Será que a fera ainda pode ser domada?

A região amazônica será transformada em Cerrado 

A conscientização ambiental dos brasileiros está crescendo. Não passa um dia sem que os jornais noticiem catástrofes ambientais. Principalmente o desaparecimento da Floresta Amazônica desperta a imaginação. Aliás, esse tema não aflige somente os brasileiros, já que é noticiado regularmente na imprensa mundial. 

O desmatamento e o aquecimento andam de mãos dadas 

Tomemos o estudo do Centro Hadley, um instituto meteorológico britânico (1). Com cerca de 700 simulações em computador, eles fizeram projeções sobre qual seria a situação do gelo polar e das florestas no ano 2100. Para a região amazônica, os resultados ficaram entre 20% a 40% de redução da floresta, para uma expectativa de aumento na temperatura média global de 2°C. Num cenário mais pessimista, com aumento de 3°C, cerca de 75% da floresta desapareceria. Se a variação aumentar para 4°C, 85% da floresta seria transformada em Cerrado.

Em 2007, um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) foi mais cauteloso: no caso de um aumento na temperatura entre 2oC a 6°C, cerca de 18% da floresta se transformaria em Cerrado. Dois anos mais tarde, em março de 2009, o mesmo INPE apresentou um estudo muito menos otimista. Ainda que, no último ano, o desmatamento tenha diminuído (2), a interação do aquecimento global com o desmatamento ameaça piorar tudo. Os resultados agora apontam: 60% de desmatamento da floresta até 2100, com a possibilidade de regeneração de 44,2%. 

Em 1991, Carlos Nobre e Marcos Oyama publicaram o primeiro artigo sobre a savanização da região amazônica. Naquela época, eles trataram somente do desmatamento. A maior diferença agora, na combinação com o aquecimento global, é que a floresta é muito mais sensível a incêndios. 

Do Polo Norte para a Amazônia 

Há anos se fala da necessidade urgente de redução nas emissões de CO2. Nos últimos dois anos, também estão sendo considerados a contribuição do metano emitido pelos ruminantes e o fato de que o conjunto da cadeia produtiva de carne – com desmatamento, produção de adubos químicos, vários tipos de transporte, processamento da carne, emissões de metano, CO2 e óxido de dinitrogênio, processamento industrial do esterco produzido – seria responsável por 18% do aquecimento global (3).

Constatou-se agora que há um paralelismo entre desmatamento e aquecimento, de um lado, e o derretimento das calotas polares e aceleração no aquecimento, de outro. O gelo branco reflete o calor do sol para o espaço. Os raios solares que incidem sobre uma superfície escura são absorvidos e provocam aquecimento. Isso poderia ser uma explicação para o fato de que, entre 1998 e 2008, a redução da superfície de gelo no Polo Norte durante o verão tenha sido 26% superior ao normal. Nas duas décadas anteriores, a média na diminuição havia sido de apenas 4%. Alguns especialistas no clima estão pessimistas e afirmam que, desse modo, logo chegaremos ao “ponto de virada” – momento em que o processo não poderá mais ser revertido. Acrescente-se a esse fenômeno o fato de que o gelo permanente (permafrost) também ameaça derreter. Nesse caso, enormes quantidades de metano serão liberadas para a atmosfera, muito superiores ao CO2 que já emitimos. Será que a fera do clima está definitivamente fora de controle? Ou nosso único consolo será que o metano é mais rapidamente degradado do que o CO2?

E não é estranho saber que os grandes países cujas terras chegam até o Polo Norte (Canadá, Estados Unidos da América, Rússia, Groenlândia-Dinamarca) estão organizando uma corrida contra o tempo, mas esta não é para evitar o aquecimento global? Não. Atualmente eles querem definir, com urgência, a quem caberá os direitos de navegar nas águas do Oceano Ártico liberados pelo degelo e quem pode reivindicar as reservas de gás e petróleo recentemente descobertas naquela região… Ou seja, teremos ainda mais do mesmo: aumento da navegação em regiões frágeis com o risco de catástrofes ambientais, exploração e consumo de combustíveis fósseis justamente por aqueles que já são os maiores responsáveis pelo aquecimento que vai das regiões árticas e antárticas às regiões equatoriais! 

