Ração animal, uma história de interdependência

Ração animal, uma história de interdependência 

Durante as últimas duas turnês, as palestras, conversas e encontros não tiveram sempre o mesmo tema. Isso dependia do local em que estávamos e das várias perguntas.

Porém, uma “linha vermelha” que permeia muitas conversas é a “história da ração animal”. Para esboçar uma conclusão, apresento um resumo das ideias durante esses encontros.

Informação apresenta uma imagem mais ampla. Informação não trata somente do que aconteceu recentemente, mas também do que ocorreu no passado. Ela liga os pontos das notícias, de modo que é possível analisar o tema em debate dentro de um contexto mais amplo de conexões e padrões. E isso pode nos levar a compreender as causas por trás dos fatos.” Colunista Hajrat Mumtaz, no jornal paquistanês Dawn, maio de 2009. 

Um problema no espaço e no tempo 

Quando temos um problema, o melhor é situá-lo no tempo e no espaço. Não dedico muita atenção ao “espaço”, porque isso está absolutamente claro. Os espaços onde se desenrola a história da ração são, de um lado, os países produtores: Estados Unidos da América, Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. Do outro lado estão os importadores: Europa, Japão e China. E é claro que há os oceanos, onde os navios se cruzam. Na calada da noite. 

Soja e milho não são, em si, um “problema”. Há mais de 5 mil anos, a soja é uma planta sagrada na China. Há milhares de anos, o milho ocupa a mesma posição no México e na América Central. Não, o problema é o sistema internacional de ração que une essas duas espécies sagradas de uma maneira quase perversa. Também é abominável que a maior parte de ambas as culturas desapareça nos bicos e nas bocas de frangos, perus, patos, porcos, gado e peixes. No caso da soja, isso representa 90% do farelo rico em proteínas. Mundialmente, 70% dos grãos de soja são destinados a ração. Quanto a todos os outros aspectos – como escravidão, desmatamento, exclusão social, estiagem, erosão, etc. –, recomenda-se a leitura dos dois livros anteriores sobre soja. 

Século XIX: as distantes raízes do que ocorreu posteriormente 

Quando pensamos em soja e milho, monocultura é a imagem que vem à nossa mente. Devido à “modernização” e mecanização, a monocultura se tornou um fenômeno comum, mas ela não é tão recente assim. No século XVI, a Europa conheceu a batata, vinda da região dos Andes. Ainda levou algum tempo, mais precisamente até o século XVIII, para que os europeus aprendessem a consumir as batatas. A partir daí, rapidamente tornou-se o alimento básico dos pobres: batata e cebola, como o “arroz com feijão” no Brasil – com a diferença de que o arroz com feijão é muito mais nutritivo. Do século XIX conhecemos a famosa pintura “Os comedores de batatas”, de Vincent van Gogh, e a crise da batata (provocada pelo fungo Phytophthora), na Irlanda. Grande parte da zona rural irlandesa era controlada por latifundiários britânicos que lá criavam/produziam, principalmente, carneiros e batata em monocultura. Devido à crise avassaladora desse tubérculo, mais de um milhão de irlandeses morreram de fome. Dois milhões de pessoas imigraram, principalmente para os Estados Unidos da América: em busca de alimentos, futuro e felicidade. Os Kennedy são uma das famílias mais conhecidas dentre elas. Mais tarde, a doença passou para o continente: italianos, alemães, poloneses e ucranianos imigrariam, principalmente para o sul do Brasil. Por causa da pobreza e da fome sem perspectivas (causadas, entre outros motivos, pela doença da batata), 55 (!) milhões de europeus imigraram para as Américas, Austrália, Nova Zelândia, sul da África e Sibéria, entre 1846 e 1924. 

Os ex-irlandeses começaram a colonizar o interior dos EUA com entusiasmo. Porém, já a partir de 1850 eles se tornaram dependentes do trem a vapor, dos portos e dos navios a vapor da família Cargill. A eles não restava outra alternativa senão vender barato seus cereais àquele único comprador com logística internacional. Este fazia o “dumping” do produto no mercado europeu, o que imediatamente provocou uma enorme crise na agricultura. Muitos agricultores partiram para servir como mão-de-obra barata nas fábricas das cidades. Outros imigraram para o “Novo Mundo”. Com a Revolução Industrial, a Europa teve muitos governos liberais, que tinham interesse nos baixos preços dos alimentos para os trabalhadores mal pagos. Eles não apoiavam a agricultura em seus próprios países. Dessa crise surgiram os grandes sindicatos de agricultores que, posteriormente, se tornaram parte do problema agrícola (1).

É nesse século XIX que tem origem a ideia fixa dos americanos de que eles têm ”vocação para alimentar a população mundial”. Desde o final do século XX e o início do século XXI, ouve-se a mesma propaganda sobre uma vocação quase “religiosa” no Brasil. “Nossa vocação é alimentar a população mundial. E nós temos terras, água e sol o suficiente para produzir etanol e biodiesel para os motores também.” 

A segunda metade do século XIX foi também o momento em que as duas visões conflitantes de Justus von Liebig e Julius Hensel abalaram os ânimos. Até hoje as indústrias químicas e a agricultura convencional se baseiam na primeira figura, enquanto sistematicamente mantêm silêncio sobre a segunda. Entretanto, seu modelo agrícola – isento de produtos químicos e com elevada produtividade – poderia representar um refresco nesse século XXI superaquecido. 

Guerra química – agricultura química 

O que teve início timidamente após a Guerra Franco-Prussiana continuou durante a Primeira Guerra Mundial. Pela primeira vez, produtos químicos foram massivamente utilizados numa guerra. Justamente na Bélgica, às margens do rio Yser (em holandês, IJser), é que se travaram muitas batalhas durante os horríveis anos daquela luta. Após o conflito, restaram muitas fábricas de produtos químicos, mas não havia compradores. Sem problemas: descobriu-se que as fábricas poderiam ser utilizadas ou para a guerra química ou para a agricultura química. Os produtos químicos foram, em grande escala, convertidos para fins agrícolas, tendo como resultado um grande excedente de alimentos na década de 1920 e consequente queda nos preços. Essa foi uma das principais causas da depressão econômica na década de 1930 do século XX.

E por que tanto alimento? Quando você aplica adubo químico pela primeira vez num solo rico em matéria orgânica, a matéria orgânica também libera seus nutrientes e é possível obter produtividades muito elevadas. Depois de dois, três anos ocorre uma redução. Porém, nesse meio tempo, já estávamos na referida Grande Depressão e foram os economistas estadunidenses (e não os agrônomos!) que inventaram: “Precisamos, com urgência, reestruturar a agricultura”. Assim cresceu a ideia de produzir carne à base de ração, pois quando se produz alimentos para consumo direto os lucros são muito menores do que quando se produz ração. “Ração = redução dos alimentos”. Naquela época era possível obter 1 kg de carne a partir de 10 kg de ração. Hoje em dia, quando se produz 100 kg de soja, você terá cerca de 40 kg de proteínas, com as quais é possível “produzir” 4 kg de carne. A conversão para carne de frango pode ser mais eficiente. A ração atual possui uma grande diversidade de partículas protéicas e energia, dependendo do preço de mercado global no momento da aquisição das matérias-primas. 

