Terra Solidária

 

Luc Vankrunkelsven

Estamos em 30 pessoas, reunidas durante três dias, em Francisco Beltrão (PR). São vinte os coordenadores e formadores do projeto de educação inovador ‘Terra Solidária’. Trata-se de um programa extraordinário, em colaboração com o Governo Federal (1), para proporcionar a educação no campo.

A ideologia que predomina na cabeça das pessoas, também entre os jovens do meio rural, é: “Fazer carreira na cidade!” Por isso, é bom que exista não somente Terra Solidária, mas também um programa de educação similar para jovens e para mulheres. Estes cursos são uma contra-ofensiva para desmascarar o discurso dominante.

Paulo Freire e a ‘Pedagogia do Oprimido’ 

“Ninguém educa ninguém,

ninguém educa a si mesmo.

Os seres humanos se educam entre si,

mediatizados pelo mundo.”

 

(Paulo Freire)

 

 

Durante estes dias, sente-se a influência do conhecido pedagogo brasileiro Paulo Freire. Por meio de sua principal obra – Pedagogia do Oprimido – ele continua proporcionando inspiração. Freire nunca está distante na saudável mescla de informações fornecidas por um ‘especialista’ e o trabalho da base. O recém-concluído módulo sobre ‘desenvolvimento’ é avaliado em grupos e em plenário. O próximo módulo, que terá início após o Natal, está sendo preparado: ‘Agricultura Familiar, sociedade e meio ambiente’, com ênfase em agroecologia.

O interessante é que, no Brasil, pode-se discutir sobre sociedade de classes e capitalismo sem complexos, ao contrário do que ocorre na Bélgica, onde não se ousa empregar estes termos. O mesmo acontece quando se trata de meio ambiente. É assim que um palestrante da Assesoar vem colocar a atual ‘preocupação com o meio ambiente’ em uma perspectiva histórica. Ele começa com o Banco Mundial que, numa missão ‘messiânica’ por parte dos ‘países desenvolvidos’ (mais especificamente, o mundo empresarial dos Estados Unidos), veio para ‘salvar’ os ‘países subdesenvolvidos’. A linguagem dos textos que ele cita realmente chama a atenção. Desvincular-se da natureza era uma premissa. Caso contrário, nunca seria possível chegar ao ‘desenvolvimento’. Esta postura inicial se baseia, é claro, numa ideologia que teve início há muitos séculos com os gregos, foi fortalecida pela tradição judaico-cristã e se tornou totalmente dominante com pessoas como Francis Bacon, no século XVII (1561-1626). Ele foi um dos proeminentes pensadores da escola do Iluminismo. Estes filósofos nos trouxeram grandes conhecimentos, mas será que em algumas áreas da vida este Iluminismo não poderia ser chamado de ‘Obscurantismo’?

Ele prossegue: “No século XX, tivemos a poderosa indústria do aço e o surgimento da indústria química. Também foi graças a isso que, junto com a indústria do aço, em São Paulo, o sindicalismo independente ganhou força. Atualmente, esta indústria – e também o sindicalismo – estão mais fragmentados. Nós já observamos há algum tempo a redução dos setores do aço e da química. O setor químico buscou um novo caminho e o encontrou. As indústrias químicas passaram a investir em biotecnologia, no genoma humano e muito mais. Sementes e patenteamento de organismos geneticamente modificados são parte da nova estratégia.

Neste contexto de redirecionamento do capital, a agroecologia adquire um caráter de luta social, comparável com o sindicalismo na cidade. É uma luta histórica. Agroecologia, tecnologia, ação local e transformação andam juntas. É preciso encarar nossas ações dentro de um grande projeto político e não abandonar o campo. A cidade e o campo devem se unir para dar um basta na hegemonia da Monsanto e sua soja transgênica. Podemos trabalhar em um triângulo dinâmico: agricultura familiar, sociedade e meio ambiente.”

Adalberto Freire e os ‘obstáculos para se chegar à agroecologia’ 

Em seguida, abre-se o debate para a plenária e qualquer um pode argumentar sobre por que a agricultura familiar não pode romper bruscamente com o modelo tradicional e optar pela produção agroecológica. Adalberto Freire – não, não é o filho de Paulo Freire e sim coordenador de Terra Solidária – digita no computador. O data-show reproduz o debate:

 

          Falta de ação, não se consegue pôr em prática porque o processo é lento;

          O conhecimento é fundamental para práticas agroecológicas;

          Falta de políticas públicas para o meio ambiente;

          Qual é nossa capacidade de proposição de políticas públicas?

          O comodismo imposto pelo projeto neoliberal/capitalismo;

          Desestímulo da produção devido à competição no mercado com produtos geneticamente modificados;

          Individualismo incentivado pela Revolução Verde;

          A idéia de que produzir de forma tradicional é menos exaustivo;

          A transformação para um processo agroecológico requer uma mudança cultural;

          Será que os(as) agricultores(as) familiares têm opção de escolha do seu processo produtivo?

[Foto 54]

Em chão onde se planta educação, colhe-se uma Terra Solidária.

          Embora se tenha avançado nos debates, há uma imensa dificuldade de implementar sistemas agroecológicos de produção;

          Qual o volume de recursos utilizados para agroecologia e qual o volume de recursos utilizados para pesquisas tecnológicas?

          Agroecologia como uma possibilidade de mudança social;

          Mudança de nossos hábitos cotidianos para uma mudança radical de incorporação de práticas agroecológicas;

          Não existem receitas prontas para a produção agroecológica;

          Alimentos produzidos de forma agroecológica têm custo financeiro mais elevado, dificilmente competem com o mercado;

          A mudança para uma produção agroecológica precisa ser vista como um processo ‑ passa por quem produz, mas também por quem consome;

          Onde se encaixa a produção agroecológica: no mercado ou na feira?

          Trabalhar com as contradições;

          Agroecologia mediadora entre a natureza e a sociedade.

 

A relação é longa, mas serve de aquecimento para abordar o tema da próxima etapa. São 20 grupos, cada um com 30 alunos, que retomarão seus estudos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Educação sob medida para eles e a partir da realidade que eles vivem no campo. Nos últimos anos, ouve-se falar muito em ‘conservação’ no Brasil, mas como é possível combiná-la com ‘produção’? A agricultura familiar certamente pode fazer a diferença nisso.

 

Será que conseguiremos retornar a uma Terra Solidária? Onde terra e solidariedade caminhem juntas? Afinal um programa semelhante a Wervel: Grupo de Trabalho por uma Agricultura Justa e Responsável. Agricultura ecologicamente responsável com a terra que nos sustenta. Uma terra que se recupera e na qual uma agricultura socialmente justa se torna possível.

 

Francisco Beltrão, 8 de dezembro de 2006.

(1)   O governo federal planeja, para 2008, criar uma nova universidade no Oeste de Santa Catarina, denominada ‘Mesorregião Grande Fronteira do Mercosul’. Será uma universidade para a região montanhosa dos três estados sulinos do Brasil, com possibilidade de cooperação além das fronteiras, com Argentina e Paraguai. No início de 2007, foi realizada, em Chapecó, uma grande audiência com os movimentos e organizações sociais da região. A intenção é criar uma universidade nesta região onde, até agora, não há cursos de nível superior, e em sintonia com os anseios da Agricultura Familiar e outros movimentos sociais.

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