Sol, Sal e C… de Congresso! – Tina Fox – presidente da IVU

Sol, Sal e C

… de Congresso! 

De The Vegetarian (VSUK), primavera (2o trimestre) de 2005:

A longa viagem ao Brasil me deixou em dúvida se realmente valeria a pena: um total de 28 horas de deslocamento, uma conexão perdida por causa da empresa aérea e nossa chegada com tempo apenas para comer os restos do almoço, se tivéssemos sorte, não me deixaram de bom humor. Mas o lugar parecia maravilhoso e a primeira refeição também foi impressionante, considerando que estávamos no fim da fila, mas como não havia nada explicado em inglês não tínhamos idéia do que estávamos comendo! Além disso, levamos uns 20 minutos para encontrar o local do almoço, porque recebemos muitas instruções conflitantes!

Bastou uma hora de sono para consertar o mundo e confirmar a primeira impressão de que o lugar era fantástico: tudo podia ser visitado a pé, não só as palestras e os locais de refeições, mas também o mar e os maravilhosos passeios ecológicos pela floresta ou nas dunas de areia. O quarto que dividi com mais duas pessoas era muito confortável, com uma linda vista da encosta da montanha, dos jardins e do mar e fiquei espantada com a abundância de vida selvagem à vista, principalmente a corujinha que morava logo abaixo do nosso quarto com seus dois incríveis filhotes.

Os jovens são o futuro do mundo e foi bom ver tantos voluntários e ativistas entusiasmados       do mundo todo

Também havia muitos falcões e outros pássaros e, embora o tempo estivesse meio nublado, era bem mais quente que no Reino Unido.

As salas de reunião eram excelentes, com um salão grande com tradução simultânea (inglês e português), cinco salas menores para palestras e duas áreas para demonstrações culinárias. No primeiro dia não as utilizamos muito, pois estávamos cansados demais da viagem para aproveitar! A refeição da noite foi incrível em variedade e colorido: todas as frutas que se pode imaginar e mais algumas, saladas fantásticas, cerca de nove pratos principais diferentes e vários pudins ótimos (inclusive um de manga e coco que era de morrer de tão bom), e tudo agora devidamente rotulado em inglês. Estava um pouco apreensiva porque não gosto de comida apimentada e achava que tudo teria pimenta, mas na verdade havia grande variedade de pratos saborosíssimos com muito arroz e cuscuz e seria impossível não ficar satisfeita com a oferta. Esta variedade foi constante a semana toda e ouvi muitos elogios merecidos à comida servida, tanto sobre a qualidade quanto sobre a quantidade.

O primeiro dia do congresso teve nada menos que 19 palestras sobre uma grande variedade de temas, uma sessão plenária sobre saúde e quatro demonstrações culinárias. Os temas abordados foram saúde, ética na escola de veterinária, Anna Kingsford, por que protetores de animais comem animais, alimentação e humor etc. Minha palestra foi sobre o gerenciamento do esquema de marca registrada da Sociedade e foi muito bem recebida. Fiquei especialmente entusiasmada com uma palestra de Paul Turner, da Food for Life, sobre como alimentar os famintos do mundo; fiquei tão impressionada que pretendo passar para eles os fundos que dôo a outra instituição de caridade, por ter achado tão útil e objetiva a sua abordagem. O segundo dia seguiu um plano semelhante e tivemos a assembléia geral da IVU para eleger o novo conselho. Foi maravilhoso ver que o Congresso do Brasil não só teve um público maior que o congresso anterior (cerca de 600 pessoas de 33 países) como também muito mais gente jovem. Os jovens são o futuro do mundo e é bom ver tantos voluntários e ativistas entusiasmados. Na verdade, uma nova entidade nasceu no Congresso, a União Vegetariana Latino-americana, com cerca de sete ou oito países já representados. À noite, uma ótima apresentação de dança afro-brasileira incluiu uma dança do fogo e a grande participação do público fez o dia terminar em grande estilo.

A quinta-feira foi o dia livre marcado para as excursões a um spa ou um passeio de escuna para ver golfinhos. Fui neste último e visitamos várias fortalezas, inclusive uma que ocupava uma ilha inteira cheia de pássaros tesourões, muito impressionante. Como o tempo não estava bom, achamos que não conseguiríamos ver os golfinhos, mas eles devem ter sabido que os vegetarianos vinham visitá-los e compareceram em grande número, uns 30 de cada lado do barco. Isso valeu pela viagem e aqueles poucos minutos no paraíso compensaram todo o esforço.