A dupla soja-milho 

Em 1928 foi desenvolvida a hibridação e, em 1935, as lavouras nos EUA já estavam cobertas de milho híbrido. E foi assim que o milho híbrido se tornou um importante instrumento para vencer a Grande Depressão. Até a Primeira Guerra Mundial, cerca de 28% das terras agrícolas dos EUA eram destinadas para animais de tração. Essas terras foram liberadas pela rápida mecanização da agricultura. A dupla soja-milho era a solução ideal para ocupar esse espaço. O milho produziria energia. A soja ganhou popularidade principalmente após a Segunda Guerra Mundial e forneceria as proteínas. Além disso, a soja fixa – gratuitamente – nitrogênio no solo. Isso era interessante, pois o esterco de cavalo deixou de ser produzido. O cultivo de soja e milho são facilmente mecanizáveis. E o melhor de tudo – é claro – é que a produção de ração permite maior acúmulo de capital do que a produção de alimentos. A produção aumentou ano após ano. Mantendo a sintonia com a vocação exportadora do século XIX, os EUA buscavam ocupar o mercado externo permanentemente. Paralelamente à hegemonia na ração, baseada na dupla soja-milho, houve grande aceleração no desenvolvimento das indústrias de alimentos. O escritor norte-americano Michael Pollan aponta, com razão, para o fato de uma série de derivados de soja, milho, trigo e arroz estarem dominando e estreitando a base de alimentos da culinária ocidental. Essa seria a origem de muitos dos problemas de saúde ocidentais (2). 

Da Revolução Vermelha, passando pela Verde, até a Transgênica 

Após a Segunda Guerra Mundial, a “quimificação” da agricultura continuou, mas a ciência avançou ainda mais com a química molecular. Foram introduzidos os pesticidas químicos. Ora, o que acontece quando se fornece adubos químicos às culturas? As plantas aumentam a produção de aminoácidos, o que intensifica o ataque de insetos.

Afinal, foi no acúmulo de capital idealizado pelos economistas da década de 1930 que se fundamentou a ”Revolução Verde” da década de 1960. É uma extensão da lógica econômica – e, não agrícola – da década de 1930. Do ponto de vista histórico, a Revolução “Verde” veio a calhar como uma espécie de contrarrevolução para a ameaça da Revolução “Vermelha”. Na América Latina se ouvia, desde a década de 1950, um forte clamor pela realização da reforma agrária. No contexto da Guerra Fria, isso representava um risco para os interesses dos EUA e para os privilégios das elites nos diversos países. Assim se instalou a ditadura brasileira em 1964, dois anos após o ano-chave 1962 (veja o quadro “América-Europa”, a seguir). O acordo entre os EUA e a Europa surtiria, rapidamente, um efeito de atração de grãos também da América Latina. Para Monsanto e companhia, as perspectivas são esplêndidas: as décadas de 1960 e 1970 são marcadas pela Guerra do Vietnã e o legendário “agente laranja”, fabricado pela Monsanto. A Revolução Verde se tornaria um excelente mercado comprador dos produtos químicos agrícolas associados às supersementes do próprio grupo. Na verdade, a “generosidade” desse gigante químico começou muito antes. É só lembrar dos produtos à base de PCB (ex. organoclorados). É bem verdade que já foram proibidos há anos, mas eles continuarão a poluir os mares por mais mil anos. Eles se acumulam na gordura dos peixes e, ao consumi-los, também no homem (3). 

América-Europa; o acordo de 1962 

Desde a segunda metade do século XIX, os Estados Unidos da América estão em permanente busca de mercados externos. No século XX, após a Segunda Guerra Mundial, eles vislumbraram a oportunidade de otimizar a combinação “filantropia e comércio”. A Europa estava exaurida e acabara de passar pelo “inverno da fome”. O Plano Marshall perdoou a dívida da década de 1930 e canalizou muitos dólares para o outro lado do oceano: para reconstruir a economia na Europa. Ao mesmo tempo, esse plano criou uma folga econômica para, nas décadas seguintes, aumentar o consumo de produtos americanos. A primeira ação do Plano Marshall foi enviar auxílio humanitário na forma de alimentos: bom para os europeus famintos, bom para o excedente de cereais estadunidense.

Na mesma época, no ano de 1944, foi constituída a trindade “FMI-Banco Mundial-GATT”, em Bretton Woods. Oficialmente, a agricultura foi mantida fora do sistema GATT. Isso perduraria até a Rodada do Uruguai (1986-1994). Nessa Rodada, o GATT (sigla em inglês para Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) foi convertido, a partir de 1995, em Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em 1957, foi criada a CEE (Comunidade Econômica Europeia): primeiro foram seis países, depois 12, 15 e 18 países para resultar na União Europeia, com 25 países e, finalmente, 27 países. O cimento nas negociações e na construção da Comunidade Europeia/União Europeia foi a GLB, sigla em holandês para Política Agrícola Comum.

A Europa queria reconstruir e proteger sua própria agricultura. Os recursos do Plano Marshall proporcionaram uma acelerada tecnificação e “quimificação” da agricultura. Os EUA aceitaram o protecionismo com uma condição: a Europa deveria permitir a importação de culturas oleaginosas, sem tarifas nos portos e sem cotas. No GATT, esse acerto ficou conhecido como o Acordo da Rodada de Dillon (1960-1961). O Acordo de Dillon passou a vigorar a partir de 1962 (ano em que foi lançado, no Brasil, o primeiro par de Havaianas) e fez com que, na Europa, as importações de matérias-primas para ração aumentassem de 10 milhões de toneladas para 50 milhões de toneladas a partir de 1992. Em 2009, a soja participa com 39 milhões de toneladas desse volume. Gradativamente, como resultado da Revolução Verde, isso passou a ser 20 milhões de toneladas de soja do Brasil (4). Na Rodada do Uruguai, a União Europeia não renegociou o acordo de 1962, que também causa muito desequilíbrio na zona rural da Europa. Pelo contrário, a Europa aceitou a imposição norte-americana de que a UE poderia subsidiar, no máximo, 4.934.700 hectares de culturas oleaginosas. Assim a UE permanece estruturalmente dependente da importação de proteínas vegetais do exterior. O que chama a atenção é que, tanto em 1962 quanto em 1992, só foi tratado de “culturas oleaginosas”, embora a questão não seja o óleo extraído das mesmas e, sim, de ração! O resultado é que, atualmente, somente 1% das terras agrícolas da Europa está ocupada com culturas protéicas. Enquanto a soja continua a chegar a preços extremamente baixos, os produtos centrais – como trigo, carne de gado e laticínios – continuaram sendo apoiados na Europa até 1992. Ao longo dos anos, também desapareceu da ração o trigo próprio (mais caro), o qual – por sua vez – foi despejado no mercado mundial. Desde a década de 1980 isso representa, anualmente, um volume de 20 a 30 milhões de toneladas de trigo. É exportação, mas na realidade trata-se de uma “exportação importada”, graças às 50 milhões de toneladas de substitutos de cereais importados d‘além-mar.

