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Pitchshifter

OS INCORRUPTÍVEIS
Com o recente concerto em Portugal, os Pitchshifter mostraram porque são umas das mais originais e emotivas bandas "de peso" da actualidade. J.S. Cleyden, o vocalista e líder do grupo, falou à Mondo Bizarre. Dez anos de carreira é quantos têm os Pitchshifter. Durante todo esse tempo, o grupo manteve-se fiel aos seus dogmas e recusou-se a uma exposição fácil e falaciosa. Dos tempos de "Submit" ou "Desensitized", onde o grupo ensaiou a mistura de heavy-metal e ritmos dançáveis que culminaria no aclamado "Infotainment", até ao recente "Deviant", disco mais orientado para um som de guitarras – muito por culpa do excelente Jim Davies -, os Pitchshifter têm-se uma das melhores apostas musicais da última década. O quê, ou quem é "Deviant"?

Deviant" é uma espécie de piada ao que se passa. A nossa música é marginalizada e estigmatizada. De cinco em cinco anos, a imprensa diz que o rock está morto, mas 65 mil pessoas vão aparecer, num festival, para ver os Pitchshifter, o Marilyn Manson e os Black Sabbath. Musicalmente, têm vindo a desenvolver a fórmula usada em "Infotainment", ainda que, agora, seja menos drum'n'bass e mais rock. É punk rock para o ano 2000?

Este disco é muito mais pessoal. Foi divertido de escrever e fi-lo em três meses. Ninguém esperava que os Pitchshifter escrevessem um disco de canções mais orientado para as guitarras. Toda a gente esperava que fosse ainda mais dançável. Nunca quisemos saber do que era cool. Nem do que era certo ou errado. Sempre fizemos o que quisemos. Essa mudança – de uma orientação mais dançável, para uma base assente em guitarras -, está relacionada com a partida de Johnny Carter e com a entrada de Jim Davies?

Na verdade, eu escrevi 65 por cento do material de "www.pitchshifter.com". É uma progressão lógica. O Johnny nunca foi muito bom guitarrista. Sempre preferiu os computadores às guitarras. Havia muitas coisas, em termos de melodia, que não podíamos fazer porque ele não tinha talento para isso. O Jim é um guitarrista espantoso e exploramos todas as suas potencialidades. Toda a gente quer saber porque não fizemos outro disco industrial, mas isso é o que fazíamos há dez anos. É muito mais divertido fazer algo diferente e musicalmente desafiante. No início, de onde veio a ideia de combinar uma sonoridade heavy-metal com ritmos dançantes? Na altura não era muito comum…

Não, não era. Acho que foram os Big Black a primeira banda a combinar caixas de ritmos com guitarras bem altas e que não soavam estúpidos. Havia também os Swans, mas nós queríamos fazer uma coisa mais agressiva. Mais rock…

Sim. Sempre gostamos de guitarras bem pesadas. O seu estúdio, contribuiu, de alguma forma, para melhorar o som dos Pitchshifter?

O meu estúdio é do tamanho deste pequeno camarim. (risos) Não passa de um grande computador. Nem sequer uso uma mesa de mistura. Gravo directamente para o computador. Nunca lá gravou mais ninguém?

Não. Não me atrevia a arruinar a música de mais ninguém. (risos) E também nunca se atreveu a produzir nada…

Só se fosse através do computador. Não sou lá grande coisa sem um computador. (risos) Com o meu pequeno estúdio posso ter uma ideia repentina e gravá-la imediatamente. Os computadores permitem-me fazer coisas que, de outro modo, seriam impossíveis. Não toco contrabaixo, como o Charles Mingus, mas posso sentar-me ao computador e determinar a linha de contrabaixo que quero. Desse modo, posso escrever uma canção na sua totalidade. É mais criativo…

É muito mais criativo porque não se depende de mais ninguém. Pode-se ter uma ideia maluca e levá-la até ao fim. Não são precisos cinco tipos, dentro de uma sala, a fazer acordes. Não é preciso afinar os instrumentos para soarem desta ou daquela maneira.UMA IMAGEM, MIL PALAVRAS? Dão muita importância à imagem. Uma imagem vale mesmo mil palavras?

