Soja e guerra

Luc Vankrunkelsven

No último domingo, foi realizado aqui um referendo sobre a propriedade de armas. Nas semanas que o antecederam, o Brasil foi tomado por intensos debates entre os favoráveis e os opositores à ‘proibição da posse de armas de fogo’.

Atualmente, há cerca de 17 milhões de armas nas mãos dos 180 milhões de brasileiros. Porém, em comparação com os Estados Unidos, onde há 240 milhões de armas para 295 milhões de norte-americanos, o número de ‘assaltos seguidos de morte’ a cada 100 mil habitantes é três vezes maior no Brasil do que nos EUA. Uma parcela acredita que isto esteja relacionado com a impunidade: nos EUA, 70% dos assaltantes são julgados; no Brasil, apenas 1%. Em algumas regiões, as quadrilhas sentem-se superpoderosas. Por muito menos o cidadão já desejaria poder se defender. Uma boa parte da imprensa utilizou, habilmente, esta impunidade e sensação de insegurança para, implicitamente, votar contra o governo Lula. Algumas revistas foram até acusadas de ter interesse no comércio de armas.

O referendo foi vencido pelos que votaram ‘Não’: ‘Não à proibição da posse de armas’. Podemos continuar atirando uns nos outros.

O que estas armas têm a ver com soja?

É de conhecimento geral que há muita violência na sociedade brasileira, tanto na cidade quanto no campo. Ontem, porém, fiquei impressionado com uma empresa chamada ‘Guerra Sementes’. Já conhecia ‘Guerra’ de várias atividades industriais. A família ‘Guerra’ também conta com alguns políticos em suas fileiras, o que não deixa de ser importante para uma família industrial.

Até agora, eu conhecia Guerra principalmente das lonas dos caminhões que transportam soja e outros produtos. Sempre com o lema: ‘Guerra. Paz na Estrada.’ Pois bem, o reino dos Guerra não domina somente as estradas, mas também abrange o poder de germinação daquilo que o agricultor e a agricultora semeiam: as sementes. Isto me leva, de modo irresistível, à primeira onda da Revolução Verde e à atual guinada transgênica, que resultaram – ambas – em guerra no campo.

Será que isto não é exagero?

Se, só de brincadeira, você digitar no Google as palavras ‘guerra’ e ‘agronegócio’, você leva um susto: a linguagem bélica lá utilizada parece ser comum. O jargão de guerra mais forte que encontrei por enquanto é o do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Posso citar um trecho? “Todos sabemos que o maior negócio no Brasil, hoje, é o agronegócio. Ele vale 33% do PIB nacional. Gera 37% de todos os empregos no país e é responsável por 42% das plantações. É, portanto, o maior negócio do Brasil. Porém, é um negócio que está cada vez mais atolado, como diz o João Carlos Meirelles. Atolado numa guerra que eu chamo de Guerra Mundial, que é a guerra por mercados. Uma guerra sem quartel. Uma guerra sem lealdade nenhuma. Ao contrário, estamos assistindo agora mesmo a alguns problemas que essa guerra nos traz. O Brasil de repente é um dos maiores exportadores mundiais de açúcar, de café, de suco de laranja, de soja, de carne bovina, de carne de frango. Então, para que esta guerra seja vencida com competência, é preciso que tenhamos cada vez mais instrumentos, mais armas e mais organismos articulados em parceria. Para que a gente possa avançar competitivamente na direção, na vitória dessa duríssima guerra (1).

Involuntariamente, lembro-me de um dos livros de Herman Verbeek: Economie als wereldoorlog [Economia enquanto Guerra Mundial] (2). Foi escrito há muitos anos, mas está cada vez mais atual! Isso também vale em relação à agricultura e abastecimento de alimentos. Agora, encontram-se, na internet, páginas e mais páginas com textos e discursos associando as palavras ‘guerra’ e ‘agronegócio’. O secretário da CPT-Nacional (Comissão Pastoral da Terra), Antônio Canuto, se expressa com um enfoque totalmente diferente do que o do ministro. Em seu discurso, Canuto trata das novas formas de escravidão no agronegócio, da violência e morte, desmatamento e desertificação. Ele conclui:

 

“O agronegócio, responsável pelos conflitos e violência no campo” (3)

 