Essa única decisão política em 1962 compromete até hoje a política agrícola europeia, dilacera a zona rural europeia com grandes concentrações de gado próximas a portos e igualmente grandes problemas ambientais, e promove uma relação de “dumping” da Europa por conta de seus excedentes no mercado mundial. Quando será que esse círculo vicioso será rompido? Será que o assim chamado ”reequilíbrio” permanecerá tabu até que o aquecimento global nos obrigue a fazer outras escolhas?

 

No Brasil, os instrumentos da Revolução Verde foram, principalmente, soja e milho – de novo. Os agricultores brasileiros detinham, desde sempre, uma grande diversidade de sementes milho (sementes crioulas). Essas foram rapidamente marginalizadas pelo milho híbrido. A soja avançou para o norte, junto com o chimarrão dos gaúchos: partindo do Rio Grande do Sul (via Santa Catarina e Paraná) para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É nesse último estado que se encontra, desde o início do século XXI, o maior volume de produção, nesse mesmo século em que a carne e o carro passam a compartilhar o interesse no grão de soja: o farelo de soja para ração e o óleo para o biodiesel. Os estados do Tocantins, Piauí e Maranhão são rapidamente ocupados com lavouras de soja, porque o porto de São Luís está mais próximo da Europa e do Japão. Dessa vez não são somente frangos e suínos europeus, mas também o biocombustível “limpo” que marginaliza a cultura cabocla em ritmo acelerado (5). Além disso, o cultivo da cana-de-açúcar passa por um rejuvenescimento, devido à demanda internacional por etanol – novamente por causa dos motores. O Cerrado está sendo arado e plantado numa corrida contra o relógio. A nova ferrovia de Tocantins para o porto de São Luís deve permitir que o etanol, o biodiesel e o farelo de soja cheguem o mais rápido possível na Europa.

 

Os atrativos adicionais para a soja brasileira são: a contínua resistência do consumidor europeu à soja transgênica; a proibição, desde 2001, do uso de farinha de ossos na composição da ração na Europa devido ao problema da ”Vaca Louca”; e o aumento no consumo de proteína animal na China que, em 2001, passou a ser membro da OMC. Desde 1997, a partir da ”Lei Kandir”, a soja e outras commodities não processadas ou semielaboradas (por exemplo, pasta de celulose de eucalipto) podem deixar o Brasil sem pagar impostos. Portanto, os quatro grandes atacadistas – Cargill e companhia – não pagam impostos nem na exportação do Brasil nem na importação na Europa. Aracruz e companhia, com suas exportações de celulose para a indústria de papel, são diariamente beneficiadas por essa lei, mas o cofre do tesouro brasileiro não recebe um real por essas transações internacionais. Também são gerados menos postos de trabalho do que, por exemplo, na Argentina, onde a soja e outros produtos deixam o país com maior grau de processamento. Assim, o valor agregado e os empregos ficam naquele país. Motivo? Na exportação, tanto de produtos brutos quanto processados, os impostos são pagos ao estado argentino. Grande parte da soja brasileira é processada em Amsterdã (Holanda) e Gent (Bélgica). Ou seja, o lucro é gerado no lado europeu do oceano. Também é lá que são criados os postos de trabalho que, de outro modo, poderiam dar emprego às pessoas do Brasil. O que é que os brasileiros estão esperando para questionar esse agronegócio?

 

Nos primeiros anos do século XXI, o Brasil ainda era considerado um país livre de soja transgênica. Por isso, muita soja estadunidense foi substituída por soja brasileira nos portos europeus. Nesse meio tempo, a realidade em relação aos transgênicos mudou drasticamente no Brasil. As leis foram adaptadas aos desejos da Monsanto. A demanda da China-Europa-Japão está garantida. A história dos transgênicos é um capítulo lógico na industrialização da agricultura, a serviço do acúmulo de capital por uma pequena minoria, às custas de uma maioria de agricultores familiares, consumidores, biodiversidade, ecossistemas, 1 bilhão de pessoas que passam fome.

 

Dólar alto e medidas políticas para garantir a exportação

 

A “vocação” dos EUA para “alimentar o mundo” está permanentemente em busca da ampliação de seus mercados. Quando o dólar está alto, a vocação é ameaçada. Foi o que ocorreu em 1954 e em 1985. O que chama a atenção é que essa situação leva a decisões políticas de grande impacto, que afetam praticamente toda a população mundial.

– 1954: a Public Law 480 [Lei Federal 480, dos EUA] foi anunciada. O programa é denominado Food for peace [Alimentos em “troca” de paz]. É – para dizer o mínimo – um nome cínico, pois a “paz” é imposta por intermédio de cereais, comparável ao ”pão e circo” da Roma Antiga, dois mil anos atrás. Quem toma as decisões acerca da ajuda humanitária não é o Ministério da Agricultura ou do Comércio, e sim o State Department (Ministério das Relações Exteriores) e o presidente em pessoa. Isso indica o caráter político da arma na forma de cereais. Na verdade, muitos povos do Hemisfério Sul se tornaram dependentes do “pão doce” vindo do Norte. Principalmente entre a África Subsaariana e a América-Europa há um conflito antropológico entre o alimento mais ácido da própria cultura e a alimentação doce do Norte. Embora não seja possível cultivar trigo no Congo ou no Senegal, depois de 50 anos de Food for peace comum encontrar alguém com um pacote de pão francês em Kinshasa. Mesmo que muitos povos pudessem contar com sua própria produção de milho, eles foram “bombardeados” e tornados dependentes do milho híbrido norte-americano. De uma hora para outra, em virtude do clamor por energia “limpa”, 30% do milho estadunidense está sendo convertido em etanol. Essa recente guinada na história da vocação é um elemento importante na crise dos alimentos de 2008.

– 1985: o sistema de garantia de preços é reduzido e parcialmente substituído pela garantia de renda aos agricultores. São os tão criticados subsídios ou, com outras palavras: garantia de baixos preços de matérias-primas para a agroindústria. A “vocação” é levada ao extremo com a exportação dos produtos abaixo do preço de custo, enquanto os agricultores norte-americanos recebem a diferença. Imediatamente em seguida, na Rodada do GATT no Uruguai (1986-1994), os EUA trocaram seu rifle de mão. Na realidade, o GATT ainda era um “encontro de amigos” – os EUA e a UE – mesmo com a presença formal de outros países. Durante décadas, as regras do GATT foram estabelecidas de acordo com os interesses dos estadunidenses e europeus. Na Rodada do Uruguai, os EUA exigiram que a agricultura e os alimentos fossem, finalmente, integralmente incluídos na ideologia do GATT. Além disso, isso deveria ser feito de acordo com o sistema deles: a garantia de preços se tornaria ilegal, a garantia de renda poderia ser implementada, dentro do quadro-geral do GATT. Em 1992, a União Europeia cedeu com a reforma McSharry: o sistema estadunidense foi adotado, a garantia de preços foi reduzida e compensada parcialmente com subsídios diretos aos agricultores (6).

