Revendo nossos hábitos, pelos animais e pelo Planeta

As pessoas que excluem a carne da sua alimentação, tendo como motivo essencial a solidariedade para com os animais, o fazem por uma implicação ética – uso o termo “essencial”, pois, existem outros motivos determinantes* para tal atitude. O não-consumo é uma manifestação diária da sua discordância em relação ao sofrimento e às privações a que os animais são submetidos no processo de criação e abate, bem como é, também, um protesto contra esta indústria que reduz toda existência animal a produto de consumo. Por julgarem injusto todo o processo que envolve este hábito, é uma questão de ética.

            Sabemos que o ser humano necessita de alimento para viver, e, como diz meu professor de Antropologia Filosófica, “não há como viver sem matar”. Sim, infelizmente não há como viver sem matar. Mas há como viver sem causar tanto sofrimento e morte desnecessários; basta dispormos dos resultados das pesquisas científicas, que são de elevada importância, acreditem, não só quando as verdades reveladas nos são convenientes. Os tempos mudaram. Há quem um dia achou correto escravizar seres humanos por distinção de raça. Mas graças à transformação progressiva do pensamento humano e um constante questionamento da realidade, formas ultrapassadas de compreensão do mundo e da nossa sociedade vão sendo deixadas para trás.

Retomando: já que pesquisas científicas comprovam ser suficiente para a nutrição humana, já que nós temos alternativa – porque continuarmos financiando este injusto processo de transformação da vida animal em produto? Já que o homem, desde os primórdios, aprendeu a cultivar os frutos da terra, que nos saciam organicamente, porque continuamos submetendo a este processo, seres vivos que possuem uma dimensão a ser podada, castrada, reprimida, como ocorre com os animais? As plantas, segundo a sua gênese, por não possuírem dimensões físicas (estruturas) que possibilitariam a sensação, a consciência, a memória associativa e a inteligência prática (elas não possuem cérebro nem sistema nervoso), – características estas, todas presentes nos animais – não seriam, então, o alimento mais adequado nesta tentativa ávida que o homem perfaz todos os dias e a cada dia mais intensamente, na sua busca por justiça e paz? É “só” pararmos para pensar a respeito. Então vamos lá.

            A privação de vivência e expressão de afetividade junto à prole, o impedimento de locomover-se no meio ambiente, a castração cruel da relação ativa e livre para com os elementos da natureza… O “procurar” a água para saciar a sede, o alimento para a fome, a demonstração de carinho com os outros seres, a “capacidade” de sofrimento. O que pesa, neste momento, cabe dizer, é a sua incapacidade de defender-se e fazer valer sua vontade frente ao homem, este animal tão extraordinariamente cheio de habilidades, através das quais é capaz de domesticar (escravizar?) os animais, mas, um animal tão extraordinariamente diferente dos outros também, pois que, mesmo tendo racionalidade e poder de escolha (qual é a implicação disto? É um privilégio que temos? Ou uma responsabilidade, justamente por termos autoconsciência?), é o único capaz de destruir o seu próprio habitat – sim, o Planeta Terra, que atualmente está em processo avançado de deterioração, devido à falta de aplicação da racionalidade humana.

Todo esse aparato de técnicas, teorias e filosofias (no sentido de ideal de vida) que o ser humano cria cada vez mais na sua busca incessante – e nunca tão inquietante como nos dias de hoje, – por uma cura para todos os seus males e para amenizar o sofrimento do animal homem, não o fez pensar no seu equívoco quando julga ter direito de incutir sofrimento assaz e contínuo em outros animais? Ora, quem deseja a paz, deve proporcionar paz, ao passo que, quem não deseja sofrimento a si próprio, não deve impor sofrimento a outrem. Não há efeito superior à causa, da mesma forma que não há como encontrarmos paz, enquanto considerarmos banal o sofrimento alheio. Quero enfatizar aqui: o que proponho, através deste texto, é que todos nós devemos nos esforçar para que seja dado o início de um questionamento em relação ao que, até então, era dado por inquestionável. Precisamos despertar, uns aos outros, deste sono dogmático que por vezes toma conta de uma sociedade inteira em relação à determinada questão.

            O homem, por ser capaz de produzir cultura e conhecimento, de tempos em tempos deve empreender o processo de rever, questionar e reconstruir aperfeiçoando as verdades e os valores constitutivos da sua visão de mundo, pois que regem seu comportamento nas relações com os outros seres vivos e para com o Planeta. A este “movimento” que o homem deve fazer na tentativa de uma transcendência de si mesmo, a esta superação de valores repensados que caem por terra, podemos chamar de evolução.

            * Informe-se sobre o desmatamento da Amazônia, que tem a pecuária como seu maior responsável.

            * Procure se informar a respeito dos benefícios de uma dieta isenta de carne.
 

 

Márcia Tomazzoni – estudante de filosofia

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