Revista Ímpar – MS

  1. Por que ser vegetariano?

São várias as razões para alguém se tornar vegetariano, as principais sendo a compaixão pelos animais, os benefícios para a saúde e os enormes impactos negativos sobre o meio ambiente de uma alimentação centrada na carne.

  1. Marly, quando você começou sua trajetória com a filosofia vegana/vegetariana? E por que se deu esse início?

Virei vegetariana em 1983 e vegana em 1995. O início se deu pelo contato com estas mesmas razões que fundamentam o vegetarianismo, mas em particular pelos animais. Na época o impacto ambiental ainda não era tão evidente, ou pelo menos não estavam tão explícitos os graves problemas ambientais com que hoje nos deparamos e que estão diretamente ligados à forma pouco inteligente de produção e consumo adotada pelas sociedades ocidentais, em que a carne assumiu uma preponderância impressionante.

  1. O que você propõe para as pessoas que estão interessadas em praticar tal filosofia, mas que ainda têm certas dificuldades quanto à alimentação não incluir mais carne vermelha e derivados de origem animal?

Proponho que elas entrem em listas de discussão, que se filiem a SVB ou outros grupos que defendam o vegetarianismo, enfim, que entrem em redes de auxílio mútuo para não se sentirem atomizadas e isoladas em sua escolha. Nestes ambientes ela fortalecerá sua opção e receberá conselhos e auxílio para permanecer nesse caminho que, diga-se, é muito compensador em todos os sentidos.

  1. Para ser coerente a própria filosofia e ética vegetariana, o que não se deve consumir em hipótese alguma?

Para ser considerada vegetariana a pessoa não pode ingerir nenhum alimento que implique em morte de um animal, portanto não pode comer nenhum tipo de carne (boi, frango, peixe, porco, coelho etc.), nem derivados, como presunto, bacon, gelatina etc.

  1. De forma geral, quais seriam os benefícios da alimentação sem uso da carne e sem a inclusão de derivados de origem animal?

Para a saúde são muitos os benefícios. A dieta centrada na carne provoca um efeito avassalador sobre a saúde das pessoas. Várias organizações internacionais de renome como a American Heart Association (AHA), a Food and Drug Administration (FDA), o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Kids Health (Nemours Foundation), o College of Family and Consumer Sciences (University of Georgia) e a Associação Dietética Americana (ADA) têm pareceres favoráveis ao vegetarianismo. A ADA, por exemplo, afirma inclusive que os profissionais da área da nutrição têm o dever de incentivar aqueles que expressam intenção de se tornarem vegetarianos. O vegetariano tem risco reduzido de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, câncer, diabetes, obesidade, doenças da vesícula biliar e hipertensão entre outras.

O vegetarianismo é uma atitude ética e filosófica diante da vida. Não podemos recomendar um tipo de alimentação que é excludente, que não dá para todos. Quem vai ficar de fora? Não é difícil saber. O Planeta não agüenta essa dieta suntuosa, que gera enorme desperdício e destrói e contamina os recursos naturais. Não temos nenhuma justificativa para comer animais criados e abatidos em condições execráveis; hoje há abundância de verduras, frutas, cereais, enfim de todos os alimentos que o ser humano necessita a partir do reino vegetal. 18% das emissões que geram o aquecimento global advêm da criação de animais, ao passo que todos os transportes somados geram 13%.

Criar gado é uma forma muito ineficiente de utilização dos recursos, além de ser a principal responsável pela derrubada das florestas. Segundo o próprio Ministro do Meio Ambiente, 80% da derrubada da floresta amazônica se deve à criação de bovinos.

O consumo de carne bovina é a principal causa das queimadas, do desmatamento, do assoreamento dos rios e da perda de biodiversidade, do uso e da contaminação das águas, entre outras mazelas ambientais, como a geração de quantidades exorbitantes de dejetos animais. A criação de gado é responsável pelo desmatamento de 93% da Mata Atlântica, 80% da Caatinga, 50% do Cerrado e 18% da Amazônia. Estes são alguns dos motivos. São necessários em média 7 kg de cereais e grãos para produzir 1 kg de carne de boi. Metade de toda a terra boa do mundo é destinada a pastagens. A indústria da carne é responsável por mais de metade da água consumida para todos os fins. Cada quilo de carne gerado em sistema de confinamento deixa para trás 7 litros de excrementos, que não têm como ser absorvidos pela terra. Metade da colheita mundial de grãos é consumida pelo gado no mundo todo. Num mundo onde a fome é uma realidade, comer carne torna-se eticamente inaceitável.