A reforma na UE abriu caminho para um acordo no GATT. O mundo inteiro foi confrontado com preços em queda devido à prática de dumping por parte dos EUA, associada aos subsídios para seus próprios agricultores. Tudo realmente muito favorável para as multinacionais da agroindústria e de alimentos, sempre em busca de matérias-primas com preços baixos. Os países ricos, como os EUA e a UE, por enquanto ainda podem conceder subsídios a seus agricultores, mas outros países, como o Malawi, somente conseguem garantir preços e proteger suas fronteiras. A garantia de preços se torna ilegal e os programas de adaptação estrutural do FMI fizeram com que, na década de 1980, todas as fronteiras se abrissem para produtos do Norte e que as agriculturas nacionais seguissem o trilho da produção para exportação, para o pagamento das dívidas externas. Dentro da estrutura da nova OMC, os acordos do GATT exercem pressão ainda maior pela redução de barreiras alfandegárias.

Nos últimos anos, a hegemonia dos atacadistas de cereais norte-americanos diminuiu um pouco. Principalmente países como a Rússia e a Ucrânia, mas também a União Europeia, estão assumindo o papel de líder do mercado.

 
 

1973: o auge do roubo de cereais pelos grandes

 

Ainda há muito a relatar sobre dados cruciais. Vou me limitar ao ano lendário de 1973. Esse ano é conhecido como o início da crise do petróleo, mas também por uma acentuada escassez de cereais no mercado mundial. Aparentemente, os picos da crise de alimentos crônica, que aflige nosso mundo, são acompanhados de elevação no preço do petróleo. Foi exatamente esse o caso em 1973 e, novamente, em 2008. É claro que, em ambas as crises, há mais fatores determinantes. Em 1973, foram as grandes enchentes e frustrações de safras no vale do Rio Mississipi, nos EUA. Na mesma época, houve uma elevada demanda de trigo da antiga União Soviética. Os preços dispararam. Além disso, os EUA puxaram o freio de suas veementemente contestadas exportações. Entretanto, os agricultores não se beneficiaram dessa elevação de preços. Os cereais já haviam sido colhidos e comercializados, e o lucro astronômico foi para o bolso das quatro grandes multinacionais de cereais: Cargill, ADM, Bunge, Dreyfus.

 

E o que acontecia no Brasil? Esse subcontinente se encontrava em meio à Revolução Verde. O embargo da exportação de alimentos dos EUA chegou como um presente dos céus. O avanço da soja e de outros cereais continuou em ritmo acelerado no Brasil, para ocupar o espaço no mercado mundial. Será que é coincidência a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) ter sido criada em 1973? A Embrapa que, imediatamente, começou a difícil tarefa de melhorar as sementes de soja, para que pudessem ser cultivadas na tropical região amazônica!

Nós conhecemos o resto da história.

 

E na Europa? De outro lado do oceano, nós – europeus – ficamos com sérios problemas devido à repentina interrupção na exportação de matérias-primas para ração por parte dos norte-americanos. A Comunidade Europeia se deu conta de quão dependente ela se tornara em decorrência dos Acordos de Dillon, de 1962. Por isso, os agricultores receberam apoio, novamente, para cultivar suas próprias proteínas. Os estadunidenses observavam isso com preocupação e conseguiram, em meados da década de 1980, fazer com que os subsídios para cultivo das próprias proteínas fossem interrompidos. Consequência: uma forte redução nas proteínas vegetais na Europa, pois a soja d’além-mar chegava ao continente muito mais barata do que as proteínas que os agricultores europeus conseguiam cultivar em solo próprio. Ainda assim, muitas alternativas são viáveis: gramíneas-trevo, tremoço, cânhamo, ervilhas e feijões, amaranto, etc. Até a produção de soja na Itália se reduziu visivelmente devido à concorrência desleal do outro lado do oceano (sem impostos na exportação pelo Brasil; sem taxas na importação na Europa; preços fixados pela Bolsa de Chicago sob medida para a produção em larga escala, num jogo de especulações e investimentos internacionais). Não obstante, é a Itália que tem a maior produtividade mundial de soja.

 

Proteínas: o desafio do século XXI

 

Nos últimos 50 anos, a população mundial duplicou, mas o consumo de proteínas animais quintuplicou. Nas próximas décadas, a população mundial deve chegar a 8 ou 9 bilhões de pessoas. O consumo de carne deve dobrar novamente até 2050, pois a Ásia está consumindo mais proteínas animais. Há 20 anos, o consumo médio anual de carne na China era de 20 kg/pessoa. Atualmente, é de 50 kg/pessoa, mas estamos falando de 20% da população mundial, que dispõe de apenas 6% das terras agricultáveis do mundo e de 6% da água doce do mundo. Como o Brasil dispõe de sol, terras e água em abundância, a mudança nos padrões de consumo da Ásia são imediatamente percebidas na zona rural do Brasil! E por que os chineses não poderiam comer carne se o europeu, o estadunidense, o brasileiro e o argentino médios podem consumir um exagero de carne? Será que a “cultura McDonald’s” chegou até na Índia que, há milhares de anos, é vegetariana em virtude da cultura hindu? Dentro de 20 anos, a população da Índia será ainda maior do que a da China e o território indiano é relativamente menor. Na Índia, todos os sinais de alerta ecológicos já estão piscando.

 

Há muitos desafios para o século XXI: “Como vamos lidar com o ouro azul, a água?”; “Como vamos converter nossa sociedade desperdiçadora de energia e esfriar um pouco o clima para as futuras gerações?” Isso só para mencionar alguns… E podemos, tranquilamente, acrescentar: “Como vamos nos posicionar em relação às proteínas animais e vegetais?” Afinal, esse último desafio está diretamente relacionado com água, energia e a questão climática.

 

Luc Vankrunkelsven,

Bruxelas, 22 de maio de 2009, Dia Internacional da Biodiversidade.

 

  1. Para a Bélgica, veja: “100 jaar boeren” [100 anos de agricultura], de Daniël Demblon, Jan Aertsen e.a., Epo, 1990.
  2. Michal Pollan, “In Defense of food: an eater’s manifest”. Versão em português: Michal Pollan, “Em defesa da comida: um manifesto”. Rio de Janeiro, 2008.
  3. Assista ao filme revelador “The world according to Monsanto” [O mundo segundo Monsanto], no site de vídeos www.youtube.com.
  4. Sobre as consequências de “1962”, tanto para a Europa quanto para o Brasil, leia o texto conjunto de Fetraf-Sul/Cut e Wervel: ”Projeto de intercâmbio OMC e fluxos de alimentos Brasil-Europa”, Chapecó, 2005 – com análise e alternativas.
  5. Caboclos: quatro séculos de cultura ancestral, descendentes da miscigenação de colonizadores portugueses e povos indígenas.
  6. Het McSharryplan [O Plano McSharry], contextualizando os objetivos, os motivos e a evolução da política agrícola da UE. Wervel, novembro de 1992.

Please follow and like us:

Ração animal, uma história de interdependência

Luc Vankrunkelsven

Durante as últimas duas turnês, as palestras, conversas, encontros não tiveram sempre o mesmo tema. Isso dependia do local concreta e das várias perguntas.

