Prefácio para o livro Crepes, Panquecas e Waffles de Caroline Bergerot

Temos todos os motivos para sermos ou virarmos vegetarianos. O vegetarianismo é como um diamante lapidado, um brilhante, cujas facetas se somam formando um círculo virtuoso. As coisas boas nesse mundo são assim: seja por qual for o ângulo pelo qual olhamos para elas, só vemos aspectos positivos.

 

O vegetarianismo faz bem para a saúde das pessoas, dos animais e do planeta. Do ponto de vista da saúde a dieta vegetariana se destaca como extremamente benéfica. O grande segredo de uma dieta balanceada é variedade e quantidade calórica suficiente – o resto é adequação às características de cada indivíduo, que sempre devem ser levadas em conta, pois como em tudo, somos únicos também quanto ao regime alimentar melhor e mais adequado – uns se dão bem com pimentão, outros não digerem bem a melancia e assim por diante. Por que não respeitar os sinais do organismo se a Mãe Terra é tão pródiga, oferecendo-nos uma gama imensa de verduras, cereais, frutas, legumes, ervas etc. A dieta vegetariana reduz o risco de doenças crônicas e degenerativas, como cardiopatias, hipertensão, diabetes, osteoporose, cânceres etc. Não por acaso, são estas as principais doenças que levam ao óbito nas sociedades ocidentais.

 

Do ponto de vista econômico não tem sentido processar grãos e cereais pelos animais para obter, no caso de bovinos, um quilograma de carne para cada sete quilogramas de grãos consumidos, ou, no caso de suínos, um quilograma a cada 3,5 quilogramas. Para obter-se um quilograma de carne de frango, são necessários 1,3 quilogramas de ração. 40 pessoas podem ser alimentadas se comerem verduras plantadas no mesmo pedaço de terra que seria utilizado para criar gado. Claro que o problema da fome não é só falta de alimentos, hoje em dia é um problema basicamente de distribuição, mas num mundo futuro de 12 a 15 bilhões de habitantes – com os recursos do planeta depredados, a continuar o ritmo atual de agressão ao meio ambiente, esta questão se imporá como gravíssima.

 

A dieta centrada na carne – ou dieta americana padrão – cujo acrônimo em inglês é SAD (de Standard American Diet), é realmente triste, sendo responsável por um enorme desperdício de recursos naturais, como água, energia, terra fértil, bem como pela contaminação das águas e do solo, a derrubada das florestas – num primeiro momento para criar gado para suprir a demanda por mais carne e, num segundo momento, para cultivar soja para alimentar animais criados em regime de confinamento. O impacto ambiental gerado não tem precedentes na história da humanidade. Os dejetos produzidos por esta quantidade enorme de animais criados confinados estão provocando graves problemas. A cada kg de porco são gerados cerca de 9 kg de dejetos (um misto de urina, fezes e água) – que não podem ser absorvidos pelo ambiente. Quem é responsável por isso? Será que o consumidor não deveria levar junto para casa um baldinho de dejetos quando compra carne no açougue?

O sofrimento dos animais criados nestas condições de confinamento e num sistema em que o que conta é a produtividade é indizível. Vale tudo para aumentar um pouquinho mais a produtividade, não importando bolhufas que está ali um ser que sente dor e terror, que tem um sistema nervoso tão desenvolvido quanto o nosso, que tem apego à sua prole e adoraria viver em família como todos nós seres humanos também gostamos. Não. Aos animais não é dado esse direito elementar. São separados da família assim que nascem – aliás os pais também nem vivem mais juntos, pois a inseminação é feita artificialmente. São criados em condições abomináveis – totalmente artificiais, gerando muito estresse e doenças, combatidos com medidas ainda mais execráveis – como o corte do bico, do rabo, dos dentes, da genitália, dos nenês-bichos para minimizar um pouco o pandemônio que se instala nos galinheiros, chiqueiros e estrebarias onde são criados em vista da condição miserável a que são submetidos.