Num dia desses, vou fazer uma palestra na Escola Agrotécnica Federal de Concórdia1. Sobre água, pois hoje é o Dia Mundial da Água (4). Será que poderei transmitir uma mensagem de esperança, já que sabemos que a região amazônica é, atualmente, uma das maiores reservas mundiais de água doce do mundo? Será que devo destacar a relação entre o desaparecimento da floresta – localizada a milhares de quilômetros ao norte – e as secas cada vez mais frequentes e prolongadas no Sul do Brasil? E será que posso informar a eles que as atuais práticas agrícolas consomem 70% de toda água doce disponível? 

Telhados brancos? 

As notícias são alarmantes. Por isso, soluções são buscadas em todos os lados, embora nosso desejo seja manter o máximo possível de nosso “luxo”. É só olhar para o empenho dos governos em salvar a indústria automobilística, sem estabelecer precondições ambientais. Um certo Akbari Hashem, pesquisador do Lawrence Berkley National Laboratory (EUA) propôs que pintássemos nossos telhados de branco, o que poderia compensar muito CO2. Sabe-se que a perda de calor nas cidades é muito menor do que no campo. Isto está relacionado com as superfícies escuras, das quais os telhados representam 25%. Hashem é um otimista; ele afirma que 100 m2 de telhados pintados de branco compensam 10 toneladas de emissão de CO2. Até 2040, cerca de 70% da população mundial morará em cidades. Os telhados e os revestimentos do solo (asfalto, calçadas) ocupam 60% da área dessas cidades. “Se pintássemos somente os telhados de branco, já poderíamos compensar 24 bilhões de toneladas de CO2”.

Pena que o homem esqueceu de calcular quanto a fabricação de toda essa tinta custa em termos de CO2, mas não deixa de ser uma linha de pensamento interessante. 

Já que as superfícies geladas do Polo Norte não conseguem mais fazer o seu trabalho, vamos refletir a luz solar com nossos telhados! Será que há mais ideias criativas para ainda controlar a fera (5)? 

Luc Vankrunkelsven,

Chapecó, Dia Mundial da Água, 22 de março de 2009. 

  1. Artigo a ser publicado na “Nature Geoscience”.
  2. Até 2005, cerca de 17% da Floresta Amazônica original já havia desaparecido nos nove países por onde se estende. No ano 2007-2008, foram desmatados no Brasil “apenas” 11.964 km2 (fonte: INPE). Em comparação com os primeiro anos da década de 2000, com um desmatamento anual médio de 23.000 km2, e isso representa um alívio. O ano 2004-2005 foi o auge, com 26.000 km2. Compare com a superfície da Bélgica: cerca de 30.518 km2. Bélgica… onde a região de Flandres já foi desmatada no século XIII!
  3. O transporte aéreo seria responsável por apenas 2%, enquanto a internet – com ferramentas de busca como Google e os milhares de servidores em nosso planeta – dão conta de 2,5% das emissões de CO2.
  4. “Os EUA calculam que os oceanos, mares, rios, lagos, fontes e reservas subterrâneas de água da Terra abrangem, em conjunto, cerca de 1.400 milhões de km3 de água e cobrem 75% da superfície terrestre. Porém, 97,5% dessa água é salgada e somente 2,5% é água doce. A maior parte desse volume está inacessível nas calotas polares (2,086%), em reservas subterrâneas (0,291%), nos lagos (0,0017%) e na atmosfera (0,001%). Somente 0,01% está prontamente disponível para consumo humano. Graças ao ciclo da água, podemos reutilizar essa água continuamente. Assim, 500.000 km3 são reciclados e distribuídos anualmente.” Fonte: “O espírito vem pelas águas”, de Marcelo Barros (Editora Rede-Loyola, 2003).
  5. Salvar o planeta – e a nós mesmos – não é somente uma questão tecnológica. Trata-se também de uma atitude básica e da espiritualidade que permeia todas as religiões. O livro recente de Marcelo Barros e Frei Betto não descreve somente as catástrofes que nos ameaçam, mas também a oposição e resistência espiritual de milhões de pessoas, grupos e movimentos. Recomendo: “O amor fecunda o Universo. Ecologia e espiritualidade” (Rio de Janeiro: Ed. Agir, 2009).
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