Porém, uma ‘linha vermelha’ que permeia muitas conversas é a ‘história da ração animal’. A título de conclusão, apresento um resumo das idéias durante esses encontros.

“Informação apresenta uma imagem mais ampla. Informação não trata somente do que aconteceu recentemente, mas também do que ocorreu no passado. Ela liga os pontos das notícias, de modo que é possível analisar o tema em debate dentro de um contexto mais amplo de conexões e padrões. E isso pode nos levar a compreender as causas por trás dos fatos.” Colunista Hajrat Mumtaz, no jornal paquistanês Dawn, maio de 2009.

 

Um problema no espaço e no tempo.

Quando temos um problema, o melhor é situá-lo no tempo e no espaço. Não dedico muita atenção ao ‘espaço’, porque isso está absolutamente claro: os espaços onde se desenrola a história da ração são, de um lado, os países produtores Estados Unidos da América, Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. Do outro lado estão os importadores: Europa, Japão, China. E é claro que há os oceanos, onde os navios se cruzam. Na calada da noite.

Soja e milho não são, em si, um ‘problema’. Há mais de 5 mil anos, a soja é uma planta sagrada na China. Há milhares de anos, o milho ocupa a mesma posição no México e na América Central. Não, o problema é o sistema internacional de ração que une essas duas espécies sagradas de uma maneira quase perversa. Também é abominável que a maior parte de ambas as culturas desapareça nos bicos e nas bocas de frangos, perus, patos, porcos, gado e peixes. No caso da soja, isso representa 90% do farelo rico em proteínas. Mundialmente, 70% do grão de soja são destinados a ração. Quanto a todos os outros aspectos, como escravidão, desmatamento, exclusão social, estiagem, erosão, etc., recomenda-se a leitura dos dois livros anteriores sobre soja.

 

Século 19: as distantes raízes do que ocorreu posteriormente

Quando pensamos em soja e milho, monocultura é a imagem que vem à nossa mente. Devido à ‘modernização’ e mecanização, a monocultura se tornou um fenômeno comum, mas ela não é tão recente assim. No século 16, a Europa conheceu a batata, vinda da região dos Andes. Ainda levou algum tempo, mais precisamente até o século 18, para que os europeus aprendessem a consumir as batatas. A partir daí, rapidamente tornou-se o alimento básico dos pobres: batata e cebola, como o ‘arroz com feijão’ no Brasil. Com a diferença de que o arroz com feijão é muito mais nutritivo. De século 19 conhecemos a famosa pintura ‘Os comedores de batatas’, de Vincent Van Gogh e a crise da batata (provocada pelo fungo Phytophthora), na Irlanda. Grande parte da zona rural irlandesa era controlada por latifundiários britânicos e lá se produzia principalmente carneiros e batata em monocultura. Devido à crise avassaladora da batata, mais de um milhão de irlandeses morreram de fome. Dois milhões de pessoas imigraram – principalmente para os Estados Unidos da América: em busca de alimentos, futuro e felicidade. Os Kennedy são uma das famílias mais conhecidas dentre elas. Mais tarde, a doença passou para o continente: italianos, alemães, poloneses e ucranianos imigrariam, principalmente para o Sul do Brasil. Por causa da pobreza e fome sem perspectivas (devido, entre outros, à doença da batata), cinqüenta e cinco (55 !) milhões de europeus emigraram para as Américas, Austrália, Nova Zelândia, sul da África e Sibéria, entre 1846 e 1924.

Os ex-irlandeses começaram a colonizar o interior dos EUA com entusiasmo. Porém, já a partir de 1850, eles se tornaram dependentes do trem a vapor, dos portos e dos navios a vapor da família Cargill. A eles não restava outra alternativa senão vender barato seus cereais àquele único comprador com logística internacional. Esse fazia o ‘dumping’ do produto no mercado europeu, o que imediatamente provocou uma enorme crise na agricultura. Muitos agricultores partiram para servir como mão-de-obra barata nas fábricas das cidades. Outros emigraram para o ‘Novo Mundo’. Com a revolução industrial, a Europa teve muitos governos liberais, que tinham interesse nos baixos preços dos alimentos para os trabalhadores mal pagos. Eles não apoiavam a agricultura em seus próprios países. Dessa crise surgiram os grandes sindicatos de agricultores que, posteriormente, se tornaram parte do problema agrícola (1).

É nesse século 19 que tem origem a idéia – fixa dos americanos de que eles têm ‘vocação para alimentar a população mundial’. Desde o final do século 20 – início do século 21 ouve-se a mesma propaganda sobre uma vocação quase ‘religiosa’ no Brasil. “Nossa vocação é alimentar a população mundial. E nós temos terras, água e sol o suficiente para produzir etanol e biodiesel para os motores também.”

 

A segunda metade do século 19 foi também o momento em que as duas visões conflitantes de Justus von Liebig e Julius Hensel abalaram os conceitos estabelecidos. Até hoje, as indústrias químicas e a agricultura convencional se baseiam na primeira figura, enquanto sistematicamente mantêm silêncio sobre a segunda. Entretanto, seu modelo agrícola – isento de produtos químicos e com elevada produtividade – poderia representar um refresco nesse século 21 superaquecido.

 

Guerra química – agricultura química

O que teve início timidamente após a Guerra Franco-Prussiana continuou durante a Primeira Guerra Mundial. Pela primeira vez, produtos químicos foram massivamente utilizados numa guerra. Justamente na Bélgica, às margens do rio Yser (em holandês, IJser), é que se travaram muitas batalhas durante os horríveis anos daquela guerra. Após o conflito, restaram muitas fábricas de produtos químicos, mas não havia compradores. Sem problemas: descobriu-se que as fábricas poderiam ser utilizadas ou para a guerra química ou para a agricultura química. Os produtos químicos foram, em grande escala, convertidos para fins agrícolas tendo como resultado um grande excedente de alimentos na década de 20 e conseqüente queda nos preços. Essa foi uma das principais causas da depressão econômica da década de 30 do século vinte.

E porque tanto alimento? Quando você aplica adubo químico pela primeira vez num solo rico em matéria orgânica, a matéria orgânica também libera seus nutrientes e é possível obter produtividades muito elevadas. Depois de dois, três anos ocorre uma redução. Porém, nesse meio tempo, já estávamos na referida depressão e foram os economistas norte-americanos (e não os agrônomos!) que inventaram: ‘Precisamos, com urgência, reestruturar a agricultura’. Assim cresceu a idéia de produzir carne à base de ração, pois quando se produz alimentos para consumo direto os lucros são muito menores do que quando se produz ração. ‘Ração = redução dos alimentos’. Naquela época era possível obter 1 kg de carne a partir de 10 kg de ração. Hoje em dia, quando se produz 100 kg de soja, você terá cerca de 40 kg de proteínas com as quais é possível ‘produzir’ 4 kg de carne. A conversão para carne de frango pode ser mais eficiente. A ração atual possui uma grande diversidade de partículas protéicas e energia, dependendo o preço de mercado global no momento da aquisição das matérias-primas.