Vivemos numa sociedade visual. As pessoas lembram-se dos anúncios de televisão e de filmes. Não vale a pena ser-se muito inteligente e articulado. Se ninguém entende o que dizemos não é comunicação, é exibicionismo. Mas tentar passar as nossas ideias não é exibicionismo!

Não. Por isso tentamos fazer com que as pessoas entendam a nossa mensagem. Que entendam as coisas de um modo mais imediato. Mas as pessoas entendem mesmo o que as imagens transmitem?

Mesmo que não entendam uma imagem na totalidade, entendem a ideia básica. Ao mutilarmos e juntarmos o Papa e a Rainha, as pessoas entendem o que queremos dizer. Sabem que não significa um família de quatro elementos que vai à Igreja ao Domingo.Não é algo parecido com o que os Sex Pistols fizeram ao adulterarem ícones? Como a imagem da Rainha com um alfinete-de-dama espetado…

Essas coisas devem ser feitas. Costumávamos atirar panfletos, nos concertos, no Reino Unido, que eram uma folha A4 dividia em oito partes, que diziam: "Só faltam 24 dias de compras para o Natal"; "Que se foda a tua manhã de Natal"; "Não são as coisas que compras que te definem". Eram uma data de slogans malucos que deixavam as pessoas totalmente doidas e engasgadas. Havia quem entendesse e quem não entendesse.

Deve-se tentar sempre fazer alguma coisa. Podes estar em palco e ser cool, para todas as raparigas gostarem de ti. Dá dinheiro mas, mesmo em termos artísticos, não estás a fazer rigorosamente nada. Não tem interesse ficar-se apático. Deve-se abanar as coisas. Isso não é muito vulgar. Actualmente, há muitas bandas, cheias de estilo e visual, que se limitam a dizer: "Estou fodido", "Estou fodido". Vocês parecem tentar dizer outra coisa: que o que está fodido é a sociedade.

Essas bandas só estão tentar fazer dinheiro. Porque é que há muitas bandas americanas que não vêm à Europa? Porque não querem saber. Podem fazer milhares de dólares nos Estados Unidos. Para quê atravessar o mar? Se se preocupassem com os fãs vinham cá tocar. Como só querem saber de dinheiro não se mexem. Quer dizer que vocês tentam ser provocadores e fazer as pessoas pensar?

Tentar, tentamos. Nunca vamos conseguir chegar a boa parte da multidão, mas não há mal nenhum em as pessoas apenas gostarem da música. Acha que as pessoas lêem as letras?
As pessoas vão ao nosso site e, pelo quadro de mensagens, percebe-se que entendem as ideias da banda. Eu vou lá e leio que alguém foi procurar o site do Greenpeace porque nós falamos sobre isso. Mais vale uma pessoa do que nenhuma. Escreve as letras todas?
Infelizmente sim. Infelizmente?

Sim. Porque é duro. Se escrevesse prosa era simples. Mas escrever letras aceitáveis, com uma determina estrutura silábica, que se encaixem no verso de uma música, não é fácil. Se se quiser escrever lixo, tipo estar-se pedrado com heroína, é simples: "Espetei uma agulha no braço" e já está. AS BANDAS PODEM DIZER NÂO Não tem a ideia de que, se fossem americanos, seriam uma grande banda?

Provavelmente. Se eu fosse uma atraente mulher loira, com grandes mamas e viesse da América, era um sucesso enorme. (risos) Os Pitchshifter existem há dez anos e nunca se venderam. Mas o metal parece estar reduzido a isso…

Não. Já estivemos em editoras independentes e em editoras multinacionais e não creio que a banda tenha que se comprometer. Sempre fizemos o que queríamos nem que tivéssemos que pagar por isso… A Earache despediu-vos…

Tivemos quatro editoras, duas independentes – a Peaceville e a Earache -, e duas multinacionais – a Geffen e a MCA -, e a Earache foi a pior editora em que alguma vez estivemos. Qual é a diferença entre as independentes e as multinacionais?

