Smog

QUEM TEM MEDO DO NEVOEIRO

Bill Callahan é a alma dos (Smog). Antes de viver da música foi jardineiro e pintor, e até tomou conta de uma mulher deficiente. Não gosta de revelar os seus segredos musicais nem de estereótipos musicais, mas não nega o prazer que tem em viver exclusivamente da música, numa carreira que já conta com 10 álbuns. No décimo e último, "Rain On Lens", Callahan surge mais inspirado que nunca, e assume cada vez mais a figura de um músico solitário, mas que não acaba as suas aventuras em direcção ao pôr do sol, mas sim imerso em nevoeiro. É músico há quanto tempo, ou desde quando é que vive somente da música?

Ando nisto da música há 12 anos, e faço discos há 10. Mas só faço dinheiro há oito anos. Durante meu último trabalho, em que tomava conta de uma mulher deficiente, juntei 7000 dólares e acabei por me despedir. Mudei-me então de Maryland para a Califórnia e convenci-me a mim próprio que tinha de começar a fazer dinheiro com a música antes que aqueles dólares se esgotassem. Quando estava a trabalhar no meu terceiro álbum, "Julius Caesar", já só tinha 100 dólares no banco. Foi então que chegou um cheque com os primeiros royalties. A partir desse momento nunca mais trabalhei. O que é que o leva a compôr música?

Antes de mais nada, porque é preciso fazer alguma coisa para ganhar a vida. Nunca me agradou a ideia de trabalhar por conta de outrém, de estar o dia inteiro num escritório. Tive alguns empregos fora de portas, como por exemplo jardineiro ou pintor. Pelo menos tinha sol e ar fresco. Mas confesso que a música é um bom emprego. Aquilo que mais me estimula na música é a liberdade que ela me permite ter. É uma pessoa introspectiva? Estou a perguntar porque a sua música parece ser…

Acho que sou introspectivo. Penso muito em cores, sons… e na forma como os sons e as imagens interagem. Figurativamente, é como o movimento que sentimos quando estamos num comboio, a par do sons que emanam do comboio do interior e no exterior. Onde é que vai buscar a inspiração para as suas letras quase literárias?

É perigoso pensar na inspiração, que simplesmente aparece ou não aparece. Não gosto muito de racionalizar a inspiração. É melhor deixá-la estar. Em "Rain On Lens", há muitas metáforas e encontros de opostos nas letras, quase como se quisesse esconder a sua verdadeira personalidade por detrás das letras.

Eu não imprimo um cunho pessoal às letras. E tento afastar-me o mais possível. Estou ali algures, como um par de olhos. Isto não significa que me esteja a esconder. Significa sim que não me quero expor. Há uma grande diferença. Como é que reage ao facto de haver quem lhe chame de escritor de músicas cristãs (christian-songwriter)?

Não sei porquê, mas só me chamam isso em França e em Portugal. Não percebo… Para mim, a Bíblia não passa de um conjunto de histórias. O que até é uma boa razão de ser para a religião. Mas não tenho qualquer tipo de relação com o cristianismo. Existe em meu redor, mas não em mim. Não gosto da religião, pelo menos da forma como é intensamente organizada hoje em dia. Simpatizo mais com o espírito de um "Simão do Deserto", tal como no filme de Luis Buñuel. Existem algumas semelhanças entre o seu universo musical e o universo dos Lambchop ou até de Bonny Prince Billy. Semelhanças que até estão mais patentes em "Rain On Lens". Qual é a sua opinião?

Sinceramente, não acredito nisso… Existe alguma diferença nos (Smog) antes e depois da presença de Jim O'Rourke?

Fiz dois álbuns com o Jim O'Rourke e oito sem ele. Talvez tu me consigas dizer se há alguma diferença. Eu não costumo ouvir os meus discos antigos. Olho sempre para a frente. Foi de alguma forma afectado pelo ambiente musical de Chicago, depois de se ter mudado para lá?

Esse ambiente é negativo. Eu não gosto de nenhuma das bandas que são consideradas bandas de Chicago. É um fenómeno débil e insignificante. Nesse sentido, pode-se dizer que não aceita o conceito de pós-rock com que algumas dessas bandas de Chicago foram catalogadas, como os Tortoise, os Brokeback, os Gastr Del Sol, etc.?

