Resposta à Matéria da Veja de 14 de agosto de 2002 intitulada “Muita verdura, pouca vitamina”

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Marly Winckler: Primeiramente, gostaria de reproduzir a posição oficial da Associação Dietética Americana (ADA) quanto a dietas vegetarianas: 

ADA: "A posição da Associação Dietética Americana (ADA) é que dietas vegetarianas apropriadamente planejadas são saudáveis, adequadas em termos nutricionais e apresentam benefícios para a saúde na prevenção e no tratamento de determinadas doenças". Posição completa em: https://www.vegetarianismo.com.br/ADA-dietas-vegetarianas.html

Marly Winckler: A seguir teço algumas considerações sobre as afirmações da jornalista Natasha Madov:

Veja: É uma atitude arriscada [adotar a dieta vegetariana], de acordo com um estudo da Universidade de Minnesota, nos EUA. Depois de avaliar os hábitos alimentares de cerca de 5.000 adolescentes, vegetarianos ou não, os pesquisadores concluíram que, longe de ser uma decisão filosófica, tirar a carne do cardápio pode ser um sintoma de distúrbios alimentares graves. São doenças como a anorexia, falta de apetite crônica que pode levar à morte, e a bulimia, na qual o vômito é induzido como forma de conservar a magreza desejada. 

Marly Winckler: O que a Dra. Cheryl Perry, principal autora do estudo referido na matéria, realmente diz sobre vegetarianos adolescentes é:

"Este estudo [da Universidade de Minnesota, nos EUA] mostra que eles [os adolescentes vegetarianos] estão formando padrões ainda melhores que os de seus colegas". "Como os padrões alimentares são aprendidos na infância e adolescência, isto pode ter implicações importantes na saúde a longo prazo em termos de prevenção de doenças crônicas como as cardiopatias e alguns cânceres", afirma a Dra. Cheryl L. Perry. "Contudo, o estudo também descobriu que muitos vegetarianos, em sua maioria do sexo feminino, usam a dieta para controlar a ingestão de alimentos. Embora dietas vegetarianas não causem transtornos alimentares, os pesquisadores sugerem aos médicos que interroguem vegetarianos adolescentes sobre seus hábitos alimentares e suas motivações para seguirem uma dieta sem carne". Texto completo em: http://www.drbobmartin.com/2002k_05_13news01.html e
http://www.ncbi.nlm.nih.gov:80/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=PubMed&list_uids=11980547&dopt=Abstract 

Veja: "Em geral, pacientes com distúrbios alimentares procuram dietas excêntricas, e o vegetarianismo é preferido porque, sem carne, são ingeridas menos calorias e a pessoa não se sente inchada", diz a psiquiatra Angélica Claudino, coordenadora do Programa de Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo. (…) "Muitos adolescentes se tornam vegetarianos por influência de seus ídolos", comenta Marly Winckler, secretária-geral para a América Latina da União Vegetariana Internacional, associação espalhada por 35 países. 

Marly Winckler: Primeiro, falei num contexto completamente diferente do referido no início do trecho acima e, segundo, ao ser perguntada por que os adolescentes aderem ao vegetarianismo respondi: "Há várias razões que levam o adolescente a aderir ao vegetarianismo. A música está sendo uma vertente importante. Os adolescentes ouvem bandas que falam dos maus-tratos aos animais, tanto na forma como são criados quanto na forma como são abatidos e viram vegetarianos". Ou seja, a música é a fonte da informação, mas o motivo que os faz virar vegetarianos é  tomarem consciência da crueldade contra os animais indissoluvelmente vinculada ao consumo de carne e derivados. Deixei isso bem claro à jornalista.

Veja: A complicação para quem está em idade de crescimento é que esse tipo de regime é carente de ferro, cálcio e proteínas, presentes em carnes, leite e ovos. 

Posição da ADA:

Sobre ferro:
"Alimentos vegetais contêm apenas ferro não-heme, que é mais sensível que o ferro heme tanto aos inibidores quanto aos estimuladores da absorção do ferro. Embora as dietas vegetarianas sejam mais ricas que as não vegetarianas no conteúdo total de ferro, as reservas de ferro são mais baixas em vegetarianos porque o ferro de alimentos vegetais não é tão bem absorvido. A importância clínica disto, se é que existe, não é clara, pois a taxa de anemia por deficiência de ferro é semelhante em vegetarianos e não vegetarianos. O conteúdo mais elevado de vitamina C das dietas vegetarianas pode melhorar a absorção do ferro".

Sobre cálcio:
"Ovo-lacto-vegetarianos têm ingestão de cálcio comparável ou superior a dos não vegetarianos. Contudo, a ingestão de cálcio por vegans é geralmente mais baixa que a de ovo-lacto-vegetarianos e de onívoros. Deve-se observar que os vegans podem ter necessidade de cálcio menor que não vegetarianos, pois já se demonstrou que dietas pobres em proteína total e mais alcalinas têm como efeito a economia de cálcio. Além disso, quando a dieta de uma pessoa é pobre tanto em proteína quanto sódio e há a prática de atividade física que envolva levantamento de peso, sua necessidade de cálcio pode ser menor que a de uma pessoa sedentária que se alimente com uma dieta ocidental padrão. Esses fatores e a influência genética podem ajudar a explicar variações da saúde óssea que são independentes da ingestão de cálcio".

Sobre fontes protéicas:
"Sozinhas, fontes vegetais de proteína podem fornecer quantidades adequadas de aminoácidos essenciais caso vários alimentos vegetais sejam consumidos e a necessidade energética seja atendida. As pesquisas sugerem que proteínas complementares não precisam ser consumidas ao mesmo tempo e que o consumo de várias fontes de aminoácidos no decorrer do dia pode garantir a retenção e o uso adequados de nitrogênio em pessoas saudáveis  Embora as dietas vegetarianas sejam mais pobres em proteína total e a necessidade protéica de um vegetariano possa ser um tanto elevada pela baixa qualidade de algumas proteínas vegetais, a ingestão de proteínas tanto em ovo-lacto-vegetarianos quanto em vegans parece ser adequada". 

Veja: Motivada pelo budismo, a paulistana Cristine Viecile Leone, de 18 anos, deixou de comer carne branca e vermelha aos 14. "Meu pai me mandou procurar uma nutricionista, mas não voltei a comer carne", diz. O resultado foram duas crises de anemia em quatro anos. Hoje, Cristine mantém uma dieta mais equilibrada, com ajuda de uma nutricionista. 

Marly Winckler: Onívoros também são acometidos de crises anêmicas.

Veja: Há outras más notícias envolvendo dietas sem carne. Pesquisadores da Universidade Agrícola de Wageningen, na Holanda, acompanharam um grupo de crianças e adolescentes que até os 6 anos foram alimentados de acordo com as regras dietéticas macrobióticas, à base de cereais integrais. Constataram que a falta de vitamina B-12, presente apenas em produtos de origem animal, tinha causado danos irreparáveis no 
desenvolvimento cerebral delas. 

Sobre vitamina B12 (posição da ADA):
"Embora alimentos vegetais possam conter vitamina B12 em sua superfície devido a resíduos do solo, esta não é uma fonte confiável de B12 para vegetarianos. Já se demonstrou que boa parte da vitamina B12 presente na espirulina, nas algas, no tempê e no missô é um análogo inativo de B12 e não a vitamina ativa. Embora laticínios e ovos contenham vitamina B12, as pesquisas indicam que ovo-lacto-vegetarianos têm níveis sangüíneos reduzidos desta vitamina. Aconselha-se a suplementação ou o uso de alimentos enriquecidos para vegetarianos que evitam ou limitam os alimentos de origem animal. Como a necessidade de vitamina B12 é pequena e ela é tanto armazenada quanto reciclada no corpo, os sintomas da deficiência podem demorar anos para aparecer. A absorção de vitamina B12 torna-se menos eficiente conforme o corpo envelhece e, assim, os suplementos podem ser aconselhados para todos os vegetarianos mais velhos".

Veja: Comparados com crianças com alimentação variada, os macrobióticos tiveram pior desempenho em habilidade espacial, memória, capacidade de pensamento abstrato e aprendizado. 

Marly Winckler: O que estes estudos, realizados entre 1988 e 1992, mostram é que as crianças tinham uma dieta restritiva não apenas quanto a alimentos de origem animal, mas também quanto a gordura, proteínas e calorias. O problema, de fato, foi gerado por uma dieta mal planejada e não por ter sido macrobiótica.

Veja: O interessante é que os pesquisadores não encontraram nenhuma vantagem na dieta sem carne que pudesse contrabalançar os prejuízos. 

Marly Winckler: Se os pesquisadores não encontraram, e nem a senhora jornalista percebeu, eu vou lhe dizer quais são os benefícios de uma dieta vegetariana. São imensos e eu precisaria de um livro para descrevê-los, mas basta dizer que uma dieta vegetariana desde logo nos desassocia da crueldade com que são criados e abatidos milhares e milhares de seres indefesos que sentem dor e terror. Uma dieta vegetariana é mais saudável. O vegetariano tem risco reduzido de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, câncer, diabetes, obesidade, osteoporose, doenças da vesícula biliar e hipertensão. O meio ambiente também se beneficia com a adoção da dieta vegetariana. A criação de gado significa um uso muito ineficiente dos recursos, além de ser a principal responsável pela derrubada das florestas. São necessários 7 quilos de cereais e grãos para produzir um quilo de carne. Metade de toda a terra boa do mundo é destinada a pastagens. A indústria da carne é responsável por mais de metade da água consumida para todos os fins. Metade da colheita mundial de grãos foi consumida pelo gado nos anos oitenta. Num mundo onde a fome é uma realidade, o comer carne torna-se eticamente inaceitável. 

Finalmente, a tendenciosidade não é algo de que um veículo de comunicação possa se orgulhar, mas ela se torna insidiosa quando usada contra aqueles que não têm como se defender, os animais, e aqueles que têm todo o direito de receber informações precisas, os adolescentes e seus pais, que legitimamente se preocupam com uma possível deficiência alimentar dos filhos. A sra. Natasha Madov dispunha das informações que eu inseri acima, pois eu as enviei para ela. A revista Veja está na contramão da história. Em um momento em que todas as autoridades que tratam da questão alimentar se esforçam para fazer a população ingerir mais verduras, ela maldosamente intitula sua matéria dando a entender que verduras não contêm tanta vitamina assim. Os vegetarianos merecem respeito, os animais merecem respeito, os adolescentes merecem respeito e a sociedade merece respeito. Esta matéria, completamente tendenciosa e falsa, é uma afronta à inteligência humana. Exigimos reparação.

Marly Winckler
Socióloga, tradutora.
Coordenadora para a América Latina da União Vegetariana Internacional (IVU) 
Moderadora das listas de discussão sobre vegetarianismo veg-brasil e veg-latina: http://br.groups.yahoo.com/group/veg-brasil e http://ar.groups.yahoo.com/group/veg-latina
Servidão do Nilton, 412
88050-170 Praia de Cacupé – Florianópolis – SC
E-mail: marly.winckler@gmail.com
URL: https://www.vegetarianismo.com.br 
IVU: http://www.ivu.org/portuguese

AOS ADOLESCENTES

Todos nós queremos o melhor. O vegetarianismo, não há a menor dúvida, é a melhor opção alimentar, com amplas e profundas implicações. Levem com orgulho o selo do vegetarianismo estampado no peito. Não se intimidem com críticas, com provocações, com os obstáculos que certamente encontrarão pelo caminho. 

O primeiro passo, o ovo-lacto-vegetarianismo, é o mais importante: é o grande passo que nos desassocia de atos sangrentos. Entre o ovo-lacto-vegetarianismo e o veganismo há um abismo continental que cada um deve procurar transpor sem culpa, respeitando o seu processo e o dos outros. Não esqueçam nunca que esta é uma tarefa hercúlea no mundo em que vivemos — exige muita força de vontade, muita determinação e muita coragem. 

Tenham sempre isso presente nos momentos de fraqueza, de dificuldade. Saibam também que os louros da vitória são certos e recompensadores. Ninguém, salvo quem adota uma dieta vegetariana, pode avaliar a sensação maravilhosa de não participar mais dos horrendos atos de crueldade ligados ao abate e à criação em condições execráveis de milhares e milhares de seres indefesos. Como benefícios extras, mas não menos importantes, ao adotarmos essa dieta fortalecemos nossa vontade e contribuímos para um mundo mais pacífico, mais saudável, mais justo, mais abundante e mais feliz. 

Não percam nunca o ardor e o entusiasmo, não se desiludam ao enfrentarem dificuldades — para todo problema há uma solução. Não aceitem nada com base na autoridade. Não aceitem teorias de segunda mão, procurem contrastar as premissas das teorias com sua própria experiência. Não aceitem fórmulas batidas que sabidamente não deram certo. Idéias regem o mundo. Estudem os sistemas dominantes no mundo. Olhem para os frutos desses sistemas. É isso o que queremos? 

Não caiam também na armadilha do ceticismo. É o que há de pior, pois paralisa nosso elã, nossa energia vital. Precisamos de algo novo que contemple o vegetarianismo em suas propostas. Não esqueçam: quem procura acha. A quem bate, a porta se abre. 

Procurem, tentem, batam!

Marly Winckler

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