Sobre vegetarianismo – Paulo Tácio

Vou lhes contar sobre certa vez algo que me aconteceu, um fato não de alta transcendência; mas sim, precisamente jocoso.

Contava eu já com alguns anos da prática vegetariana que, decerto, já havia me rendido algumas aventuras nesse mundo administrado extremamente por pessoas que, em maioria, pertencem à ordem dos onívoros. A compreensão desses segundos, ditos normais, para com os primeiros não é de fácil explanação, haja vista, os inúmeros problemas que detalharei doravante. Foram muitos os enganos já passados. Inúmeras também foram as discriminações sofridas, outrora igualmente, descasos.

Como exemplo entre tantos casos posso citar que em determinadas padarias, alguns atendentes cismam freqüentemente que pizzas de mussarela têm de possuírem presunto. Sendo a pizza de mussarela como compreender a inserção do presunto? Sendo assim, às vezes indago ao atendente:

– Senhor, eu não como carne e esta pizza, que está no menu deste restaurante e que recebe o nome de “pizza de mussarela”, veio com presunto!

E em seguida o sujeito responde de pronto:

– Mas não tem carne, só mussarela e presunto!

Mas o presunto não é só artifício de pizzaiolos, ou mesmo mais uma substância que compõe uma gama da gastronomia mundial. Certa vez estava em um restaurante de uma cidade praiana, acompanhado de minha senhora, quando realizei um pedido de um simples macarrão alho e óleo. Esperei por alguns minutos. Eis que de repente, o indubitável acontece: o garçom nos traz a impagável surpresa; o macarrão não possuía apenas o seu normal, como estava descrito no cardápio, e sim, além disso, trazia junto a ele fragmentos do afamado presunto.

Além desses infortúnios, vale ressaltar que nós, os vegetarianos, escutamos comumente algumas confusões ou perquirições inexplicáveis, tais como:

-Você não come carne não é?

– Não – respondo categoricamente.

-E frango, você come? – Insistem, e não contentes ainda exultam mais:

-Ah! Mas peixe você come, não é?

Com tantos equívocos assim, às vezes imagino um vergel, uma horta, ou mesmo uma seara onde são colhidos presuntos, frangos ou peixes, penso que na cabeça dessas pessoas o presunto pertence indubitavelmente à categoria dos legumes, frutas ou vegetais.

Porém, além dessas confusões uma grande aventura estava reservada a mim, quando de uma dissaborosa passagem numa empresa em 2005, onde exercia a função de assistente de biblioteca, da qual prefiro não entrar em minudências. Nesta tal corporação eu levava todos os dias um recipiente para se carregar comida, popularmente conhecido pela a alcunha de marmita.

No momento sacro, o almoço, dirigia-me em direção ao refeitório e retirava minha pequena vasilha em meio a tantas outras que disputavam com afinco por um espaço, o que me lembrava uma cena do metrô da zona leste paulistana. Obviamente que confusões aconteciam. Naquele dia estava faminto, e em pouco tempo a localizei. Sentei e meditei por alguns segundos de olhos fechados e em seguida os abri. Após isso, abri também o invólucro de meu almoço. Assombrado, arregalei os olhos. Bestificado, não acreditava no que estava diante de mim. “Meu Deus, o que isso?” Pensei. Minha feição também preocupou uma companheira de trabalho que acabara de sentar a minha frente e que me perguntou sobre o que se passava comigo. E logo percebeu que eu havia cometido um erro grave, e que possivelmente, por engano, teria retirado uma outra marmita.

A quantidade de carne que via naquele momento me levou a inquirir sobre a possibilidade de que o verdadeiro dono daquela marmita não era apenas um onívoro ou carnívoro. Provavelmente o sujeito proprietário daquela refeição era um descendente dos índios goytacazes que habitaram a costa litorânea do Rio de Janeiro nos séculos XV e XVI, dos quais adoravam um banquetinho antropofágico. Dentro da marmita havia gigantescos bocados de lingüiça, além de lombo, alcatra, maminha, picanha, lagarto, entre outros répteis e talvez até pedaços humanos, em meio a uma comedida porção de arroz e feijão.

Este susto terrível marcou-me por muito tempo, algo que me induzira a não perpetrar novamente este erro por um longo período da minha vida.

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