Para mim, pós-rock é um termo sem qualquer significado. Aliás, como são irrelevantes todos os conceitos aplicados à música. Posso viver em Chicago, mas não faço parte de nenhum movimento nem de nenhum conceito. Mas pode dizer-se que é um músico rock?
Também não me considero um músico rock. Não me considero nada. Nomear ou catalogar alguma coisa é simplesmente destruí-la. Trabalha regularmente com os mesmos músicos, ou muda de disco para disco?

Cada álbum apresenta um conjunto de músicos diferentes. É sempre um desafio estimulante tocar com pessoas diferentes. "Rain On Lens" foi gravado em 10 dias. É fácil gravar um disco inteiro em apenas 10 dias?

Para mim, 10 dias é muito tempo para gravar. Gosto de passar mais tempo nas misturas. Algumas das misturas foram difíceis de atingir neste disco e levei algum tempo a perceber aquilo que estava mal, aquilo que não me agradava… Não quero abusar de conceitos, mas sente-se de facto uma maior atmosfera rock em "Rain On Lens" do que em álbuns anteriores. A presença de Rick Rizzo (Eleventh Dream Day) tem alguma coisa a ver com isso?

Antes de chegar ao estúdio, eu já tenho ideia dos sons que pretendo. É então que procuro escolher os músicos que melhor possam interpretar os sons que estou a ouvir na minha cabeça. O Rick Rizzo é um guitarrista fantástico. É uma espécie de escultor de feedback, com um excelente sentido de elegância e bom gosto. Deus o abençoe…Disse que já tem uma ideia preconcebida daquilo que quer quando chega ao estúdio. Isso significa que já está tudo decidido, ou existe espaço para a improvisação?

Costumo fazer uma demo em casa para estruturar o objecto final. Posso dizer que tenho as coisas bem planeadas antes de entrar no estúdio. Mas dou aos outros músicos espaço para a espontaneidade. Neste álbum, e mais do que no passado, as músicas parece que se desenvolvem numa estrutura mais minimal. Como por exemplo em "Song".

No meu caso, pelo menos, todas as músicas nascem a partir de estruturas minimais. O que acontece em "Song" é que levei a ideia até ao extremo. Quais são os seus músicos, ou bandas, preferidos? É difícil acreditar quando os músicos dizem que não ouvem nem gostam de nada…

Não acreditas que eu não ouço música? Já nem sei onde é que hei de meter mais CD's. É só caixas por todo o lado… O que mais tenho ouvido nos últimos tempos é uma série de CD's de jazz etíope (Ethiopian Jazz), especialmente o 5º volume. E também "Money Jungle" do Duke Ellington, onde o Charlie Mingus toca incrivelmente. E já agora o álbum "Tusk" dos Fleetwood Mac, que tem uma produção muito estranha. As notas do website dos (Smog), sobre "Rain On Lens", dizem que durante as gravações só foi permitido aos músicos comerem sushi e comida vegetariana budista. É vegetariano?

Eu sou vegetariano e é verdade que só comemos comida vegetariana durante as gravações. É fácil ser vegetariano num país de carne como os EUA?
Acho que é cada vez mais fácil. É só as pessoas quererem. Voltando ao website dos (Smog), é o Bill que decide os conteúdos e elabora o webdesign?

Eu não desenhei o website. Bem… disse à pessoa que o fez aquilo que eu queria, porque na minha opinião há demasiados websites desagradáveis, principalmente no que diz respeito ao design. A minha intervenção limitou-se a uma espécie de controlo de qualidade, já que tinha de ter a certeza que o resultado final era bom. Falando de programas para a Internet tipo o Napster, quem é mais afectado na sua opinião: os músicos ou as companhias discográficas?

Eu gostava muito do fenómeno Napster e sinto a falta do conceito que estava por detrás dele. A venda dos meus discos não diminui por causa disso. A destruição do Napster é basicamente uma tirania das grandes companhias discográficas. Para terminar, a questão inevitável. Qual é a sua opinião sobre o ataque ao World Trade Centre? Acha que vai afectar o panorama da música americana? Por exemplo, o Mark Kozelek dos Red House Painters cancelou uma tourné europeia, que até estava para passar por Portugal.
Sinto-me triste e doente com aquilo que aconteceu. Mas isso não é razão para cancelar a tourné que vou fazer na Europa. Nem sequer cancelei a tourné americana que estava a fazer durante o rescaldo dos acontecimentos do 11 de Setembro. A vida continua.

Vasco Durão
(Mondo Bizarre # 9)

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