Brasileiros

Sou vegetariano diz Lima Duarte

em 30/01/2009 23:30:00

O experiente ator Lima Duarte, 78, revela que o contato com a cultura indiana o transformou. “Tenho uma atenção maior com o outro”

FOTO: Divulgação/AE: Lima Duarte se prepara para gravação de cena da novela "Caminho das Índias", da Rede Globo. O ator, de 78 anos, não entende a pressa da televisão. Ele se aprofunda tanto na composição de seus personagens, que o relógio se torna um detalhe


Alline Dauroiz
Da Agência Estado

Lima Duarte, 78 anos, não entende a pressa da televisão. Ele se aprofunda tanto na composição de seus personagens, que o relógio se torna um detalhe. Nas pesquisas para interpretar Shankar em "Caminho das Índias", novela das nove da Globo, o ator fez seu tempo, enquanto digeria o choque cultural por gravar na Índia. Ele não admite, mas deu uma de "professor" para os que chama de "estrelas" – uma delas Márcio Garcia, seu filho na trama de Glória Perez.

Como é gravar com atores bem mais novos? Dá uma de diretor?
Não… É muito complicado. São estrelas, né? Mas, às vezes, converso sim. Disse ao Mário Garcia…

Quer dizer, Márcio Garcia?
Isso, isso, Márcio. Falei para aprofundar o personagem. Alguém que traz em si séculos de humilhação, de violência, tem de ter um olhar que traduza isso. Falei: "Esquece um pouco aquela coisa do Rio, pensa no personagem, para ficar um jovem hiperromântico, um (filme) ‘Dama das Camélias’. Profundo e triste. O público vai se perder de amores por você."

Você é um professor…
Não! Falo muito mesmo, porque gosto. Minha visão de personagem não deixa nada barato, aprofunda tudo. Não tem esse naturalismo de consumo que a gente vê nas novelas. Interpreto um subtexto.

E ele gostou do que ouviu?
Quando fomos gravar de novo, ele me disse que havia pensado muito no que conversamos e que ia tentar fazer. Falo, porque é meu trabalho também. Mas é aquela coisa: quer ouvir, bem. Não quer? Faz aí seu trabalho, eu faço o meu. E você vai ver o baile que vai levar… (risos).

Então, isso é um aviso?
Não, falo isso para crescer o meu personagem. Se o seu personagem estiver para baixo, o meu vai para as cucuias. É gostoso jogar, senão você fica uma ilha. Já aconteceu isso em outras novelas. Gente que fala depressa, para acabar logo, para a gente ir embora para praia, pô! O telespectador não é idiota, ele percebe que o sofrimento não é de verdade. Para mim, o público diz: ‘Você não mente, você sofre mesmo’.

E sofre mesmo?
Sim. Fiquei tão louco com a aquilo (a Índia). O horror e a maravilha em cinco metros de quarteirão. Uma miséria, um trânsito enlouquecedor de carros, camelo, vaca , elefante… Como pode tanta miséria e riqueza cultural juntas?

O que mais o chocou?
Tudo! Os homens andam de mãos dadas. Não há a moral cristã. Todos comem na rua, no chão, com a mão. Estava andando com o motorista indiano da produção e, de repente, ele parou o carro. Tinha uma vaca parada na rua. Perguntei: ‘Você nunca comeu um pedacinho de carne de vaca?’ Nunca vi tanto terror num olhar. Ele disse: ‘Se eu vir alguém matar uma vaca, eu mato, porque quando minha mãe não pôde me dar a seiva, a vaca tirou do filho dela para me dar’. Eu disse: ‘Sou vegetariano’. E ele: ‘Você é um bom homem’ (risos).

Passou por muitas situações como essa na Índia?
Muitas. Em um passeio por Jaipur (cidade que serviu de locação para a novela), uma cena me comoveu. Vi uma família sentada no chão sujo, comendo com as mãos. Aquele homem olhou para mim, e nos olhamos no fundo dos olhos. Ele não se zangou. Pelo contrário. E, com um sorriso doce, me ofereceu a própria comida. Foi um gesto que cruzou o oceano e me fez lembrar de Minas Gerais, a minha terra, de meus pais. E fiquei pensando: ‘Mas por que pensei tão mal dele? Ele tem uma alma tão limpa, tão generosa…. Aí, compreendi a profundidade da Índia.

Verdade que, longe da produção, gravou cenas fora do script?
No primeiro dia, não consegui dormir. Conversei muito com a Glória (Perez) para entender por que Shankar quer abrir mão de tudo e ir para as montanhas. Um trauma deve ter acontecido com ele. Queria aprofundar o personagem e penetrar na Índia. Quero estar ao lado daquele homem que me sorriu e me ofereceu comida. Então, chamei (o diretor Marcos) Schechtman e fomos num daqueles homens que tocam flauta para as (cobras) najas.

E foi ele quem gravou?
Sim. Com uma pequena câmera. Peguei a cobra e dialoguei com ela.

Falei para ela: ‘Tira essa peçonha que deixaste em meu coração, ensina-me o caminho da morte.’ Foi tão forte. Mas não sei se vão usar a cena…

Mudou com o choque cultural?
Mudei sim. Hoje tenho uma atenção maior com o outro. Fiquei curioso com esse homem que pensa que, um dia, deus Shiva vai perguntar: ‘O que você fez com o seu corpo?’ E ele tem de prestar contas dele.

 

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