 

A dupla soja-milho

Em 1928 foi desenvolvida a hibridação e, em 1935, as lavouras nos EUA já estavam cobertas de milho híbrido. E foi assim que o milho híbrido se tornou um importante instrumento para vencer a depressão. Até a Primeira Guerra Mundial, cerca de 28% das terras agrícolas dos EUA eram destinadas para animais de tração. Essas terras foram liberadas pela rápida mecanização da agricultura. A dupla soja-milho era a solução ideal para ocupar esse espaço. O milho produziria energia. A soja ganhou popularidade principalmente após a Segunda Guerra Mundial e fornece as proteínas. Além disso, a soja fixa – gratuitamente – nitrogênio no solo. Isso era interessante, porque o esterco de cavalo deixou de ser produzido. O cultivo de soja e milho são facilmente mecanizáveis. E o melhor de tudo – é claro – é que a produção de ração permite maior acúmulo de capital do que a produção de alimentos. A produção aumentou ano após ano. Mantendo a sintonia com a vocação exportadora do século 19, os EUA buscavam ocupar o mercado externo permanentemente. Paralelamente à hegemonia na ração, baseada em soja-milho, houve grande aceleração no desenvolvimento de indústrias de alimentos. O escritor norte-americano Michael Pollan aponta, com razão, para o fato de uma série de derivados de soja, milho, trigo e arroz estarem dominando e estreitando a base de alimentos da culinária ocidental. Esta seria a origem de muitos dos problemas de saúde ocidentais (2).

 

Da revolução vermelha, passando pela verde, até a transgênica

Após a Segunda Guerra Mundial, a ‘quimificação’ da agricultura continuou, mas a ciência avançou ainda mais com a química molecular. Foram introduzidos os pesticidas químicos. Pois, o que acontece quando se fornece adubos químicos às culturas? As plantas aumentam a produção de aminoácidos, o que intensifica o ataque de insetos.

Afinal, foi no acúmulo de capital idealizado pelos economistas da década de 30 que se fundamentou a ‘Revolução Verde’ da década de 60. É uma extensão lógica econômica – e, não agrícola – da década de 30. Do ponto de vista histórico, a Revolução ‘Verde’ veio a calhar como uma espécie de contra-revolução para a ameaça da Revolução ‘Vermelha’. Na América Latina se ouvia, desde a década de 50, um forte clamor pela realização reforma agrária. No contexto da Guerra Fria, isso representava um risco para os interesses dos EUA e para os privilégios das elites nos diversos países. Assim se instalou a ditadura brasileira em 1964, dois anos após o ano-chave 1962 (veja o quadro ‘América-Europa’). O acordo entre os EUA e a Europa surtiria, rapidamente, um efeito de atração de grãos também da América Latina. Para Monsanto e companhia, as perspectivas são esplêndidas: as décadas de 60 e 70 são marcadas pela Guerra do Vietnã e o legendário ‘Agente Laranja’, fabricado pela Monsanto. A Revolução Verde se tornaria um excelente mercado comprador dos produtos químicos agrícolas associados às super-sementes do próprio grupo. Na verdade, a ‘generosidade’ desse gigante químico começou muito antes. É só lembrar dos PCBs (organo-clorados). É bem verdade que foram proibidos há anos, mas eles continuarão a poluir nos mares por mais mil anos. Eles se acumulam na gordura dos peixes e, ao consumi-los, também no homem. (3)

 

América-Europa; o acordo de 1962.

 

Desde a segunda metade do século 19, os Estados Unidos da América estão em permanente busca de mercados externos. Após a Segunda Guerra Mundial, no século 20, eles vislumbraram a oportunidade de otimizar a combinação filantropia e comércio. A Europa estava exaurida e acabara de passar pelo ‘inverno da fome’ O Plano Marshall perdoou a dívida da década de 30 e canalizou muitos dólares para o outro lado do oceano: para reconstruir a economia na Europa. Ao mesmo tempo, este plano criou uma folga econômica para, nas décadas seguintes, aumentar o consumo de produtos americanos. A primeira ação do Plano Marshall foi enviar auxílio humanitário na forma de alimentos: bom para os europeus famintos, bom para o excedente de cereais norte-americano.

Na mesma época, no ano de 1944, foi constituída a trindade ‘FMI-Banco Mundial-GATT’, em Bretton Woods. Oficialmente, a agricultura foi mantida fora do sistema GATT. Isso perduraria até a Rodada do Uruguai (1986-1994). Nessa Rodada, o GATT (sigla em inglês para Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) foi convertido, a partir de 1995, em OMC: Organização Mundial do Comércio.

Em 1957, foi criada a CEE (Comunidade Econômica Européia): primeiro 6 países, depois 12, 15 e 18 países para resultar na União Européia, com 25 países e, finalmente, 27 países. O cimento nas negociações e na construção da Comunidade Européia/União Européia foi a GLB, sigla em holandês para Política Agrícola Comum.

A Europa queria reconstruir e proteger sua própria agricultura. Os recursos do Plano Marshall proporcionaram uma acelerada tecnificação e ‘quimificação’ da agricultura. Os Estados Unidos aceitaram o protecionismo com uma condição: a Europa deveria permitir a importação de culturas oleaginosas, sem tarifas nos portos e sem cotas. No GATT, esse acerto ficou conhecido como o Acordo da Rodada de Dillon (1960-1961). O Acordo de Dillon passou a vigorar a partir de 1962 (ano em foi lançado, no Brasil, o primeiro para de ‘Havaianas’) e fez com, na Europa, as importações de matérias-primas para ração aumentassem de 10 milhões de toneladas para 50 milhões de toneladas a partir de 1992. Em 2009, a soja participa com 39 milhões de toneladas desse volume. Gradativamente, como resultado da Revolução Verde, isso passou a ser 20 milhões de toneladas de soja do Brasil (4). Na Rodada do Uruguai, a União Européia não renegociou o acordo de 1962, que também causa muito desequilíbrio na zona rural da Europa. Pelo contrário, a Europa aceitou a imposição norte-americana de que a UE poderia subsidiar, no máximo, 4.934.700 hectares de culturas oleaginosas. Assim a UE permanece estruturalmente dependente da importação de proteínas vegetais do exterior. O que chama a atenção é que, tanto em 1962 quanto em 1992, só foi tratado de ‘culturas oleaginosas’, embora a questão não seja o óleo extraído das mesmas e, sim, de ração! O resultado é que, atualmente, somente 1% das terras agrícolas da Europa está ocupada com culturas protéicas. Enquanto a soja continua a chegar a preços extremamente baixos, os produtos-centrais como trigo, carne de gado e laticínios continuaram sendo apoiados na Europa até 1992. Ao longo dos anos, também desapareceu da ração o trigo próprio (mais caro), o qual – por sua vez – foi despejado no mercado mundial. Desde a década de oitenta, isso representa anualmente um volume de 20 a 30 milhões de toneladas de trigo. É exportação, mas na realidade trata-se de uma ‘exportação importada’, graças às 50 milhões de toneladas de substitutos de cereais importados de além mar.

