Terra água sementes

Luc Vankrunkelsven

A primeira semana em Curitiba está sob o signo do Tratado de Cartagena (acordos sobre o comércio de produtos transgênicos). Na segunda semana, serão tratados vários temas que podem ser reunidos no amplo conceito de ‘biodiversidade’.

A FAO e a ONU fazem um jogo relativamente aberto. ONGs, indústria, imprensa e outros ‘stakeholders [interessados]’ são bem-vindos. Nas sessões oficiais eles somente podem atuar como observadores. As ONGs podem organizar atividades paralelas nas instalações ou fora do prédio central. É o que ocorre com grande intensidade. Logo fica claro quem é que tem mais influência. A dificuldade para ser admitido é grande. Levei duas horas para conseguir as minhas autorizações. Enquanto isso, vejo um norte-americano, ‘representante da indústria’, ser admitido em questão de minutos.

Obviamente os lobistas conhecem mais macetes neste ramo do que um sindicato rural que deseja participar de um encontro destes. Lá dentro, os lobistas da indústria estão sutilmente onipresentes.

 

[Foto 29]

Bem vindo ao mundo real. Rui Valença faz uso da palavra

Centro e periferia

Há, claramente, um ‘centro’ e uma ‘periferia’. O evento ocorre no ‘Expo Trade’. O complexo de prédios abrange também o Carrefour. Será que vão tratar da biodiversidade e dos transgênicos no contexto do comércio dominante, internacional? Atrás do prédio, em barracas alvas como a neve, continuam as atividades paralelas das ONGs e dos movimentos sociais, sob a logomarca sugestiva: ‘Bem-vindo ao mundo real’. E como é a realidade, além da propaganda das grandes empresas e seus lobistas? Logo adiante, os povos tradicionais (1) receberam autorização para montar uma aldeia. Para ilustrar a biodiversidade do povo brasileiro? O resultado é uma simpática aldeia com debates e rituais próprios. Por toda a cidade encontram-se slogans com rostos pintados: ‘A biodiversidade está na gente.’

 

[Foto 30]

Os índios receberam autorização para montar sua aldeia lá fora

 

O prédio principal, no qual foram instalados restaurantes caros, exibe também uma imensa exposição sobre preservação da natureza e biodiversidade. ONGs como Greenpeace e WWF estão fraternalmente ao lado da grande indústria, que não perde a oportunidade de manifestar seu desejo de preservar a natureza. Não serão somente ‘vitrines’ e ‘greenwashing[1]? A Vale do Rio Doce, por exemplo, está presente – e com destaque – com dois andares de exposições sobre seus ‘benefícios’ para a humanidade e para a natureza. Justamente ela – a maior multinacional mineradora do mundo – que, em Carajás e Minas Gerais, despoja a terra de suas riquezas transportando-as para China-Europa (2). Logo ela, que é responsável pela destruição de enormes regiões para extração de bauxita e minério de ferro. Ela, que pressiona continuamente os povos tradicionais que precisaram de autorização para montar sua aldeia lá fora. Mesmo assim, ela conta uma bela história sobre biodiversidade e natureza que ela preserva. Agora só falta a Monsanto, mas eles dominam a arte de, com suas patentes, disfarçar-se em outras empresas e estarem presentes ainda que de maneira invisível.

___________

[1] Segundo Thiago Cássio D'Ávila Araújo Greenwashing é um termo em língua inglesa usado quando uma empresa, organização não governamental (ONG), ou mesmo o próprio governo, propaga práticas ambientais positivas e, na verdade, possui atuação contrária aos interesses e bens ambientais.” Fonte: <http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=32741>., consultado pelo tradutor. Acesso em: dez. 2007.

Tire a mão de nossas sementes!

Hoje ocorre nas barracas dos movimentos um debate sobre ‘a privatização dos recursos genéticos e da agricultura familiar’. O público é formado, principalmente, por jovens do MST e do MAB. Eles realizam, nesta semana em Curitiba, seu segundo encontro nacional sobre ‘água e energia para a soberania do povo brasileiro’.

Em Porto Alegre, o enfoque principal foi ‘terra’. Aqui, trata-se mais de ‘água e sementes’. Mas, na verdade, trata-se sempre novamente da tríade ‘terra-água-sementes’. As três estão sofrendo intensa privatização. A tríade ‘multinacionais-agronegócio brasileiro-imprensa’ está cuidando disso.

Vamos continuar falando um pouco mais das sementes. Participam do painel três mulheres fortes da Via Campesina, do México, da Índia e de Bangladesh. Uma outra tríade. Silvia Ribeiro, do México, traça o panorama das sementes. Há 30 anos, ainda havia 7 mil empresas atuando na produção de sementes para a agricultura convencional. Há 10-15 anos, ainda restavam cem. Em 2006, trata-se de dez multinacionais químicas e de sementes, que controlam 50% do mercado de sementes.

 

Participação no mercado, em 2004 (valores em dólares norte-americanos)

1. Monsanto (EUA)

2,83 bilhões

2. Dupont/Pioneer (EUA)

2,6 bilhões

3. Syngenta (Suíça)

1,3 bilhões

4. Grupo Limagrain (França)

1,0 bilhão

5. KWS AG (Alemanha)

622 milhões

6. Land O-‘Lakers (EUA)

538 milhões

7. Sakata (Japão)

416 milhões

8. Bayer Crop Science (Alemanha)

387 milhões

9. Taikii (Japão)

366 milhões

10. DLF-Trilfolium (Dinamarca)

320 milhões

11. Delta & Pine Land (EUA)

315 milhões

 

 

Fonte: ETCGroup, 2005.

