Aurora no Campo - Soja Diferente

Seio moreno

 

Não só durante esta conversa em torno da mesa, mas também quando percorremos o sítio, somos acompanhados pelo eterno chimarrão e a garrafa térmica cheia de água quente. O seio moreno passa de mão em mão, a bomba de boca em boca. O doce amargo faz com que as pessoas ingiram muita água (quente), mas também é um ritual que simboliza comunhão.

Originalmente era um hábito dos guarani (2). Os imigrantes europeus, que se misturaram aos gaúchos (3), no Rio Grande do Sul, incorporaram este hábito. Tal como numa Liturgia das Horas nos mosteiros, a água é aquecida e a cuia preparada, pelo menos, de manhã, à tarde e à noite. E, em muitos casos, o chimarrão está por perto o dia todo. Como numa vigília contínua e de poucas palavras.

Na cozinha, onde as pessoas se reúnem em torno da mesa, o poema ‘Chimarrão’ – caligrafado sobre couro – enfeita a parede.

 

Intermezzo

Enquanto digito esta crônica, a vizinha vem trazer uma capelinha com uma imagem de Maria, cercada de rendas e rosas. Ela está sobre uma nuvem que, por sua vez, envolve a terra. Na base, está localizada – discretamente – uma fenda para colocar uma oferta.

Como não sei do que se trata (“Será uma vendedora de imagens de Maria? Uma charlatã devota?”), peço que vá falar com Orlando e Rose que estão fazendo a ordenha. A mulher olha desapontada porque não conheço o ritual e, portanto, não participo do mesmo.

Um pouco mais tarde, a capelinha está ao lado do meu laptop. Pela primeira vez na vida, escrevo uma crônica sob a vigilância da Mãe de Deus. Um texto sobre a Mãe Terra. Pode acontecer!

A comunidade aqui é predominantemente católica com um costume antigo, cuja existência eu nem suspeitava existir. Amanhã a imagem será levada adiante, para o próximo vizinho. E assim por diante, dia após dia, durante o ano todo. Fico sem palavras. Enquanto europeu secularizado você pode sorrir ao deparar-se com este costume, mas quais rituais nós mantemos? Nós ainda encontramos rituais para celebrar a comunhão?

Pessoas, comunidades necessitam de rituais para viver, para expressar a vida em sociedade e dar sentido a ela. Tomar Chimarrão é uma delas. A, em alguns contextos, a capelinha também pode sê-la. (4)

 

A erva-mate é uma árvore que ocorre naturalmente nas extensas matas de araucária. Os guarani cortavam e secavam suas folhas. A cuia é feita com um fruto que parece uma pequena abóbora, porém, seca, um purungo cortado. Os gaúchos continuam a imitar os indígenas e, há muito tempo, não somente os gaúchos do sul do Brasil. Com os gaúchos e a Revolução Verde, a soja, o chimarrão, a erva-mate se espalharam rumo ao norte do país: via Santa Catarina para o Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Goiás, Maranhão, Bahia e assim por diante. A primeira vez que tomei contato com o chimarrão foi em 2000, na capital Brasília. O homem, um colaborador do então deputado Padre Roque, do Paraná, tomava chimarrão e fumava um cigarro, simultaneamente. Este observador belga ficou totalmente confuso. Achei que se tratava de um narguilé[1]. Cigarro e cachimbo, simultaneamente? Estava totalmente equivocado!


[1] Narguilé ou narguilê é um cachimbo largamente usado pelos turcos, hindus e persas, composto de um fornilho, um tubo e vaso cheio de água que o fumo atravessa antes de chegar à boca. (wikipedia)

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