Esta única decisão política em 1962 compromete até hoje a política agrícola européia, dilacera a zona rural européia com grandes concentrações de gado próximas a portos e igualmente grandes problemas ambientais, e promove uma relação de ‘dumping’ da Europa por conta de seus excedentes no mercado mundial. Quando será que esse círculo vicioso será rompido? Será que o assim chamado ‘re-equilíbrio’ permanecerá tabu até que o aquecimento global nos obrigue a fazer outras escolhas?

 

No Brasil, os instrumentos da ‘Revolução’ foram principalmente: soja e milho, de novo. Os agricultores brasileiros detinham, desde sempre, uma grande diversidade de sementes milho: sementes crioulas. Essas foram rapidamente marginalizadas pelo milho híbrido. A soja avançou para o norte, junto com o chimarrão dos gaúchos: partindo do Rio Grande do Sul via Santa Catarina e Paraná para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É nesse último estado que se encontra, desde o início do século 21, o maior volume de produção. Nesse mesmo século, que a carne e o carro passam a compartilhar o interesse no grão de soja: o farelo de soja para ração e o óleo para o biodiesel. Os estados do Tocantins, Piauí e Maranhão são rapidamente ocupados com lavouras de soja, porque o porto de São Luis está mais próximo da Europa e do Japão. Desta vez não são somente frangos e suínos europeus, mas também o biocombustível ‘limpo’, que marginaliza em ritmo acelerado a cultura cabocla (5). Além disso, o cultivo da cana-de-açúcar passa por um rejuvenescimento: devido à demanda internacional por etanol, novamente por causa dos motores. O Cerrado está sendo arado e plantado numa corrida contra o relógio. A nova ferrovia de Tocantins para o porto de São Luis deve permitir que o etanol, biodiesel e farelo de soja cheguem o mais rápido possível na Europa.

Os atrativos adicionais para a soja brasileira são: a contínua resistência do consumidor europeu à soja transgênica; a proibição, desde 2001, do uso de farinha de ossos na composição da ração na Europa devido ao problema da ‘Vaca Louca’; o aumento no consumo de proteína animal na China e que, em 2001, passou a ser membro da OMC. Desde 1997, a partir da ‘Lei Kandir’, a soja e outras commodities não processadas ou semi-elaboradas (por exemplo, pasta de celulose de eucalipto) podem deixar o Brasil sem pagar impostos. Portanto, os quatro grandes atacadistas – Cargill e companhia – não pagam impostos nem na exportação do Brasil nem na importação na Europa. Aracruz e companhia, com suas exportações de celulose para a indústria de papel, são diariamente beneficiadas por essa lei, mas o cofre do tesouro brasileiro não recebe um real por essas transações internacionais. Também são gerados menos postos de trabalho do que, por exemplo, na Argentina, onde a soja e outros produtos deixam o país com maior grau de processamento. Assim, o valor agregado e os empregos ficam naquele país. Motivo? Na exportação, tanto de produtos brutos quanto processados, os impostos são pagos ao estado argentino. Grande parte da soja brasileira é processada em Amsterdã (Holanda) e Gent (Bélgica). Ou seja, o lucro é gerado no lado europeu do oceano. Também é lá que são criados os postos de trabalho que, de outro modo, poderiam dar emprego às pessoas do Brasil. O que é que os brasileiros estão esperando para questionar esse agronegócio?

Nos primeiros anos do século 21 o Brasil ainda era considerado um país livre de soja transgênica. Por isso, muita soja norte-americana foi substituída por soja brasileira nos portos europeus. Nesse meio tempo, a realidade em relação aos transgênicos mudou drasticamente no Brasil. As leis foram adaptadas aos desejos da Monsanto. A demanda da China-Europa-Japão está garantida. A história dos transgênicos é um capítulo lógico na industrialização da agricultura, a serviço do acúmulo de capital por uma pequena minoria. Às custas de uma maioria de agricultores familiares, consumidores, biodiversidade, ecossistemas, 1 bilhão de pessoas que passam fome.

 

Dólar alto e medidas políticas para garantir a exportação

 

A ’vocação’ dos EUA para ‘alimentar o mundo’ está permanentemente em busca da ampliação de seus mercados. Quando o dólar está alto, a vocação é ameaçada. Foi o que ocorreu em 1954 e em 1985. O que chama a atenção é que essa situação leva a decisões políticas de grande impacto, que afetam praticamente toda a população mundial.

– 1954: a Public Law 480 [Lei Federal 480, dos EUA] foi anunciada. O programa é denominado ‘Food for Peace’ [Alimentos em ‘troca’ de Paz]. É – para dizer o mínimo – um nome cínico, pois a ‘paz’ é imposta por intermédio de cereais. Comparável ao ‘Pão e Circo’ da Roma Antiga, há 2000 anos. Quem toma as decisões acerca da ajuda humanitária não é o Ministério da Agricultura ou do Comércio, e sim o State Department (Ministério das Relações Exteriores) e o Presidente em pessoa. Isso indica o caráter político da arma na forma de cereais. Na verdade, muitos povos do hemisfério Sul se tornaram dependentes do pão doce vindo do Norte. Principalmente entre a África Subsaariana e a América-Europa há um conflito antropológico entre o alimento mais ácido da própria cultura e a alimentação doce do Norte. Embora não seja possível cultivar trigo no Congo ou em Senegal, depois de 50 anos de ‘Food for peace’, fica bem passear com um pacote de pão francês em Kinshasa. Mesmo que muitos povos pudessem contar com sua própria produção de milho, eles foram ‘bombardeados’ e tornados dependentes do milho híbrido norte-americano. De uma hora para outra, em virtude do clamor por energia ‘limpa’, 30% do milho norte-americano está sendo convertido em etanol. Essa recente guinada na história da vocação é um elemento importante na crise dos alimentos de 2008.

– 1985: o sistema de garantia de preços é reduzido e parcialmente substituído por garantia de renda aos agricultores. Os tão criticados subsídios, com outras palavras: os baixos preços de matérias-primas para a agroindústria estão garantidos. A ‘vocação’ é levada ao extremo com a exportação os produtos abaixo do preço de custo, enquanto os agricultores norte-americanos recebem a diferença. Imediatamente em seguida, na Rodada do GATT, no Uruguai (1986-1994), os EUA trocaram seu rifle de mão. Na realidade, o GATT ainda era um ‘encontro de amigos’ – os EUA e a EU – mesmo com a presença formal de outros países. Durante décadas, as regras do GATT foram estabelecidas de acordo com os interesses dos norte-americanos e europeus. Na Rodada do Uruguai, os EUA exigiram que a agricultura e alimentos fossem finalmente integralmente incluídos na ideologia do GATT. Além disso, isso teria que ser feito de acordo com o sistema deles: a garantia de preços se tornaria ilegal, a garantia de renda poderia ser implementada, dentro do quadro-geral do GATT. Em 1992, a União Européia cedeu com a reforma McSharry: o sistema norte-americano foi adotado, a garantia de preços foi reduzida e compensada parcialmente com subsídios diretos aos agricultores (6). A reforma na UE abriu caminho para um acordo no GATT. O mundo inteiro foi confrontado com preços em queda devido à prática de dumping por parte dos EUA associada aos subsídios para seus próprios agricultores. Tudo realmente muito favorável para as multinacionais da agroindústria e de alimentos, sempre em busca de matérias-primas com preços baixos. Os países ricos como os EUA e a UE por enquanto ainda podem conceder subsídios a seus agricultores, mas países como Malawi somente conseguem garantir preços e proteger suas fronteiras. A garantia de preços se torna ilegal e os programas de adaptação estrutural do FMI fizeram como que, na década de 80, todas as fronteiras se abrissem para produtos do Norte e que as agriculturas nacionais seguissem o trilho da produção para exportação. Para o pagamento das dívidas externas. Dentro da estrutura da nova OMC, os acordos do GATT exercem pressão ainda maior pela redução de barreiras alfandegárias.

