Tudo cru

Esta é a proposta do crudivorismo, uma tendência vegetariana que pretende aposentar o fogão e levar à mesa alimentos com todos os seus nutrientes intactos para uma vida saudável

POR JANETE TIR
FOTO FERNANDO GARDINALI

Frutas, verduras, sementes, grãos germinados, mel. Estes são os ingredientes básicos do cardápio dos vegetarianos que só consomem alimentos crus, também chamados de crudivoristas. O modismo do raw food (comida crua) nasceu na década de 1990 nos Estados Unidos e prega que o organismo humano só está preparado para consumir alimentos como a natureza os fornece. Apesar de não haver comprovação científica, David Wolfe, seu principal defensor, já publicou seis livros sobre o assunto, vende produtos para este tipo de dieta no site Nature's First Law (www.rawfood.com) e é o mentor do menu que levou várias estrelas a se renderem ao crudivorismo, como Demi Moore, Madonna e Alicia Silverstone.

E se depender dos adeptos do cardápio cru, os fogões poderiam ser banidos da face da Terra. "Sem o cozimento, vitaminas, proteínas e sais minerais estão perfeitamente preservados nos alimentos naturais, integrais e crus", explica o terapeuta e biogenista Fernando Travi, que pratica a dieta há anos e, também, aconselha aqueles que querem se aventurar por esse estilo. "Os alimentos cozidos precisam das enzimas que estão no corpo para serem digeridos e assimilados. Somente os crus contêm enzimas, que são elementos essenciais para qualquer função orgânica. Ou seja, sem elas não há vida", acredita. E acrescenta que, além disso, a dieta facilita a digestão, elimina os quilos extras e a obesidade e dá aos seus praticantes alto índice de vitalidade e resistência.

Já a nutróloga Jocelem Mastrodi Salgado, da Escocla Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais, faz ressalvas: "Não se pode alegar que ao aquecer os vegetais perdemos enzimas presentes nesses alimentos, já que elas não são de extrema importância para o metabolismo".

Mas um ponto importante nesse cardápio é recorrer somente a alimentos orgânicos. Segundo os vegetarianos, a agricultura geralmente usa e abusa de venenos em adubos e na eliminação das pragas das plantações, viabilizando economicamente os seus produtos. Esta prática deixa o alimento impregnado de resíduos tóxicos, inclusive em suas próprias células, tornando impossível a eliminação desses produtos nocivos com lavagens, por mais completas que sejam.

De acordo com Fernando Travi há experimentos, inclusive, que demonstram que os alimentos cultivados com agrotóxicos se tornam centenas de vezes mais tóxicos com o cozimento. Portanto, independente do estilo de alimentação, é preferível sempre usar vegetais orgânicos e, com isso, evitar doenças.

Sob vários ângulos

Para o nutricionista vegetariano George Guimarães, de São Paulo, quem adota esta dieta precisa fazer pelo menos seis refeições diárias, já que os produtos crus são menos densos, possuindo mais água e fibras em sua composição. O especialista recomenda também uma alimentação bem variada para, através do prato, dar ao organismo todos os nutrientes necessários, como ferro, zinco e vitamina E.

Aos que querem experimentar essa alternativa, Fernando Travi conta que é necessária a orientação de um biogenista ou higienista. "É um mito dizer que uma refeição deva conter sempre todos os nutrientes necessários, pois o que você não come hoje poderá completar amanhã. Algumas pessoas precisam mais de proteínas porque estão crescendo ou amamentando ou gestando. Outras necessitam de mais enzimas, se estão doentes, e outras ainda de mais vitaminas. Quando um indivíduo está saudável, tem um instinto são que permitirá escolher corretamente as quantidades e as qualidades dos alimentos necessários à sua vida", acrescenta George Guimarães.

Quanto ao poder de cura dessa corrente alimentar, o biogenista Fernando Travi é taxativo. "Nenhuma dieta tem o poder de curar, mas quem come corretamente evitará a maioria das doenças e estará preparado para recuperar-se até de distúrbios graves como o câncer, a tuberculose e outras enfermidades consideradas irreversíveis pela medicina tradicional".

A nutróloga Jocelem Mastrodi Salgado lembra, no entanto, que alguns alimentos, como o tomate, se cozidos, possuem a biodisponibilidade aumentada de substâncias protetoras como o licopeno, um carotenóide que tem sido investigado por reduzir o risco de doenças cardiovasculares e câncer de próstata. Por isso, o cozimento em alguns casos é prescindível. "Esse cardápio totalmente cru geralmente é deficiente em proteínas, cálcio, ferro e vitamina B12, nutrientes encontrados em abundância nos alimentos de origem animal, e extremamente importantes para o crescimento das crianças e funcionamento adequado do nosso organismo", alerta a especialista.

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