 

Só saem dessa situação para o abate, que, embora responsável por cenas hediondas, difíceis de descrever, e escondidas a sete chaves pelos capitães desta indústria, talvez seja a redenção para estes pobres seres que se libertam daquela situação penosa. Ali serão abatidos e depenados, esfolados, escaldados no mais das vezes com plena consciência.

 

Mas se esta história toda é tão horrível e perversa por que mais gente não se revolta contra isso e vira vegetariana? Sobretudo por dois motivos: por um lado o hábito que nos dificulta muito largar este "vício" e, por outro, a desinformação aliada à perpetuação de ensinamentos equivocados transmitidos principalmente por profissionais da saúde de quem se esperaria que estivessem preparados para emitir tais pareceres. Muita gente não faz a mínima idéia do que está por trás do bifinho que tem em seu prato todos os dias. Se soubesse ficaria horrorizada – sobretudo as crianças, que aliás, muitas vezes não querem comer carne e só o fazem e se acostumam com isso depois de muita insistência dos pais.

 

É difícil mudar hábitos e também é muito difícil combater uma noção falsa uma vez que ela se tenha tornado dominante. O mito de que a carne é primordial para se gozar uma boa saúde é uma destas falsas noções que se tornaram dominantes – a ponto de até médicos e nutricionistas afirmarem isso – muito embora o façam sem ter estudando o assunto como merece, tornando-se, como disse, perpetuadores de falsos mitos. De fato, a Associação Dietética Americana – por falta de uma posição da Associação Brasileira – que estudou o assunto de forma despreconceituosa, afirma o seguinte sobre dietas vegetarianas:

 

"A posição da Associação Dietética Americana é que dietas vegetarianas apropriadamente planejadas são saudáveis, adequadas em termos nutricionais e apresentam benefícios para a saúde na prevenção e no tratamento de determinadas doenças". (Veja posição completa em www.vegetarianismo.com.br/ADA-dietas-vegetarianas.html).

 

É mister vencermos o preconceito, combatermos os mitos, adotarmos aquilo que é realmente o melhor para todos. A dieta vegetariana é o melhor regime alimentar e o futuro, se é que haverá futuro, sem dúvida, será vegetariano.

 

Mas quando paramos de comer carne temos de aprender a preparar as verduras, os cereais, as frutas. Ninguém merece comer mal e não é preciso abdicar dos prazeres do paladar – muito antes pelo contrário. Para o vegetariano se abre um novo mundo de sabores, cores, texturas, olores. As cozinhas étnicas – muitas delas milenares e, na sua origem vegetarianas, a culinária mediterrânea – basicamente vegetariana, a cozinha árabe, com tantas opções vegetarianas, a cozinha indiana, chinesa, japonesa, todas com vários pratos totalmente isentos de carne, a culinária italiana, tão apreciada pelos brasileiros – podem ser completamente vegetarianas e são muito saborosas. Enfim, as opções são tantas que é difícil inumerá-las.

 

A autora Caroline Bergerot têm feito um trabalho louvável no campo da culinária vegetariana. Seus livros se tornaram sinônimo de best-seller. Desta vez ela nos apresenta receitas de panquecas, …. e … – pratos tão ao gosto do público brasileiro. Seja para os vegetarianos de carteirinha que querem variar um pouco na cozinha, seja para aqueles que estão na transição para uma dieta vegetariana ou até para aqueles que simplesmente querem incluir em seu leque de opções receitas saudáveis e saborosas este livro por certo é de dar água na boca.

 

Marly Winckler

mwinckler@terra.com.br 

www.vegetarianismo.com.br

Marly Winckler é socióloga e tradutora. Vegetariana desde 1982, criou o Sítio Vegetariano (www.vegetarianismo.com.br) e modera as listas de discussão sobre vegetarianismo veg-brasil e veg-latina. É Coordenadora para a América Latina e o Caribe da União Vegetariana Internacional (IVU – www.ivu.org/latin-america.html, com sede na Inglaterra. Preside a Sociedade Vegetariana Brasileira (www.svb.org.br) e o 36o  Congresso Vegetariano Mundial. É autora do livro Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre (www.vegetarianismo.com.br/elemento/elemento.html).

Ed. Cultrix, São Paulo 2004

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