Recuperação e consolo são possíveis?

Sempre que vejo imensas áreas desmatadas, ou quando me deparo com um deserto de soja ou cana, isso me dói muito. É como se tivessem cortado e desmatado profundamente dentro de mim.

Quando o ônibus passa por uma região onde a floresta nativa ainda está em pé, isso faz minha energia retornar. Será que as almas das árvores e dos homens estão mesmo em sintonia? O movimento Chipko, na Índia, demonstra claramente que tocar em árvores é tocar em pessoas (1). 

Estou agora no Rio de Janeiro, para a última palestra e encontro na Universidade Federal Rural (UFRRJ). O Rio é conhecido principalmente por causa do morro do Corcovado, onde o Cristo Redentor se destaca por sobre a cidade e as montanhas. Menos conhecido é que aqui está em preparação, desde o século XVII, um desastre ecológico. Assim como, três milênios atrás, a Grécia foi desmatada para construir navios de guerra com os quais visava controlar o Mediterrâneo, os morros em torno do Rio foram sistematicamente desmatados. E por quê? Para construir casas e para produzir carvão – atividades que hoje se repetem diariamente em outras partes do Brasil. Os morros foram cultivados primeiramente com cana-de-açúcar e, no século XIX, com café. 

Nesse mesmo século XIX, o governo foi confrontado com a escassez de água na cidade e avalanches de lama. Isso também se repete hoje em muitos outros locais no Brasil. Do mesmo modo que as montanhas gregas permanecem, em grande parte, sem vegetação até hoje – porque o solo fértil escorreu para o mar –, assim também o Rio estava ameaçado de ser cercado por montanhas desertas, em vez dos belos oásis verdes que ainda hoje podem ser apreciados.

O que aconteceu? Por volta de 1860, sob iniciativa do imperador Dom Pedro II, resolveu-se realizar um grande programa de reflorestamento e, em 1870, já haviam sido plantadas mais de 100 mil árvores. Não foi um reflorestamento com pínus ou eucalipto como hoje em dia, mas da diversidade de espécies arbóreas que se encontram na Mata Atlântica. Além da flora, a fauna também foi recuperada de modo que, hoje, o Parque Nacional da Tijuca é um exemplo para todo o Brasil e muito mais além. A Tijuca é uma grande reserva ambiental, de 120 km2, em meio a uma megalópole. O parque conta 30 cachoeiras, 330 espécies de plantas e 100 espécies de animais. A cidade foi novamente abençoada com um abastecimento de água regular. Avalanches de lama com muitas mortes, como no início deste ano no estado de Santa Catarina, não ocorrem mais. A temperatura na cidade está, em média, nove graus abaixo do que estaria se a floresta não existisse. 

Será que esse exemplo do século XIX seria viável no iluminado século XXI? Ou será que devemos permanecer passivos enquanto o Cerrado é destruído, o clima de Cuiabá se torna insuportável, as crianças ficam doentes com alergias e a região amazônica se transforma em Savana?

A recuperação é  possível. Que isso seja um consolo. 

Luc Vankrunkelsven,

Rio de Janeiro, 26 de abril de 2009. 

  1. No movimento Chipko, da Índia, são (principalmente) as mulheres que se mobilizam, protegendo as árvores das montanhas do Himalaia com seus próprios corpos. Quando os madeireiros chegam com suas motosserras, elas abraçam as árvores e, assim, impedem o desmatamento.

 

    Postscriptum: 

    Após a palestra na Universidade Rural do Rio, em Seropédica, visitamos uma fazenda experimental agroecológica. Ela foi implantada em 1992, a partir do sonho de estudantes e professores, contrariando a ideologia dominante da Revolução Verde e da agricultura com produtos químicos. Um local com beleza tocante e produção abundante, com seus 6 hectares de horta orgânica numa propriedade de 40 hectares. Vários exemplos práticos de sistemas agroflorestais, pecuária orgânica, adubação verde, diferentes formas de fixação de nitrogênio, recuperação da mata nativa com corredores pela região para dar uma chance à fauna de viver e sobreviver, um projeto de irrigação utilizando colmos de bambu etc. É como se, aqui, estivessem dando continuidade à recuperação do século XIX, no Rio de Janeiro, porém de uma forma contemporânea e fundamentada cientificamente.

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