As independentes são incompetentes e as multinacionais são arrogantes. Então, o que é que sobra?

Se tivesse dinheiro nunca chegaria perto de uma editora. A palavra companhia (de "record company") significa que o principal interesse é fazer dinheiro. Uma banda só é relevante se vender muitos discos. E não interessa como isso é feito. Se perceberem que fazem dinheiro por apareceres com um vestido cor-de-rosa na capa da ID, é o que vão fazer. É à banda que compete dizer: "NÃO!" Vocês nunca se comprometeram com esses esquemas, pois não?

Não. Muitas bandas não compreendem que podem dizer não. É como nas sessões de fotografia é que toda a gente te diz o que fazer. "Não!", é a resposta. E, se não querem, não tirem fotografias. Então, porque é que as bandas não dizem que não? Razões contratuais?

Não. É porque pensam que se disserem que sim, vão obter alguma coisa. E, depois, não conseguem nada.

Exacto. Que me lembre só há mas duas bandas que vêm dos tempos em que começamos: Napalm Death e Paradise Lost. Todas as outras bandas acabaram. Os Carcass, Dub War, Fudge Tunnel…, já não existem. Porquê?

Posso dizer-vos porquê, mas não vão gostar. É um sacrilégio dizer mal da Earache, que tem uma imagem de editora mítica, mas era uma editora de merda. Foderam todas as bandas que por lá passaram. O dia em que que eles nos despediram foi um dos mais felizes da nossa vida. Desatei a dançar em casa e a dizer "YES!YES!" (risos) A nossa manager ficou tão feliz que dasatou a chorar. O NAPSTER É QUEM DEVE PAGARParece ser a força motivadora da banda.

Não… Sim. Basta ver-vos em palco. Os outros partilham os seus pontos de vista?
Um deles não tem hipótese. É meu irmão. (risos) Não há nenhum manifesto que diga que tem que se ser assim ou assado para se ser membro dos Pitchshifter. Somos todos vegetarianos, mas a diferentes níveis. Dentro da banda à modos diferentes de ver um determinado assunto. O que torna as coisas divertidas é estarmos sempre a discutir. Um dos vossos discos incluía faixas para download. Vocês são anti-copyright?

Roubar uma canção inteira e fazer com que seja tua não está certo. Não vejo problema em roubar um pedaço de uma canção e transformá-la numa coisa totalmente diferente. Não acredito que o Picasso ou o Francis Bacon tenham inventado tudo o que pintaram. Vê-se de onde tiraram a inspiração. Para mim, samplar é uma espécie de tributo. Não tenho medo nenhum que soem como nós. Posso ter duas pessoas, cada uma com um pincel, as mesmas cores e o mesmo projecto de trabalho, mas o resultado final será diferente. Tudo depende da capacidade criativa de cada um. E quanto à venda de música na internet, sem autorização dos autores ou das editoras? Deveria ser tudo de graça?

Sim! Mas, se querem um álbum dos Pitchshifter de graça e vão ao Napster fazer download. o Napster é que me deve dar o dinheiro, pois ganham dinheiro com a publicidade. Se nos derem uma libra por CD é o dobro, ou mais, do que nos dá qualquer editora. Assim, as pessoas têm música de borla, a banda faz mais dinheiro e eliminam-se as malditas sanguessugas que estão no meio. Vai-se mesmo ter música de borla? Quem vai pagar os discos? Vão continuar a existir editoras?