  1. Quanto a SVB, quais são seus objetivos?

O objetivo primordial é difundir os vários benefícios do vegetarianismo, por meio de palestras, campanhas, congressos, eventos em geral. Agora, por exemplo, estamos engajados na campanha Segunda Sem Carne, que será lançada em São Paulo, no dia 3 de outubro. A campanha pretende se estender pelo Brasil todo.

  1. Você saberia me informar, se possível, quantos membros participam do SVB atualmente? Por que seria interessante filiar-se ao SVB?

A SVB conta com cerca de mil sócios, espalhados por cerca de 200 cidades do país. É interessante filiar-se a SVB para que tenhamos força política para as reivindicações que fazemos. O sócio da SVB por outro lado se beneficia de descontos em eventos, materiais (livros, camisetas etc.), e nos estabelecimentos conveniados, que cada vez aumentam mais.

  1. Atualmente, as pessoas parecem estar mais interessadas num estilo de vida mais saudável, apesar de a obesidade ainda ser um dos principais motivos para manifestações de muitas doenças. Mas esse interesse por uma melhor qualidade de vida inclui uma alimentação balanceada, e talvez aí um passo mais próximo para o ovo-lacto-vegetarianismo e o próprio vegetarianismo. Como você vê a resposta de público e o próprio interesse de pessoas querendo ser vegetarianas? Há de fato um maior interesse ou os passos para conscientizar a população tanto dos benefícios da dieta vegetariana quanto aos maus tratos de animais para consumo dos humanos ainda estão em seu início?

Acho que o vegetarianismo e seus benefícios tornam-se cada vez mais conhecidos e aceitos. Não se trata de uma moda passageira, como alguns querem. A obesidade é um fato no Brasil, onde cerca de 40% das pessoas têm sobrepeso – e o vegetarianismo também nesse particular tem uma grande contribuição a dar. As pessoas que se tornam vegetarianas se tornam também muito agradecidas pelos inúmeras vantagens advindas dessa opção alimentar.

  1. Muitos comem carne por ter se tornado, desde a infância, um hábito como qualquer outro. A variedade é grande e as opções no mercado são práticas, há fast foods em todas as esquinas. Muitos, talvez, ainda continuam comendo carne por não se sentirem ou não terem a consciência de que são eles que continuam alimentando a indústria da carne. A saída mais concreta para criar ou educar pessoas mais conscientes é ensiná-las desde a infância?

Sim, o hábito é um grande entrave para a adoção de novos – e melhores – comportamentos. Mas felizmente hábitos são passíveis de mudança e decidir fazer algo novo é o primeiro e mais importante passo. A partir daí todo um conjunto de fatores começam a conspirar a favor dessa mudança. Vale a pena mudar p o vegetarianismo pelos grandes benefícios não só pessoais dele advindos, mas também para os animais e o Planeta.

  1. Ao seu ver, se a maioria da população mundial fosse vegetariana, em que condições o meio ambiente se encontraria?

Muitos dos graves problemas ambientais que sofremos hoje seriam grandemente beneficiados e até solucionados com a adoção massiva do vegetarianismo pela população. A alimentação vegetariana também é mais econômica. Em um bandejão a carne representa cerca de 40% do valor. Substituindo-se por alimentos vegetais p se atingir as mesmas calorias e nutrientes, ainda teremos uma economia de 30%. Imagine o que significa isso para uma grande população, para uma grande empresa, e até p o orçamento familiar. Também haveria uma grande economia dos sistemas de saúde do país, que hoje estão sobrecarregados. Como os vegetarianos têm, por exemplo, 50% a menos de diabetes, 31% a menos de cardiopatias e vários cânceres etc. imagine o que isso significaria para o SUS, para as empresas que teriam funcionários menos doentes, e portanto mais produtivos no trabalho. Enfim, as conseqüências seriam imensas.

  1. Seria utopia acreditar num mundo que não se alimente de carne, de uma indústria da moda que não faça uso de peles, e de outras atividades que envolva o maltrato de animais?

Não acho que é uma utopia, é antes uma necessidade e se existe futuro p a humanidade esse futuro passa pelo vegetarianismo.

  1. Marly, como devo apresentá-la na matéria? Além de presidente do SVB, vi que você é socióloga e tradutora, assim como criadora do site vegetariano.

Sim, presidente da SVB, socióloga e coordenadora para a América Latina da União Vegetariana Internacional, uma entidade com mais de cem anos, com sede na Inglaterra.

Às ordens!!!

Muito obrigada!

 Entrevista concedida em 23 de agosto de 2009 à jornalista Carla Matsu

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