Soja, fumo e a cruz

É uma semana com programação carregada: de Guaraciaba, passando por Concórdia e Ijuí, até Santa Cruz do Sul. Com um ritmo intenso de encontros com grupos e temas diversos: sementes crioulas com agricultores e estudantes da Casa Rural Familiar, em Guaraciaba; em virtude do Dia Mundial da Água, tratar desse tema na escola técnica de Concórdia; à tarde, na Faculdade FACC, com Fetraf, Embrapa “suínos e aves”, movimento ambiental, autoridades locais, o diretor da recém-criada faculdade, etc.; à noite, pela terceira vez em Concórdia, conversa com estudantes de enfermagem e nutrição na Universidade do Contestado a partir do DVD “A vaca 80 tem um problema”; no dia seguinte, Ijuí: um encontro com estudantes de agronomia da universidade local. Nos intervalos, entrevistas a jornais e rádios. Há muitos debates. O tema água parece estar adquirindo vida nesse país, onde esse recurso é abundante. No estado de Goiás, vejo ao longo da rodovia uma placa que avisa: “Preservar água é dever de todos”. 

Espada e cruz, soja e milho 

A próxima etapa é  em direção à Universidade de Santa Cruz do Sul. Trata-se de uma atividade com representantes de diversas ONGs, igrejas, agricultores, prefeituras, professores, Ministério do Desenvolvimento Agrário. A viagem de ônibus de Cruz Alta (via Vera Cruz) até Santa Cruz do Sul me transporta – como se fosse uma máquina do tempo – para o século XVI: de cruz por cruz para cruz. Quantas cruzes! Naquela época, com a utilização da cruz e da espada, as conquistas eram fáceis. Na tradição cristã, a cruz é um símbolo não somente de sofrimento e morte, mas, principalmente, de glória e vitória. Vitória da vida sobre as diferentes formas de morte. Na história de sangue e lágrimas, a dupla cruz-espada inverteu essa lógica. A vida frequentemente era sufocada pelos deuses da morte.

É por isso que não há somente Vitória no estado do Espírito Santo, mas também Vitória da Conquista na Bahia. Qual foi o Espírito Santo que agia aqui naquela época? A conquista de hoje não é alcançada com sementes, técnicas de modificação genética vinculadas com a química? No mercado internacional de ração animal, a dupla cruz-espada se transformou em soja-milho, além da soja transgênica, cujo preço é fixado na bolsa de valores de Chicago. Em dólar. É, dólar, enfeitado com o lema “In God we trust” [Em Deus nós confiamos]. Qual é o Deus em que se confia aqui? Quem é adorado e quem são as vítimas? Não é uma cruz exaltada, uma cruz verdadeira. Não há nada de santo nas cruzes que são impostas às vítimas. 

A resistência e sua cruz 

Cruz Alta, originalmente uma região de tropeiros com gado, é claramente dominada por latifundiários. Tão longe quanto a vista alcança, não há nada além de monocultura de soja. Uma introdução “ideal” para a atividade da tarde: “Debate sobre o monocultivo da soja”. Felizmente, existem morros e rochas. São eles que proporcionam as belas paisagens que ainda podem ser vistas ao longo do caminho. Um bálsamo na minha ferida causada ao ver a terra maltratada. Terra crucificada?

Ao nos aproximarmos de Santa Cruz do Sul fica claro quem foi crucificado junto com a terra e quais os deuses que mandam por aqui. Ao longo do trajeto, passamos por muitas propriedades de agricultores familiares. Eles cultivam, entre outros, o fumo e secam as folhas em galpões de secagem típicos.

A força motriz por trás da resistência dos fumicultores vem me buscar na rodoviária. Primeiro nos leva para um giro pela Meca do fumo: o maior sítio do mundo com capital norte-americano, europeu e japonês. Philip Morris, Souza Cruz (novamente “Cruz”, maior fabricante de cigarros de origem brasileira, mas integrante da British American Tobacco) e companhia, todos estão concentrados aqui. A indústria do fumo é onipresente neste epicentro, neste cruzamento, pois aqui eles podem fazer os agricultores trabalhar numa situação quase equivalente à escravidão. O cultivo do fumo está desaparecendo na Bélgica, na Europa, porque é “muito caro”. O “Em Deus confiamos” pode lucrar mais utilizando mão-de-obra brasileira. O estado do Rio Grande do Sul apresenta o maior número de suicídios do Brasil e Santa Cruz do Sul ostenta o triste título de “capital dos suicídios”, com 40 ocorrências para cada mil habitantes, enquanto a média brasileira é de 4 casos para cada mil habitantes. Isso não causa estranheza numa região de fumicultura. O veneno está ao alcance de todos, mas também se sugere que há uma relação entre a utilização de alguns tipos de agrotóxicos e o aumento de depressão. 

A via crucis se tornou minha não planejada introdução do debate (1). Estou curioso se os representantes da indústria do fumo vão apreciar a fala daquele “gringo”. Quem utiliza “cruzes” como tema pode, é claro, atrair a ira dos sumos sacerdotes e do Sinédrio sobre si. O Sinédrio que, entre outros, coloca o Brasil no primeiro lugar mundial em uso de agrotóxicos. Felizmente, o pessoal local da Fetraf não teme o confronto. As centenas de agricultores resistem e se defendem. Eles não utilizam armas, mas estão determinados a romper com a dependência e a desenvolver alternativas. Não lhes faltam opositores. Será que eles se reconhecem na cruz “verdadeira”? 

Algum dia as espadas serão convertidas em arados.

Algum dia o fumo dará  lugar à mandioca.

Será que, algum dia, a verdadeira cruz e a verdadeira conquista triunfarão? 

Luc Vankrunkelsven,

Santa Cruz do Sul, 27 de março de 2009. 

(1) Enquanto falo, em Santa Cruz do Sul, sobre essas práticas “não santas”, recebo um e-mail de uma professora de Cuiabá, pedindo-me que prepare uma palestra para as universidades de lá. Vale a pena conferir:

http://www.youtube.com/watch?v=jROc509oYkw

e http://www.youtube.com/watch?v=lDED73H3CHc.

Please follow and like us: