Resistência pacífica é sinal de covardia?

Há razões suficientes para partir para a ação. Mesmo assim, será que é este o caminho para conseguir mudanças? Será que teremos que retomar a velha discussão sobre violência institucional e opressora versus violência libertadora? Será que eu sou covarde por não acreditar em violência ‘libertadora’? Ou será que essa ação libertadora não é violência, não é destruição? De acordo com a propaganda e os interesses dos barões dos eucaliptos, sua atuação não é violenta, não agride o homem e a natureza, mas traz benefícios para a sociedade. Geração de emprego?! Enquanto trabalhador, também é possível causar prejuízo econômico a uma empresa com uma mobilização sindical. Isso ainda é geralmente aceito na Europa. Por que a destruição desta manhã esbarra na desaprovação (quase) geral? Quando José Bové e seus companheiros colhem/destroem (simbolicamente) um campo de soja transgênica na França e também aqui no Brasil (em 2002), eu sinto empatia por esta manifestação. Eu até participaria, empunhando uma foice. Por que agora tantas sobrancelhas franzidas? Não é uma ação da mesma ordem? Será que não poderíamos, conforme os exemplos de Mahatma Gandhi e Martin Luther King, empreender ações mais criativas sem que nós mesmos tenhamos que partir para a destruição? Mahatma não defendia a covardia, mas suas marchas por sal, e outras, possuíam um caráter bem distinto das marchas de Mao Tse Tung. A ‘Satyagraha do sal’ de sua época não invoca uma ‘Satyagraha da semente’ agora (5)? Com freqüência se reclama – e com justiça – da criminalização dos movimentos sociais. A imprensa realmente possui a tendência de criminalizar principalmente o MST. Mas onde termina a resistência justificada e criativa e onde começa a criminalidade? E mais: o agronegócio reclama da ação criminosa dos que ocupam as propriedades, mas será que o latifúndio em si também não é criminoso? Ou ainda: as condições de trabalho que são comparáveis à escravidão? Criminoso!

E, por fim, a agricultura convencional – principalmente na produção de carne – não está baseada em destruição? É só pensar da indescritível destruição de milhares a milhões de cabeças de gado, em caso de febre aftosa; de suínos, em caso de peste suína; de aves, em caso de gripe aviária. No Brasil utiliza-se a palavra ‘sacrificar’. Como se fosse a coisa mais natural do mundo: oferecer sacrifício. O ‘deus Capital’ que exige sacrifícios. Sacrifícios nos quais se fundamenta a ordem social.

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