Se a soja se tornar fruta

Luc Vankrunkelsven

“Em busca de renda e diversificação, as culturas tradicionais estão sendo substituídas pela produção de frutas.”

É assim que vejo anunciada uma recente evolução do norte do Paraná. Interessante. ‘Culturas tradicionais’ não são as culturas que alimentaram aqui, durante séculos, os povos tradicionais. Não, são a herança da Revolução ‘Verde’ das décadas de 1960 e 1970, mais especificamente, além de pasto, a soja e o trigo. ‘Tradicional’, hein!

Geração de trabalho

A fruticultura é composta principalmente de bananas, uvas e laranjas, mas também de morangos, nectarinas, ameixas, pêssegos e poncãs. Gilka Cardoso Andretta, a coordenadora do departamento de estatísticas do Departamento de Economia Rural (DERAL), comemora: “A soja está, definitivamente, cedendo espaço para a fruticultura.” Quase todos os municípios do norte do Paraná possuem projetos específicos envolvendo diversificação com frutas. Principalmente a partir do final da década de 1990, começou a ficar claro que esta era uma saída para as ‘tradicionais’. Há vários motivos para isso, mas o fator mais importante é que esta atividade gera renda ao longo de todo o ano, o que não ocorre com as culturas tradicionais. Além disso, o norte e o nordeste do Paraná são regiões muito propícias para estas ‘novas’ culturas. Em 2004, cerca de 2% do Valor Bruto da Produção já era gerado pela fruticultura (564 milhões de reais); em 2005, está previsto um acréscimo de 1%.

Por falar em alternativas: 1 hectare com frutíferas gera 15 vezes mais renda do que 1 hectare com soja. Bananas são um bom exemplo disso. Em 2004, a área cultivada era de 10.073 hectares e foram produzidas 222 mil toneladas. Em Cornélio Procópio a produtividade é de 23 toneladas por hectare. Não é um detalhe desprezível num país onde o agronegócio de grande escala expulsou milhões de pessoas do campo: 1 ha de soja no modelo agrícola patronal gera 0,02 posto de trabalho; 1 ha de bananas gera trabalho para 3 a 4 pessoas com disposição.

Coco no Paraná

No norte do Paraná é onde começa o clima tropical e isto abre a possibilidade de cultivar até coco. Cerca de 90% de todo o coco ainda são trazidos do Nordeste do Brasil, e implica em grandes custos de transporte e poluição. Em 2005, já foram colhidos 1 milhão de cocos no Paraná. A cultura tornou-se importante na diversificação de propriedades pequenas e médias. Por enquanto, a assistência técnica ainda é insuficiente, mas isto pode mudar. Há sete anos, Luiz Antônio Macorim plantou 200 coqueiros em um hectare. Nos últimos dois anos ele colheu cerca de 100 a 120 cocos por coqueiro/ano, a R$ 0,50/unidade. Ele possui 24 ha, onde também cultiva banana e café, mas só o coco gerou uma renda de 10 mil reais, ou seja, 25% de tudo o que ele ganha.

Mas ainda há muito mais possibilidades. Por exemplo, o mercado externo começa a se abrir para a acerola, a fruta com o maior teor de vitamina C. É possível cultivar 200 árvores desta espécie em um hectare. Cada árvore pode produzir, entre outubro e abril, cerca de 30 quilos. Elas são entregues a R$ 0,50/kg e vendidas por R$ 0,65/kg.

 

Nestes tempos sombrios de soja, não se passaria para fruticultura por muito menos?

 

Curitiba, 14 de dezembro de 2005.

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