Quem paga a conta da carne? WASHINGTON NOVAES

Sexta-feira, 24 de março de 2000

Parece estar-se aproximando o tempo em que a contabilização de custos ambientais e/ou sociais tenderá a alterar profundamente os mecanismos de formação de preços em diversas áreas – e, em conseqüência, as relações econômico-comerciais até mesmo entre países. Hoje, por exemplo, os mecanismos de determinação de preços de produtos primários, de commodities, são comandados no essencial pelas principais nações consumidoras, que, atendendo a seus interesses (os países industrializados respondem por 86% do consumo mundial), tendem a controlá-los, se não a deprimi-los. E, como
regem também os mecanismos de produção e comercialização de tecnologias avançadas, tendem a cotá-las segundo uma espiral ascendente, que também atende a seus interesses. Os países exportadores de certos produtos agropecuários, principalmente grãos e carnes, além de não conseguirem preços favoráveis para seus produtos, ainda têm de arcar com os custos ambientais e sociais que os países importadores não querem mais suportar.

sses temas estão sendo rapidamente conduzidos ao centro de conflitos pela importância vital e progressiva que vêm assumindo as questões da segurança alimentar. Ainda há pouco, provocou celeuma na Europa o anúncio da Agência Britânica do Meio Ambiente de que pretende tomar posição a respeito dos impactos provocados pelo acúmulo, no solo ou nos recursos hídricos, de resíduos de antibióticos utilizados em criatórios de bovinos, suínos e aves, assim como da possível influência desses produtos na geração de vírus e bactérias super-resistentes a doenças, principalmente a tuberculose. Tal anúncio deixou preocupados os produtores europeus de carnes, que respondam pelo consumo de mais da metade das 10 mil toneladas da antibióticos usadas a cada ano no continente.

No ano passado, um pesquisador da Royal School of Pharmacy, de Copenhague, encontrou resíduos de 68 tipos de drogas em amostras européias de solo e de água. E a principal fonte desses resíduos eram dejetos de suínos. Em algumas amostras, o índice estava até 40 vezes acima dos limites máximos permitidos.

Essa é, aliás, uma das razões de a Dinamarca haver decidido há pouco criar suínos sem ministrar-lhes antibióticos e hormônios do crescimento – o que significa redução ainda maior na rentabilidade, de mais US$ 1,60 por porco, com a diminuição de peso -, num setor que já vinha trabalhando com prejuízo de mais de US$ 15 por animal.

Também pelo ângulo ambiental a questão se complica a cada dia nos Estados Unidos, onde, segundo o Worldwatch Institute, o rebanho de suínos produz 130 vezes mais dejetos que todos os seres humanos e com uma demanda de oxigênio, para degradar-se, muitas vezes superior à dos dejetos humanos.

Tanta é a preocupação nessa área que a Comissão Européia propôs há pouco criar uma agência de segurança alimentar para detectar riscos potenciais para a saúde humana.

Sempre que esse tema vem à tona no Brasil, o setor produtivo reage apontando o protecionismo dos importadores e/ou o radicalismo de ambientalistas. Com certeza existem também. Mas não eliminam a propriedade da argumentação dos importadores: os riscos são reais. O que o setor produtivo brasileiro precisaria é, no lugar de defender algumas posições insustentáveis, examinar a transferência de custos ambientais e sociais dos importadores (que renunciam progressivamente a produzir os itens perigosos ou ambientalmente insustentáveis) para os produtores. Ao mesmo tempo, o País caminha muito lentamente em direção a constituir mecanismos de rastreabilidade dos alimentos e de segurança alimentar. Basta ver, por exemplo, que, segundo noticiário recente, a inspeção sanitária no País não fiscaliza 42% da carne bovina comercializada nem 46% do leite – o que dá margem a campanhas como a recentemente desencadeada na Grã-Bretanha contra frangos brasileiros.

Enquanto isso, os mecanismos de preços fazem crescer os prejuízos. Em janeiro, o Brasil aumentou em 34,8% (em peso) suas exportações de carne suína, comparando com janeiro de 1999. Já o valor só subiu 5,75%, apesar da desvalorização cambial. Ao longo de um ano, o País vendeu 81,8 mil toneladas no mercado externo, mas faturou 22,18% menos que em 1998. Não por acaso, a cada dia chegam notícias da transferência de grandes empreendimentos dessa área, da Europa e dos EUA para o Brasil, especialmente para o Centro-Oeste – onde as regras ambientais são muito mais frouxas que no Sul do País e no exterior.

Talvez isso tenha que ver também com a questão da própria sustentabilidade ambiental e energética do setor. Ainda em novembro, em suas "visões do futuro", a revista Time publicou: "Desde 1950 o consumo mundial per capita de carne dobrou. (…) Não podemos mais subsidiar ou ignorar os custos de produção em massa de carne bovina, suína, aves, ovelhas e peixes. Esse custos incluem o uso altamente ineficiente da água e da terra, a poluição provocada por dejetos, o risco crescente de doenças cardiovasculares e doenças degenerativas, a destruição de florestas (…)."

A revista traz de novo à cena números alarmantes, como o de que são necessários 7 quilos de grãos e 7 mil litros de água para produzir 1 quilo de carne bovina. A produção de um único hambúrguer exige tanta água quanto 40 banhos de chuveiro (795 litros de água), 0,79 kg de grãos, 5,1 m2 de floresta removidos. E acarreta a produção de 5,4 kg de dejetos e outros poluentes. Nos EUA, 70% do trigo, do milho e de outros grãos destinam-se aos rebanhos.

Conclusão da revista: "As novas políticas aumentarão o preço da carne para níveis incompatíveis, exceto para os ricos." Pode-se acrescentar: ou, seguindo a tendência atual, esses custos serão transferidos para os países produtores.

Como se vê, o tema da definição e apropriação dos custos está cada vez mais quente. Precisamos estar preparados para discuti-lo. Se não quisermos ficar com todos os custos ambientais, sociais e econômicos.

Washington Novaes é jornalista

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