Seja Vegano

Resenha de “Seja Vegano, de Wilson Grassi”

Seja Vegano

Wilson Grassi, Giz Editorial, 110 págs, R$ 30,00

 

Ciências, Filosofia Moral e Nutrição para todas as idades

Por Leon Denis

 

“Seja Vegano” é uma obra que apresenta temas clássicos relacionados a exploração institucionalizada dos animais não-humanos e a experiência transformadora de um veterinário especista em vegano.

É um livro para leigos na causa animal. É uma obra que poderá exercer muito bem o papel de primeiro contato para aqueles que estão começando a abrir os olhos e ouvidos para os horrores das torturas e assassinios com outras espécies que ocorre todos os dias a sua volta, encobertos por uma capa cultural e moral antropocêntrica. O que mais lhe caracteriza é sua maneira extremamente simples e didática de expor assuntos tão fortes deixando sempre o convite à mudança de paradigma.

Grassi entra na questão da defesa dos direitos animais fazendo uma analogia com os princípios que regem os direitos humanos – o direito à vida , à liberdade e à integridade física. Apresenta as características que justificam e fundamentam a defesa dos animais como sujeitos de direito: o princípio da dorência, as múltiplas maneiras de comunicação,  os graus e tipos de inteligência, a semelhanças psíquicas e emocionais com nós  humanos, e a questão fundamental na defesa ética dos direitos à vida , à líberdade e à integridade psicofísica dos animais; o princípio da igualdade na consideração de interesses semelhantes.

Após dissertar sobre a necessidade de defendermos os direitos animais em oposição ao especísmo (preconceito responsável pela nossa ilusória suposta superioridade sobre outras espécies), o leitor é levado ao submundo, aos bastidores dos cativeiros e métodos de tortura a qual uma infinidade de espécies é  submetida diáriamente para estração de sua carne, pele e secreção de suas glândulas mamarias; para testes de envenenamento, queimaduras e práticas vivisseccionistas;  para apresentação anti-naturais em picadeiros circenses e no cruel e covarde rodeio.

Sobre a indústria da pele uma dura realidade é descrita : “As peles mais desejadas são das foquinhas filhotes e jovens . Então lá vai um corajoso caçador, com um porrete na mão, e quando a ingênua foca começa a bater palmas em sinal de amizade o destemido herói retribui com violentos golpes de porrete na cabeça do animal. O sangue cobre de vermelho a pele clara. A água limpa o sangue da pele, mas será que dá para limpar o sangue da conciência ?” E para o leitor brasileiro que achou cruel e inaceitável tal descrição e sentiu por outro lado aliviado por não usar casacos de pele, a obra lhe faz a seguinte pergunta: “Na essência , qual a diferença entre tirar a pele da foca, como os evoluídos canadenses, tirar a pele do cachorro, como os sábios chineses e tirar a pele da vaca, como os tolerantes brasileiros?”

Nossa relação imoral com os animais domésticos não fica de fora. Superpopulação e assassinatos em massa em centros de zoonoses via injeção letal, câmara de gás, eletrocussão e afogamento são os fins que criadores, petshops , clínicos veterinários e nós damos a milhares de cães e gatos.

Em uma obra sobre veganismo não poderia faltar um capítulo sobre o impacto que os alimentos de origem animal têm sobre o meio ambiente.

No entanto, é no capítulo ‘Como eu me convenci’ que está o núcleo do livro. Grassi cita a influência das obras “Libertação Animal” de Peter Singer e “Jaulas Vazias” de Tom Regan no seu processo de tomada de consciência animal damascênica. Porém,  mesmo que não fizesse tal referência, o veterinário acaba deixando transparecer  – pelo menos  para aqueles que já tiveram contato com esses autores  -, a influência deles.  Através dos meios que possibilitaram sua mudança de percepção (livros, documentários, contatos com abolicionistas veganos e a deliciosa culinária vegana) Grassi convida o leitor a tirar o véu da hipócrita moral especista que domina nossa sociedade. Romper com a tradição é o que o leva em dois momentos da obra a responder  uma acusação comumente feita pelo senso comum: a de que o vegano é radical . O vegano é radical ? Sim. Porque ser radical e ser vegano é ir a raíz das questões morais, politicas e ambientais que envolvem humanos e não-humanos, humanos e ecossistemas . A praxis vegana é coerente por ir a raíz dos porquês dos usos que se fazem dos animais há milhares de anos . E é por conhecer a genealogia da exploração animal que o veganismo se torna radical .

“Seja Vegano” é uma excelente introdução à problemática da libertação animal e sua base moral : O Veganismo .

Há algum tempo, li que um bom livro tem que ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.  Acredito que “Seja Vegano” é um bom livro .

 

Wilson Grassi é médico veterinário, formado pela Universidade Paulista (1994),  membro da Sociedade Vegetariana Brasileira, colaborador do Sítio Sentiens.Net e  apresentador do programa Vida de Protetor, na TV Orkut.

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