Nos últimos anos, a hegemonia dos atacadistas de cereais norte-americanos diminuiu um pouco. Principalmente países como a Rússia e a Ucrânia, mas também a União Européia, estão assumindo o papel de líder do mercado.

 

1973: o auge do roubo de cereais pelos grandes

Ainda há muito a relatar sobre dados cruciais. Vou me limitar ao ano lendário de 1973. Esse ano é conhecido como o início da crise do petróleo, mas também por uma acentuada escassez de cereais no mercado mundial. Aparentemente, os picos da crise de alimentos crônica, que aflige nosso mundo, são acompanhados de elevação no preço do petróleo. Foi exatamente esse o caso em 1973 e, novamente, em 2008. É claro que, e ambas as crises, há mais fatores determinantes. Em 1973, foram as grandes enchentes e frustrações de safras no vale do Rio Mississipi, nos EUA. Na mesma época, houve uma elevada demanda de trigo da antiga União Soviética. Os preços dispararam. Além disso, os Estados Unidos puxaram o freio de suas veementemente contestadas exportações. Entretanto, os agricultores não se beneficiaram dessa elevação de preços. Os cereais já haviam sido colhidos e comercializados. Não, o lucro astronômico foi para o bolso das quatro grandes multinacionais de cereais: Cargill, ADM, Bunge, Dreyfus.

E o que acontecia no Brasil? Esse subcontinente se encontrava no meio da Revolução Verde. O embargo da exportação de alimentos dos EUA chegou como um presente dos céus. O avanço da soja e de outros cereais continuou em ritmo acelerado no Brasil. Para ocupar o espaço no mercado mundial. Será que é coincidência que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa – foi criada em 1973? A Embrapa que, imediatamente, começou a difícil tarefa de melhorar as sementes de soja para que pudessem ser cultivadas na tropical Região Amazônica!

Nós sabemos como a história continua.

E na Europa? De outro lado do oceano, nós – europeus – ficamos com sérios problemas devido à repentina interrupção na exportação de matérias-primas para ração por parte dos norte-americanos. A Comunidade Européia se deu conta de quão dependente ela se tornara em decorrência dos Acordos de Dillon, de 1962. Por isso, os agricultores receberam apoio, novamente, para cultivar suas próprias proteínas. Os norte-americanos observavam isso com preocupação e conseguiram, em meados da década de 80, fazer com que os subsídios para cultivo das próprias proteínas fossem interrompidos. Conseqüência: uma forte redução nas proteínas vegetais na Europa, pois a soja d’além mar chega ao continente muito mais barata do que as proteínas que os agricultores europeus conseguem cultivar em solo próprio. Ainda assim, muitas alternativas são viáveis: gramíneas-trevo, tremoço, cânhamo, ervilhas e feijões, amaranto, etc. Até a produção de soja na Itália se reduziu visivelmente devido à concorrência desleal do outro lado do oceano (sem impostos na exportação pelo Brasil; sem taxas na importação na Europa; preços fixados pela Bolsa de Chicago sob medida para a produção de grãos em larga escala, num jogo de especulações e investimentos internacionais). Não obstante, a Itália tem a maior produtividade mundial de soja.

 

Proteínas: o desafio do século 21

Nos últimos cinqüenta anos a população mundial duplicou, mas o consumo de proteínas animais quintuplicou. Nas próximas décadas, a população mundial deve chegar a 8 ou 9 bilhões de pessoas. O consumo de carne deve dobrar novamente até 2050, pois a Ásia está consumindo mais proteínas animais. Há vinte anos, o consumo médio anual de carne na China era de 20kg/pessoa. Atualmente, é de 50kg/pessoa, mas estamos falando de 20% da população mundial que dispõem de apenas 6% das terras agricultáveis do mundo e de 6% da água doce do mundo. Como o Brasil dispõe de sol, terras e água em abundância, a mudança nos padrões de consumo da Ásia são imediatamente percebidas na zona rural do Brasil! E porque os chineses não poderiam comer carne se o europeu, norte-americano, brasileiro, argentino médios podem consumir um exagero de carne? Será que a ‘cultura McDonalds’ chegou até na Índia, que há milhares de anos é vegetariana em virtude da cultura hindu? Dentro de 20 anos, a população da Índia será ainda maior do que a da China, sendo que este país dispõe de ainda menos terras. Na Índia, todos os sinais de alerta ecológicos já estão piscando.

Há muitos desafios para o século 21: ‘Como vamos lidar com o ouro azul, a água?’; ‘Como vamos converter nossa sociedade desperdiçadora de energia e esfriar um pouco o clima para as futuras gerações?’ Só para mencionar alguns. E podemos, tranqüilamente, acrescentar: ‘Como vamos nos posicionar em relação às proteínas animais e vegetais?’ Afinal, esse último desafio está diretamente relacionado com água, energia e a questão climática.

 

Luc Vankrunkelsven

Bruxelas, 22 de maio 2009,

Dia Internacional da Biodiversidade.

 

(1)   Para a Bélgica, veja: ‘100 jaar boeren’ [100 anos de agricultura], de Daniël Demblon, Jan Aertsen e.a., Epo, 1990.

(2)   Michal Pollan, In Defense of Food: An Eater’s Manifest. Versão em português: Michal Pollan, Em defesa da comida. Um manifesto. Rio de Janeiro, 2008.

(3)   Assista o filme revelador ‘The World According to Monsanto’ [O mundo segundo Monsanto], www.youtube.com.

(4)   Sobre as conseqüências de ‘1962’, tanto para a Europa quanto para o Brasil, leia o texto conjunto de Fetraf-Sul/Cut e Wervel: ‘Projeto de intercâmbio ‘OMC e fluxos de alimentos Brasil-Europa’, Chapecó, 2005. Com análise e alternativas.

(5)   Caboclo’s: quatro séculos de cultura ancestral, descendentes da miscigenação de colonizadores portugueses e povos indígenas.

(6)   ‘Het McSharryplan’ [O Plano McSharry], contextualizando os objetivos, os motivos e a evolução da Política Agrícola da UE. Wervel, novembro de 1992.

Leia entrevista com Luc Vankrunkelsven: As consequências do rei carro e do imperador presunto

 

Please follow and like us:

Deixe uma resposta

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com