto. 

Luc Vankrunkelsven,

Chapecó, 20 de março de 2009. 

  1. Para Wervel, “o rei carro e o imperador presunto” são os símbolos máximos da sociedade de consumo ocidental, atualmente em processo acelerado de globalização.
  2. Existe uma relação entre a exportação de madeira do Brasil (principalmente pínus e eucalipto) para os EUA e a construção de casas naquele país. Veja a crônica “Iraque, soja, pínus e eucalipto” em “Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o Oceano” (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006).
  3. Sobre o fenômeno “Cooperhaf”, leia a entrevista, com Celso Ludwig, “Casa nova, vida nova” em “Aurora no campo. Soja diferente” (Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2008). Sobre o novo caminho trilhado por Giombelli na agroecologia e, também, na construção, leia: “De monocultura para policultura”, no mesmo livro. Para notícias, novos dados e realizações, veja: www.cooperhaf.org.br e www.fetrafsul.org.br.
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