Peter Singer – Folha de São Paulo

4/12/2006
 
Como Nos Alimentamos – Por Que Nossas Escolhas Alimentares Importam. Entrevista com Peter Singer
 

Peter Singer é autor – em parceria com Jim Mason – do livro The Way We Eat – Why Our Food Choices Matter (no Brasil traduzido como A Ética na Alimentação, veja em livros). O livro aborda o tema da ética alimentar e defende que sejam aplicados cinco princípios éticos para uma escolha consciente na hora das refeições: transparência, equilíbrio, humanidade, responsabilidade social e necessidade. Ele concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, 03-12-06.

Eis a entrevista.
 
É mais ético ser vegetariano do que onívoro?

Em geral, sim. Ser vegetariano evita participação em práticas cruéis com animais e também geralmente tem um impacto menor no ambiente do que comer carne ou outro produto animal.
 
Mas como ser ético com a alimentação no dia-a-dia?

Em primeiro lugar, há muitas possibilidades diferentes que as pessoas podem escolher, umas mais éticas do que outras. Um dos pontos que nós defendemos muito fortemente no livro é que você não tem de ser vegetariano para fazer escolhas éticas razoáveis.

Você pode dizer: "Eu vou evitar produtos de "fábricas de carne", mas ainda vou comer alguns produtos animais, mas garantir que venham de fazendas orgânicas sustentáveis". Isso já é dar um passo ético importante. Não será tão grande quanto ser vegetariano, mas ainda assim é um grande passo ético. Essa é a primeira coisa. A segunda é: não é tão difícil ser vegetariano, pelo menos se você vive numa cidade ou numa sociedade em que há várias escolhas alimentares. É claro que será difícil para algumas pessoas em certas circunstâncias -se você vive de caça, se é um esquimó ou um aborígene australiano ou não tem muitas escolhas alimentares, seria compreensível-, mas, para aqueles que entram num supermercado e compram grande variedade de comidas, não é tão difícil quanto as pessoas pensam.
 
O sr. defende que é menos ético comprar alimentos vindos de outros lugares que não aquele em que se vive?

Nem sempre. É mais complicado do que as pessoas pensam. Às vezes você pode comprar comida produzida localmente, mas que pode ter sido produzida de maneira a prejudicar o ambiente. Por exemplo: as pessoas nos EUA compram alimentos locais que usam muito combustível fóssil para serem produzidos; se comprarmos alimento importado, mesmo que tenha levado alguns anos para a viagem, pode ser que ele tenha causado um impacto ambiental menor ao ambiente. Especialmente se tiver chegado aos EUA por navio. Há grande diferença entre alimentos exportados por navio ou por avião. Alimentos transportados por avião não são "friendly" para o ambiente. Mas, por navio, não tenho muitos problemas com a importação. E isso pode ajudar países em desenvolvimento, o que também é uma boa coisa a fazer.
 
Sendo de um país em desenvolvimento, tenho de perguntar: como é possível balancear ética alimentar e fome?

Você tem de priorizar a prevenção do sofrimento terrível que está envolvido na fome. Se você está numa posição em que suas escolhas alimentares vão ajudar a evitar a fome ou, de outra maneira, outras pessoas não comerão por suas escolhas alimentares, então é o que você deveria fazer.
 
Michael Pollan diz em seu livro "Omnivore's Dilemma" (O Dilema do Onívoro) que, se todo o mundo se tornasse vegetariano, as vacas seriam extintas e que existe um propósito em havermos domesticado alguns animais.

Acho que não necessariamente elas seriam extintas… Temos vários animais domésticos que não foram extintos e que não usamos como alimento. Criamos reservas, onde podem viver sua vida natural. Poderíamos fazer o mesmo com vacas, se escolhêssemos fazer isso. Deixá-las viver a vida delas. Em vez de tirar os bezerros da convivência delas, que é o que fazemos quando produzimos leite, deixaremos os bezerros crescendo com elas, de uma maneira normal, uma vida melhor para as vacas e os bezerros. Esse é o jeito que escolhemos para viver, não estamos presos a uma situação na qual, se não tivermos vacas produzindo leite comercialmente, não haverá vacas. Essa é a escolha que escolhemos fazer. Pode não haver tantas, mas isso pode acabar sendo melhor para o ambiente, de qualquer maneira.
 