“O agronegócio, além de atingir diretamente o direito à propriedade, ao trabalho e à saúde, ainda é responsável por boa parte dos conflitos e da violência no campo. O caderno ‘Conflitos no Campo Brasil’, publicação da Comissão Pastoral da Terra, em sua edição de 2003, traz uma análise do prof. Carlos Walter Porto Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que revela o que se esconde por trás dos dados registrados: ‘Em 2003, o Centro-Oeste assume a liderança quanto ao maior número de pessoas envolvidas em conflitos, 26,09% do total, e em número de pessoas despejadas pelo poder Judiciário, 35,7% do total. Estes números adquirem um caráter ainda mais dramático se forem relacionados com a população rural de cada Estado. No Mato Grosso, por exemplo, os dados mostram um estonteante 40,8% de sua população rural envolvida em conflitos, 210.795 pessoas e um número equivalente a 6,2% da população rural do Estado tendo sofrido alguma ação de despejo, 32.275 pessoas. Uma verdadeira operação de guerra, diz o professor Carlos Walter. Com relação à violência do poder privado também é o Mato Grosso, com 9 pessoas assassinadas, que apresenta o maior índice de violência relativa, 7,6. O Pará, com 33 assassinados, fica com o índice de 6,9.’ (4)

[foto 7]

Problemática de terras no Brasil e na Europa

Manifestação de Wervel, em Gent

 

O prof. C. W. Porto Gonçalves elaborou um ranking da violência do poder público e do poder privado por estado. Por ordem, Mato Grosso, Rondônia, Goiás, Tocantins e Mato Grosso do Sul são os que apresentam os índices mais elevados. Onde se dá a expansão da moderna agricultura empresarial, cresce aí tanto a violência privada quanto a ação do poder Judiciário.

 

O professor conclui sua análise: ‘O que talvez esses dados atualizem sejam as práticas que historicamente sempre fizeram do Brasil um território moderno, como já o eram os engenhos dos séculos XVI e XVII, os mais modernos que havia no mundo à época. Eram tão modernos como o são os elevados níveis de produtividade com pivôs centrais, sementes selecionadas, solos corrigidos e máquinas agrícolas computadorizadas que, hoje, fazem a moderna e violenta paisagem do Brasil Central e da Amazônia. Afinal, hoje se mata e desmata nos Cerrados e na Amazônia, do mesmo modo que, ontem, matou-se e desmatou-se na Mata Atlântica e nas Matas de Araucária.’

 

Para finalizar, ele lê um trecho do documento final do Congresso da CPT, de 2004: O agronegócio concentra terras, águas e renda. Produz sim, a um custo sócio-ambiental altíssimo e predominantemente para a exportação, gerando divisas para uma elite privilegiada desde sempre. A irrigação de suas monoculturas consome 70% da água doce do país. Suas máquinas modernas, possantes, substituem a mão-de-obra no campo, num país cujo maior problema é o crescimento do desemprego. O agronegócio é devastador. Imensas áreas de florestas e do cerrado estão sendo ilegalmente desmatadas, secando nascentes e mananciais, sugados pelo ralo das monoculturas, pastos de capim, carvoarias, mineradoras e madeireiras. Os agrotóxicos, despejados por aviões e tratores, estão contaminando solos, águas, ar e as plantações camponesas, causando doenças e mortes.

Guerra na terra e no mar

É claro que o ministro falava de uma guerra econômica: ‘Como conquistar o máximo de mercados, no mundo todo?’ Por exemplo, obrigar a Europa recuar na questão do açúcar[1] para, em seguida, com o açúcar e álcool brasileiros, fazer cortadores de cana africanos e asiáticos afundar ainda mais no pântano dos preços ainda mais baixos. A CPT busca dar voz às vitimas silenciosas: florestas, água, solos esgotados, ar poluído com CO2 (5), plantas, sementes, animais, agrobiodiversidade, ecossistemas e – finalmente, mas não menos importante – pessoas assassinadas, pessoas exploradas, pessoas famintas, e até pessoas submetidas a novas formas de escravidão (6).

O modelo da Revolução Verde das décadas de 1960 e 1970 proporcionou prosperidade para uma minoria e miséria, migração e fome para a maioria. Empresas de sementes, como Guerra, vinculadas a outros ramos do complexo agroindustrial – encabeçados pela química – eram a munição neste estado de guerra permanente. Um estudo recente da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] (7) afirma “que entre 1992-1993 e 2001-2002, o emprego na agricultura diminuiu 14% e que, comparando os períodos de 1990-1994 e 2000-2003, o valor da agro-exportação aumentou em 73%, indo de US$ 9,8 bilhões por ano para US$ 16,9 bilhões”. Pelo jeito não há uma relação direta entre aumento na exportação – destinada à guerra pelo mercado de alimentos – e mais emprego na agricultura. Nem na Europa, nem no Brasil. Leia mais sobre este assunto no texto de encerramento do projeto de intercâmbio: ‘OMC e os fluxos de alimentos Brasil-Europa. Agricultores flamengos e brasileiros querem participar das decisões (8).

