Resíduos de café de Londres a Sydney

Luc Vankrunkelsven

Fui seduzido. Estou aguardando um grupo de belgas que está para chegar para fazer uma viagem espiritual pelo Brasil. No Terminal Rodoviário do Tietê, compro uma Folha de S. Paulo. Aos domingos, este jornal lembra uma lista telefônica, com muitos classificados, mas também contém alguns encartes interessantes. A metade vai direto para a reciclagem.

Ou para a lixeira, pois o que eu faço? Um anúncio provocativo me seduz: “Caffé Ritazza, blends exclusivos com os melhores cafés do Brasil e da América Central, preparados com muito carinho”. E ainda: “Bom gosto em todo os sentidos”. Vou até lá para fazer a triagem e ler a minha Folha. Com certeza eles fazem reciclagem por lá e, enquanto isso, posso saborear tranqüilamente meu cappuccino. Para um cidadão de Bruxelas, algo diferente em comparação com o café adoçado do Brasil!

Isopor

O anúncio continua: “Hoje, 750 mil pessoas tomam nosso café especialmente selecionado em um de nossos estabelecimentos em 23 países ao redor do mundo. Londres, Bruxelas, São Paulo, Sydney, Nova Iorque, Paris, Zurique, Madri, Estocolmo, Hong Kong.” Sinto-me, imediatamente, um cidadão do mundo. E com razão! “O mundo do Caffé Ritazza”. Ou, como eu interpreto: “O mundo conforme Caffé Ritazza”.

Degusto o minúsculo cappuccino e, enquanto isso, leio artigos interessantes sobre a restauração do Edifício Copan, um dos grandes prédios da década de 1950, criado pelo arquiteto Oscar Niemeyer que, em 2007, comemora seu centenário. Outro sobre a via crucis da população na favela da Rocinha (Rio de Janeiro), a maior favela da América Latina. E sobre os moradores das ilhas do Oceano Pacífico, que lutam para sobreviver. Suas ilhas estão ameaçadas de submergir por causa do efeito estufa.

 

[Foto 41bis]

Em São Paulo, o Edifício Copan, de Oscar Niemeyer

 

Vejo a atendente jogar os copinhos de isopor no lixo. Pergunto se eles serão reciclados. Ela me olha como se eu fosse de Marte. “Não” é a resposta, curta e direta. Quando deixo o local, o anúncio orgulhosamente continua: “Se enfileirássemos os copinhos consumidos anualmente em nossos estabelecimentos, cobriríamos uma distância equivalente à entre Londres e Sydney.”

Engulo este amargo gosto residual de poluição do café e caminho até o simples hotel ‘Estação’. Meu vizinho foi embora. Como de costume, a porta está escancarada: todas as luzes acesas, a TV no volume mais alto. Não consigo saber se ele também deixou a torneira aberta. Um brasileiro com dinheiro suficiente para pagar um hotel nem desliga a luz. Isto é tarefa para os empregados.

Café chique

Fui seduzido – não por um travesti ou uma prostituta. Para qual economia eu me vendo? Será que isto melhora a vida de um único colhedor de café no Espírito Santo? O mercado internacional de café vem sofrendo uma séria queda nos últimos anos (ou melhor: milhões de cafeicultores e colhedores de café; Douwe Egberts[1] realizou negócios milionários). Recentemente o café está em ascensão mundialmente graças aos cafés selecionados de redes como Starbucks, Ritazza e outros. Tomar esses cafés exclusivos voltou a ser chique para a classe média emergente.

E as ilhas no Oceano Pacífico? Isopor é derivado do petróleo, que é um dos grandes causadores do ‘efeito estufa’. “Bom gosto em todo os sentidos”.

Ou será que não posso fazer estas ligações?

 

São Paulo 10 de abril de 2006.

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[1] Douwe Egberts: uma das maiores indústrias de café da Holanda.

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