 

 

As sementes que 1 bilhão de campesinos(as) transmitem ano após ano, geração após geração, é uma história totalmente diferente. Suas tradições, cultura e independência são perseguidas sem tréguas por sementes-vinculadas-a-produtos-químicos, sementes transgênicas e, agora, a ameaça do gene terminator (3). Ela continua: “Em 2000, dentre as cem maiores economias do mundo, o número de empresas foi maior do que de países (representados por seu PIB). 51 versus 49 para ser exato. Entre estas cem grandes, o supermercado Wal-Mart é o maior entre os gigantes, maior do que qualquer empresa petrolífera. Tais empresas determinam o que será semeado, quem semeia; o que será produzido, como e por quem. Quem come e o que come. E quem não come e o que não come.”

Dentro e fora

Farida Akther, de Bangladesh, toma a palavra. Com boas imagens, ela esboça com perfeição os dois mundos neste congresso: “Nós estamos aqui, no calor de uma barraca. É duro, mas podemos sentir a vida real, com suas alegrias e dores. Eu estive lá dentro, mas lá é frio e insensível. O ar condicionado faz com que os presentes não participem da vida real. Os sentimentos são anestesiados. Aqui fora nós sentimos as dificuldades pelas quais passam os campesinos do mundo todo. Qual a luta que precisam enfrentar dia-a-dia.”

Nem bem ela terminou de falar e ficamos sabendo que os donos dos restaurantes ‘lá dentro’ estão protestando contra a comida excepcionalmente boa ‘aqui fora’. Alimentos saudáveis e baratos, direto da mão do agricultor. Muitas das pessoas enregeladas ‘lá de dentro’ vêm buscar o calor e o sabor da alimentação ‘aqui de fora’.

 

[Foto 31]

Mística com milho crioulo. Manifestação contra o gene terminator

 

As barracas de alimentação das ONGs e dos agricultores são fechadas. “Bem-vindo ao mundo real.” Também numa conferência da ONU sobre biodiversidade, a diversidade de alimentos saudáveis é considerada uma ameaça para o sistema.

Os debates e manifestações não diminuem em razão disso. Ao contrário. À tarde, os agricultores oferecem, gratuitamente, ‘milho crioulo’ cozido. Ou seja, uma saborosa diversidade de milho. Também os ‘indígenas’, em sua aldeia, distribuem gratuitamente os alimentos que trouxeram.

À noite, os agricultores agroecológicos do Paraná celebram uma mística envolvente. Eles não vão permitir que lhes tomem suas sementes e seus alimentos básicos. E querem distância de Wal-Mart, Monsanto e terminator.

Mesmo assim… será que um outro mundo é uma das possibilidades?

 

Curitiba, 17 de março de 2006.

 

 

(1)   Há dez anos surgiu em Buenos Aires o Fórum Indígena Internacional sobre Biodiversidade (FIIB). Ele representa 150 povos tradicionais de 120 países, tanto de países como Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia quanto parte dos povos tradicionais da Ásia, África e América do Sul.

(2)   Leia mais sobre a empresa Vale do Rio Doce em ‘Soja e alumínio’, no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.’ Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006.

(3)   <http://www.banterminator.org>, do francês, ‘terminer’: terminar (a vida). A semente é manipulada geneticamente de tal maneira que perde seu poder de germinação na colheita. Ou seja, o(a) agricultor(a) é obrigado(a) a, todo ano, voltar ao produtor de sementes. Em agosto de 2006, Monsanto adquiriu seu maior concorrente em sementes de algodão, a Delta & Pine Land (D&PL), por 1,5 bilhão de dólares. D&PL é conhecida por sua patente sobre o ‘gene terminator’. Em 1998, Monsanto já quis comprar D&PL, naquela época por 1,8 bilhão de dólares (note a diferença no preço). Por causa do protesto internacional (entre outros, de Wervel) contra o gene terminator, Monsanto retirou sua oferta em 1999. Há anos Monsanto promete que ‘não vai utilizar o gene terminator’ na produção de alimentos: <http://www.monsanto.com/monsanto/content/media/pubs/2005/focus_impacts.pdf>. Devido a esta posição ambígua e esta compra, Monsanto pode utilizar o ‘terminator’ – sim – em um dos ramos mais lucrativos do agronegócio: algodão. Enquanto gigante da indústria química, não só as sementes são interessantes; o cultivo de algodão responde, mundialmente, por 26% dos agrotóxicos utilizados no planeta. Juntas, Monsanto e D&PL controlam atualmente 57% do mercado norte-americano de sementes de algodão e, com D&PL, mercados importantes em 13 países, como China, Índia, Brasil, México, Turquia e Paquistão. No Brasil, elas detêm 1/3 das sementes de algodão. Com esta aquisição, Monsanto quer estabelecer definitivamente sua hegemonia na terra do algodão. Os olhos estão especialmente voltados para a África porque, em virtude das negociações na OMC, no longo prazo não será possível continuar dando tantos subsídios aos produtores de algodão norte-americanos. Uma boa parte da produção de algodão será deslocada, portanto, para a África e Ásia. Agora Monsanto poderá impor suas sementes transgênicas a milhões de pequenos agricultores da África, que precisam delas para sobreviver. Apesar da crescente resistência na África Ocidental, em 2004, D&PL já realizava experimentos com algodão transgênico em Burkina Faso, Mali e Egito.

 

 

 

 

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