Agora nos encontramos em uma nova fase de aceleração: a Revolução Geneticamente Manipulada. Até onde eu sei, Guerra ainda não foi comprada pela Monsanto. Até segunda ordem, esta gigante das sementes e produtos químicos ainda é 100% proprietária da soja geneticamente modificada. Mesmo que outras empresas produzam as sementes patenteadas, os royalties devem fluir na direção dos investidores norte-americanos e europeus da Monsanto.

 

[foto 8]

Caminhonetes como variantes urbanas das colhedeiras-tanques

 

A logomarca que Greenpeace utiliza em sua ‘guerra’ contra os OGMs é surpreendentemente parecida com a logomarca que utilizávamos nas manifestações contra energia e armas nucleares, na década de 1980. Será que há alguma semelhança? Será que, nas lavouras, realmente estamos em um outro nível de guerra do que na década de 1970? Se a Revolução Verde era o início de uma guerra convencional, a (r)evolução atual seria a guerra nuclear no campo? Com ainda mais vítimas, avançando de maneira invisível como ainda ocorre, 60 anos mais tarde, nas vidas e nos corpos de Hiroshima/Nagasaki? De geração em geração. Será que ambas as formas de guerra nuclear não estão realmente atingindo o núcleo, o poder de germinação da vida? Ou será que estamos exagerando? Será que sabemos a resposta?

 
_______________
 
[1] O Brasil apresentou – junto com alguns outros países – uma reclamação contra a União Européia na OMC. A Europa deveria parar com os subsídios à exportação de açúcar. Na qualidade de líder mundial na produção de açúcar, o Brasil é capaz de produzir a um custo muito mais baixo… e, portanto, ocupar estes mercados sem subsídios. Isto não beneficia a agricultura familiar no Brasil nem na África, mas favorece o agronegócio.
 
Paz no campo (9) 
 

‘Guerra’ atua nas estradas e no agronegócio? Há uma relação? A violência do trânsito, no Brasil, sempre chama minha atenção. Quantas vezes eu quase fui atropelado? É que, como europeu, eu parto do princípio que as faixas de pedestre servem para atravessar a rua. Que nada! Ninguém pára diante da faixa de pedestres. Elas são aplicadas sem esclarecimento, como enfeites. Para decorar o negro asfalto. Não, pessoal, não se distraiam. Não confie sua vida à faixa de pedestres. Os carros somente param num cruzamento quando a outra via é preferencial, isto é, quando há risco do próprio motorista ser atropelado, com carro e tudo.

Será que o ‘elemento do trânsito mais vulnerável’, aquele que deve temer por sua vida, poderia ser uma metáfora para a agricultura familiar? Será que os elementos do trânsito mais vulneráveis e os agricultores familiares poderiam se encontrar nos valores mais suaves, femininos, que cada um de nós guarda dentro de si? Uma agricultura novamente nas mãos dos agricultores, onde sementes, terra, água, (agro)biodiversidade, natureza e o homem voltam a ocupar o centro? E será que o trânsito agressivo, liderado pelas caminhonetes de moda, poderia ser uma metáfora para a agricultura da morte? Caminhonetes como variantes urbanas das colhedeiras-tanques que, em colunas, avançam sobre os milhares de hectares de soja? Metáfora da guerra permanente? O trânsito infernal e impiedoso e a agricultura produtivista dão-se as mãos no jogo da guerra. Coloquem os capacetes. Apertem os cintos. Guerra, literalmente.

 

Enquanto isso, ainda existem agricultores familiares. No Brasil: uns 4 milhões de famílias. Eles ainda existem, apesar de terem sido expulsos, literalmente, para as margens das terras produtivas. Para as margens, como os pedestres e ciclistas tentam sobreviver nas margens das ruas. Agricultura familiar em escala humana. Na escala do ritmo lento da terra, com suas estações, sua chuva e sol. Eles vivem e vivenciam que uma agricultura saudável e alimentos saudáveis não são banais e, sim, básicos (10) na vida humana. Básicos na sociedade, local e global. Voltar a produzir sementes e a trocar sementes torna-se, então, um ato de resistência, de independência (11). As ‘sementes crioulas’, a diversidade das sementes dos agricultores, elas representam a paz. A verdadeira paz na cidade e no campo. Além da guerra. Como uma faixa de pedestres que, finalmente, volta a promover o contato das pessoas – e com a ‘Mãe Terra – em segurança.

