Soja e a asfixia dos mares – Luc Vankrunkelsven

Que existe uma relação séria entre a pesca excessiva nos mares do mundo e a pecuária intensiva, eu já sabia há algum tempo. Em paralelo ao conflito mundial entre dois modelos de agricultura, a pesca artesanal está sendo suplantada pelos navios pesqueiros industriais do Japão, Europa, Canadá… Eles pescam todos os peixes, pequenos e grandes. Os peixes muito pequenos são moídos e utilizados em ração animal. Recentemente esta farinha de peixe passou a ser intensamente canalizada para a China.

E agora o jornal ‘De Tijd’ [O Tempo] informa: A falta de oxigênio no mar supera a pesca excessiva enquanto principal problema para a fauna marítima. Nos oceanos, há cerca de 150 regiões impróprias para a vida, onde quase não há oxigênio. Estas ‘zonas mortas’ são conseqüência, principalmente, de excesso de nitrogênio. É o que afirma o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), em seu primeiro relatório anual. A partir dos anos 60, a cada década, dobra o número de regiões com falta de oxigênio. Algumas dessas regiões têm menos de um quilômetro quadrado, mas outras chegam, facilmente, ao dobro da área da Bélgica. As primeiras ‘zonas mortas’ foram detectadas no Mar Báltico, no Mar Negro e no norte do Mar Adriático. Mas, agora, também são encontrados nos fiordes Escandinavos. A região com falta de oxigênio mais conhecida está localizada no Golfo do México e é conseqüência dos adubos químicos despejados pelo rio Mississipi.

Quem diz Mississipi diz monocultura de soja, milho e trigo. Pecuária intensiva e pesca têm, portanto, duas ligações com a extinção da fauna marítima: a pesca excessiva (para produção de insumos para a pecuária intensiva e aqüicultura na forma de farinha de peixe), excesso de adubação (em parte para produção de insumos para a pecuária pela adubação química ou com esterco para produção de ração; em parte como resultado da pecuária intensiva com o problema de excesso de produção de esterco de, principalmente, as empresas sem terras).

‘De Tijd’ continua: “O baixo teor de oxigênio está estreitamente relacionado com o uso de adubos na agricultura, as emissões dos veículos e indústrias e dos resíduos/lixo, afirma UNEP. Estes contaminam o solo com nitratos, portanto nitrogênio, nos lençóis freáticos e, finalmente, o mar – o que favorece a proliferação de algas. Seu crescimento exponencial e sua decomposição consomem todo oxigênio da água e asfixiam os peixes.”

A matéria no jornal encerra com uma observação positiva: “ ‘Se não forem tomadas medidas, a situação se agravará’, afirma o diretor da UNEP, Klaus Toepfer. Ele destaca que algumas intervenções já estão dando resultados. Por exemplo, há um acordo para a bacia do rio Reno, na Europa, no qual os países se comprometeram a reduzir à metade o despejo de nitratos. Devido a isso, já houve uma redução de 37% no nitrogênio que chega ao Mar do Norte. Outras medidas são menor desperdício de adubo ou controle da emissão dos veículos e mais florestas e campos para absorver o excesso de nitrogênio.”

Reverter a situação é possível. Não vamos enfiar nossas cabeças na areia como avestruzes, mas continuar trabalhando em prol de uma política mais equilibrada para a agricultura e pesca.

 

30 de março de 2004. 

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