Um Congresso Mundial, uma gripe e uma confusão! – Alberto Gonzalez

Foram meses de espera. Eu estava ansioso por visitar o primeiro congresso mundial de vegetarianismo a realizar-se na América Latina, e que ao mesmo tempo representava o primeiro congresso que eu, como médico, visitaria nessa "modalidade". Me chamava a atenção a diversidade de temas: sementes andinas, dieta mediterrânea, relatórios médicos de tratamentos de doenças cardiovasculares, câncer e diversas doenças com a prática do vegetarianismo, agricultura orgânica, auto-sustentabilidade, proteção animal e ambiental, fome no mundo, questões éticas como a não vacinação e religiosas.

Ocorreram eventos paralelos tais como desfile de moda sem crueldade (moda sem produtos
animais) e dezenas de oficinas culinárias. Minha palestra "A Culinária dos Alimentos Vivos e a Prática de Medicina Familiar" teve grande assistência. Teve gente ficando de fora!

Ou seja, além de estar visitando um congresso mundial, com palestrantes do mundo inteiro, percebi que estava visitando também um congresso multidisciplinar, que extrapolava tudo o que vi até hoje, em mais de 100 congressos visitados como palestrante ou assistente, dentro da escola clássica de medicina. Não consegui separar no entanto temas "médicos" de temas ambientais ou até espirituais, mesmo porque acredito que um dia estarei visitando congressos médicos que estarão abertamente abordando estes temas. Deixo aqui registrado então minha impressão sobre este evento, que ficará em minha memória e de todos aqueles que compareceram.

Até que um fato pessoal me trouxe a grande força oculta do congresso: enfraquecido pelas exaustivas horas de estrada e mudanças de temperatura entre Rio e Florianópolis em meu jipe Rural 66 carregado de utensílios de cozinha, adoeci seriamente no terceiro dia de congresso. Febre de 40 graus, prostração, dores pelo corpo. Me vi sozinho, dentro de um quarto de pousada… sozinho? Aí começaram a aparecer as pessoas, as luzes, as energias presentes. Ursula Jahara, do Rio, com pratos de frutas lavadas e cortadas, a maravilhosa enfermeira Eleonora Vacilotto, de Porto Alegre, que com seu filhinho Jean no colo, coordenou uma série de medidas (banho de imersão, shiatsu e chás). Os agora queridos amigos cariocas Michel Levy e Paula Gribel, que me receberam – Michel aplicando suas agulhas perfeitas – todos, e eu mesmo com minhas lavagens, fizeram que em um prazo de 24 horas estivesse de novo em pé (com algumas restrições).

Mas não termina por aí. Passei várias noites preparando pratos em meu "bistrô volante" conversando com jovens, entre 19 e 22 anos, de Sergipe, do Mato Grosso, de Brasília, de Belo Horizonte, de Porto Alegre e meus companheiros de viagem Michael e Rafael, que me mostraram o movimento jovem vegan mundial e toda uma consciência que vem surgindo de forma alastrante.

Estes jovens perceberam que o veganismo é muito mais que uma questão dietética. Com seus piercings, tatuagens e cabelos coloridos têm uma consciência e coerência que me causaram um agradável espanto. Não bebem nem usam drogas, mas ouvem um rock furioso.

Fechei a minha participação com a reunião sobre vacinação infantil e uma última visita ao BIOCHIP do Rio de Janeiro, instalado em um engenho velho dentro do hotel. Tomei o caminho de volta, 1240 km na minha Rural – que ganhou de presente uma super limpeza e manutenção, pelo comportamento exemplar. Fiquei grato por esta oportunidade. Grato por saber que uma rede invisível está unindo cada vez mais pessoas, na saúde e na doença. Grato por saber que não estou nem estarei sozinho. Já comecei a preparação para o
próximo congresso, que será na Índia, em dois anos.

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