 

A próxima série de crônicas irá tratar deste caminho suave: ‘Como agricultores e agricultoras fazem a conversão? Como os agricultores sobrevivem?’ Como sementes de paz. Paz mundial. Paz alimentar mundial.

 

Desarmamento das cabeças, dos corações, das mãos. Desarmamento das lavouras (10).

 

Guarapuava, 28 de outubro de 2005. Escrito durante a ‘Semana do Desarmamento’, 23-30 de outubro de 2005.

(1)   De um discurso do ministro Roberto Rodrigues, em Campinas (SP), maio de 2004: <http://www.cnpm.embrapa.br/vs/vs1205/discursos.html>

(2)   Verbeek, Herman; Economie als wereldoorlog [Economia enquanto Guerra Mundial], Kampen: Kok, 1990 (ainda pode ser adquirido na Wervel).

(3)   Veja <http://www.acaoterra.org/display.php?article=288> (versões em inglês, espanhol e português). Quarta Semana Social Brasileira, 2004-2006.

(4)   Instâncias privadas: capangas, milícias, seguranças, pistoleiros.

(5)   As queimadas na floresta amazônica emitem, anualmente, mais CO2 do que o trânsito brasileiro. No entanto, o trânsito também aumentou vertiginosamente nos últimos anos.

(6)   Leia mais sobre ‘Soja e escravidão’ em: ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’. Curitiba: Editora Gráfica Popular/CEFURIA, 2006.

(7)   <http://www.oecd.org/document/62/0,2340,en_2649_201185_35584190_1_1_1_1,00.html>; neste contexto, leia também o ataque de prof. Marcos Jank ‘Agronegócio versus Agricultura Familiar’, e elementos para uma resposta no site <http://www.wervel.be>, nieuwe elektronische voedselkrant [Novo Boletim Eletrônico sobre Alimentos], de novembro de 2005.

(8)   A versão completa ou resumida, impressa em três idiomas (holandês, inglês e português) pode ser adquirida na Wervel e Fetraf, ou nos sites <http://www.fetrafsul.org.br> e <http://www.wervel.be/EN/dossiers/fm_200505/fm_200505_04052.htm>.

(9)   Para variar, nesta crônica eu não falei do programa ‘Alimentos para a Paz’, iniciado pelos Estados Unidos da América, em 1954 (Public Law 480). Parece bonito: ‘Ajuda humanitária para alimentar os famintos do Sul’. Na verdade, trata-se de imposição da Pax Americana por meio de cereais, como os romanos ensinaram há 2 mil anos. Lavouras de trigo como munição para manter os povos sob controle. Até hoje esta ajuda humanitária, na forma de alimentos, continua sendo uma arma estratégica do ‘State Department’, o Ministério dos Negócios estrangeiros. Os negociadores do EUA na OMC irão defender com unhas e dentes sua ajuda ‘humanitária’, em Hong Kong (13-18/12/05).

(10)                      Neste contexto, leia o artigo revelador de Wim Robben: ‘Goede voeding vermindert geweld’ [Boa alimentação reduz a violência]. Na: revista eletrônica Geweldloze Kracht [Força Pacífica], abril de 2005 (WEB 305.1B). A revista eletrônica é parte da <www.geweldloosactief.nl>, site da “Fundação pelo pacifismo ativo”, da Holanda. O artigo também pode ser encontrado no boletim eletrônico sobre alimentos <http://www.wervel.be/vk/0508/vk0508_0101.htm>. Outros sites interessantes sobre o tema: <www.educare.nl>; <www.ortho.nl>.

(11)                      Wervelforum 5: ‘Landbouw, markt voor chemische wapenindustrie in vredestijd?’, do gaúcho Sebastião Pinheiro. Pode ser adquirido na Wervel, por cerca de 5 euros, Pax Christi-Vlaanderen e KWB. [título em português: Cartilha dos agrotóxicos. Canoas, RS: Fundação Juquira Candiru, COOLMÉIA, 1998. 66 p., com ilustrações de Eugênio de Faria Neves].

 

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