Na sexta-feira, tivemos uma surpresa maravilhosa: o dia amanheceu ensolarado, com céu limpo e azul, e assim fomos para a praia depois do café da manhã. As ondas estavam altíssimas e revigorantes e me prepararam para uma tarde movimentada, em que dei  uma palestra sobre como fazer campanhas objetivas, seguida de imediato por uma reunião do conselho da IVU e, depois, pela moderação da plenária sobre o meio ambiente. A diversão da noite foi um desfile de moda sem crueldade, que teve ampla cobertura da imprensa.

Congresso Vegetariano Mundial - Florianópolis

O último dia da conferência chegou depressa demais e começou com a “caçada ao café da manhã”, que deveria estar numa tenda ao lado da piscina mas se mudara sem avisar ninguém! Bem, havia muito sol e a caminhada inesperada nos fez ver um lindo beija-florzinho, e não me importei muito. Depois de outra caminhada curta até a praia, onde as ondas vigorosas nos pegaram de surpresa quando andávamos pela beira d’água, tivemos, à tarde, uma reunião conjunta IVU/EVU para discutir maneiras de trabalharmos juntos. Também me preparei para a demonstração do “dream cream”, o creme dos sonhos, de Gerry Coffey, que ensinou como fazer um tipo de sorvete vegano com bananas, muito gostoso. Depois da plenária saí para um breve passeio pela floresta antes do jantar e vi muitas borboletas e pássaros lindos, um grande lagarto e… uma tarântula! Fiquem um pouco assustada com ela mas ela nem me notou e, com certeza, é uma experiência que não vou esquecer. O Jantar de Gala à noite foi especial, já que seria a última vez em que estaríamos todos juntos, mas como em todos esses eventos a comida desapontou e não foi tão boa quanto já estávamos acostumados.

No dia seguinte, um grupo de 16 de nós partiu numa viagem por Santa Catarina e pelo sul do Brasil. Levamos nove horas para chegar ao hotel em Imbituba, com uma única paradinha no farol durante o caminho para ver baleias. Infelizmente, alguém esqueceu de avisar as baleias e elas já tinham partido há semanas. Alguém do nosso grupo viu um golfinho, então houve algum consolo. O primeiro hotel era bem pequeno, mas o proprietário nos compensou com um bufê magnífico. A comida era surpreendentemente saborosa e quase tão variada quanto no Congresso. No dia seguinte, partimos para Gramado, na área do Rio Grande do Sul — novamente, uma longa jornada de nove horas com uma parada para tomar caldo de cana, que foi interessante, e, é claro, com um cenário maravilhoso. Ficamos muito surpresos com a próxima parada, Gramado: pensamos ter nos mudado para a Alemanha ou a Suíça! As casas eram todas muito bávaras, devido à influência de muitos colonos alemães na região, e tudo muito natalino, já que isso é tradição naquele lugar. O hotel, nosso lar nas próximas duas noites, era muito confortável, embora a comida, como em tantos hotéis grandes, fosse limitada e não tão boa quanto no primeiro. Na terça-feira partimos em jipes para ver o espetacular canyon, muito dramático, e não dava mesmo para chegar perto da borda. O dia terminou com um passeio em Gramado para comprar lembranças; estávamos começando a ter sintomas de síndrome de abstinência de compras, já que os brasileiros são adoravelmente pouco comerciantes.

Na quarta-feira, começamos  a viagem de volta a Florianópolis e paramos no Parque Caracol, onde subimos acima do alto das árvores num elevador e admiramos a cachoeira Véu de Noiva em toda a sua glória. É um lugar maravilhoso, com muita vida selvagem, mas infelizmente a visita foi curta, pois tínhamos de percorrer uma longa distância. Também paramos numa maravilhosa fábrica de calçados veganos, coisa que eu não esperava ver no Brasil, famoso por seu couro e sua carne. Quando finalmente chegamos ao hotel estávamos cansados, já escurecera e o caminho que subia o morro não era iluminado. Estava meio apreensiva de ficar sozinha num chalé mas valeu a pena quando acordamos de manhã. Nosso lar de dois dias é um paraíso ecológico. São chalés confortáveis de madeira numa encosta dando para o mar, com tantos pássaros e borboletas que era uma maravilha; acho que todos gostaríamos de ficar lá mais tempo. Na quinta-feira, fizemos um passeio guiado pela praia e vimos as árvores, borboletas e pássaros mais fantásticos pelo caminho. O sol brilhava, a praia estava limpa e vazia e as ondas estimulantes — o que mais querer da vida? Tivemos até um piquenique vegano fornecido por nossos anfitriões. Infelizmente, na sexta-feira nosso grupo de 16 pessoas se separou para seguir seus vários caminhos e chegou a hora de dizer até logo à nossa nova família vegetariana. De volta ao frio do nosso inverno britânico, como tudo agora parece mágico e irreal, mas com toda a certeza este foi um Congresso e uma experiência diferentes e que nunca esquecerei. 

Tradução: Beatriz Medina

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