Sujeitai e dominai

Talvez o significado original da palavra latina e a história desse termo pudessem ser comparados com a notória passagem da história da criação, em Gênesis 1: 26-28: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele DOMÍNIO sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e SUJEITAI-A; DOMINAI sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. É claro que é possível dar uma explicação exegética[1] para isso. Se compreendêssemos verdadeiramente o contexto, a espiritualidade judaica e o tom básico da bíblia, deveríamos interpretar estes termos ‘dominar’ e ‘sujeitar’ de maneira diferente do que estão escritos. Por mim, tudo bem, mesmo sabendo que já existe, há 40 anos, um intenso debate em torno disso (5). O que lembro bem é como esta passagem adquiriu vida própria ao longo dos séculos. Tornou-se uma ‘Declaração de Missão’, que legitimava uma ideologia de subjugação e dominação. Subjugação da natureza. Subjugação dos povos indígenas, que geralmente se consider(av)am parte dessa natureza. Os ‘índios’ costumam ter uma relação diferente com a terra que nos mantém. Mas o texto adquire um significado à parte quando é lido durante a Vigília Pascal (6) e se observa que são os descendentes dos colonos que ocupam a catedral. A Páscoa trata da ‘Nova vida’. Nova Terra! Eles não atravessaram o mar? O oceano! Para, em seguida, sofrer privações numa terra inóspita, às vezes durante décadas. E quando, finalmente, as árvores foram derrubadas, as cobras exterminadas e os nativos expulsos, só então ela poderia tornar-se sua ‘Terra Prometida’. Sujeitada. Para exercer seu domínio sobre todo ser vivente. Em Chapecó, principalmente sobre galinhas, perus e porcos. E sobre os demais seres humanos: agricultores que, por contrato e para atender aos ditames do mercado mundial, precisam engordar excessivamente os animais. Trabalhadores que, continuamente, são obrigados a fazer ‘cortes especiais’ destas novas vidas, como se fossem seres sem alma.

Uma das mulheres do povo suspira: ‘Para Chapecó ainda temos o fato de que a população aqui é extremamente consumista, muito mais do que em outras regiões. Sempre querem novidades.’ A eterna busca por novas emoções e coisas novas. Coisas novas! Não só uma TV, mas logo três por família. Não um carro comum, mas uma 4 X 4. Como o vizinho. Vida nova?


[1] Exegese – comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação dum texto ou duma palavra. [Aplica-se de modo especial em relação à Bíblia, à gramática, às leis.] Fonte: FERREIRA, Aurélio B. de H. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

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