O Napster! Eles fazem muito dinheiro com os anúncios. Vai haver editoras de um outro género. Não vai ser a treta da meia libra por disco. E paga-se 13 libras por disco…
E para onde vai esse dinheiro? Para a banda não é. As editoras são arrogantes. Olham para os músicos de cima, tipo: "Quem és tu?"; "Eu sou o tipo que paga o teu maldito super-salário". E sou eu, e outros como eu, que fazem música, que sustentam todo todos aqueles enormes escritórios. Eu é que recebo a meia libra, mas eles é que trabalham para mim… Acho que isso alguma vez vai acontecer?

Espero que sim. Adorava ver o apodrecido cadáver que é a industria musical a cair de um penhasco. (risos) Provavelmente isso não vai acontecer num futuro próximo, mas seria interessante.

É só usar a internet como uma acção terrorista. (risos) Não é que sejamos grandes admiradores de estruturas dominantes, mas as editoras é que promovem os discos…
Eles não promovem discos nenhuns! Só te promovem se venderes discos. As bandas vivem disco a disco. Se não venderes o mínimo, que, em Inglaterra, é cerca de um milhão de discos não tens promoção. E vocês vendem o mínimo? É que sempre pareceram capazes de se promover convenientemente…

Nunca vendemos um milhão de discos. Os Pitchshifter são como um filme de culto. Toda agente o viu mas ninguém tem uma cópia. Muitas bandas depositaram toda a confiança nas editoras, mas quando se deu a grande fusão entre as multinacionais a Geffen deixou de investir dinheiro durante três meses e depois despediu quase todas as bandas. Nós continuamos a andar em digressão. Em Inglaterra tocamos para mil pessoas por noite. E não é por a Geffen nos ter dado um grande contrato, mas porque nunca deixamos de trabalhar. A INGLATERRA É UMA MERDA A vossa progressão tem sido ascendente. Os Pitchshifter parecem estar a crescer em termos de exposição, de público, de vendas de discos.

Isso é tudo irrelevante! A progressão dos Pitchshifter só vai durar até eu acordar de manhã e ver que deixou de ser divertido, interessante. No dia em que isso acontecer é o fim dos Pitchshifter. Quer estejamos a vender um disco ou um milhão. Mas andar em digressão faz com que vocês cresçam, e as vossas digressões são enormes. Qual é a diferença entre o público americano, europeu e inglês?

A Inglaterra é um país de merda. É uma ilha onde tudo é importado e duas vezes mais caro que na Europa. O tempo é terrível. Os salários são mais baixos que na maioria dos países europeu, trabalha-se mais horas… Não se consegue juntar dinheiro para nada. Como a vida é miserável os concertos são uma coisa avassaladora. As pessoas são mesmo doidas e toda a gente vai lá para descarregar. Não há uma audiência melhor para os Pitchshifter que a do Reino Unido. A América é O.K. Sem querer parecer condescendente, a América não tem um sistema educativo tão bom como o inglês ou o europeu. Não conseguem dizer o que significa a sua própria bandeira. Os Pitchshifter têm muito humor negro, tipo: "Professor, porque é que não há super-heróis negros?"; "Porque Deus só faz super-heróis brancos". (risos) Em Inglaterra podemos ser engraçados. Quando eu digo – como que disse está noite -, "quero ver os vosso dedos no ar porque temos câmaras a filmar-vos", nos Estados Unidos toda a gente se põe de nariz no ar à procura das ditas. (risos) Em Inglaterra, ou na Europa as pessoas riem-se. A Europa é bastante agradável. Nunca vendemos muitos discos, mas tocamos para bastante gente. Este ano correu-nos bastante bem em termos de público. Nunca pensaram em abrir para uma banda maior. Por exemplo, para os Skunk Anansie?

Constantemente. Mas nenhuma banda vai levar os Pitchshifter em digressão. Só levam bandas que atraem muita gente. A não ser que paguem…

Nunca pagaríamos para tocar. Se querem que os Pitchshifter toquem tem que ser por estarem interessados em nós!

Jorge Dias, Nuno Castedo e Raquel Pinheiro
(Mondo Bizarre # 5)

Fonte: http://www.mondobizarre.com/e_pitchshifter_5.html 

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