O sr. escreveu sobre a ética da obesidade e sugere que revivamos o conceito bíblico de que gula é algo ruim. Pode explicar melhor?

Eu acho que nós tendemos a deixar de lado as visões tradicionais, de que as pessoas não deveriam simplesmente obedecer a seus apetites, pelo menos naquilo que diz respeito à alimentação. É interessante notar que, pelo menos no campo religioso, a igreja ainda nos diz que devemos controlar pelo menos nossos apetites sexuais, mas parece ter abandonado a visão de que devemos abandonar nosso apetite pela comida. O resultado pode ser visto todos os dias em todas as grandes cidades norte-americanas: há pessoas bastante obesas e muita gente que está acima do peso. Isso não é ruim apenas para a saúde deles, é ruim para o ambiente, porque, de novo, mais comida tem de ser produzida, mais combustível fóssil é consumido. Portanto, acho que seria útil ter essa idéia de que não deveríamos pegar mais do que precisamos. E que, se o fizéssemos, seria uma falta de respeito pelos outros e uma falta de respeito pelo ambiente. Não estamos realizando partilha com aqueles que necessitam quando se tem uma parte do mundo que luta seriamente contra a obesidade e outra que não tem o suficiente para comer. Isso nos mostra que há algo muito, muito errado.
 
E plantas ou animais modificados geneticamente, como o chester? São práticas éticas?

Devemos ter cuidado aqui. Não são necessariamente não-éticos em si, mas acho que há um risco real de que venhamos a criar fazendas que levem a um desastre ecológico, se simplesmente permitirmos que sejam usados de modo amplo sem uma supervisão estrita.
 
E quanto aos animais que vivem em espaços minúsculos e não podem andar?

Isso é ainda mais sério, porque caracteriza crueldade animal. Há casos em que criamos animais que sofrem por conta disso. Acho que é o caso de, virtualmente, todos os frangos hoje. Eles têm de comer tão rápido que suas pernas não podem aguentá-los. É o mesmo com as poedeiras, que estão o tempo todo famintas. Nós levamos sofrimento exótico ao mundo animal, e acho que isso é errado.
 
Comida orgânica é necessariamente mais ética?

Falando em termos gerais, sim. É menos provável que prejudique o ambiente, porque é produzida de maneira que não usa fertilizantes, herbicidas e pesticidas, põe mais matéria orgânica no solo, o que é melhor para o o aquecimento global, inclui biodiversidade. Está se tornando mais produtiva e os custos estão caindo. E são culturas mais éticas.
 
O sr. fez muitas pesquisas para o livro. O que o chocou mais?

Várias coisas. O fato de que os perus produzidos nos EUA para o Dia de Ação de Graças têm peitos tão grandes que mal conseguem respirar, de modo que têm todos de ser inseminados artificialmente – isso é chocante. Mas também a quantidade de combustível fóssil que é consumido por produtos de fazendas. Os americanos poderiam economizar tanto combustível e emitir tão menos gás carbônico se evoluíssem de uma dieta que é altamente baseada em fazendas industriais… E também as condições gerais das fazendas industriais. Já havia lido sobre elas, mas vê-las é diferente. É degradante e chocante pensar que animais como porcos são mantidos em gaiolas em que não podem se mexer, e isso acontece com milhões e milhões de porcos neste exato momento.
 
De acordo com sua teoria geral de ética, aborto e eutanásia são atos justificáveis, já que, no momento dessas ações, não haveria vida humana envolvida. Pode-se criticá-lo por se preocupar demais com os direitos dos animais e nem tanto com os dos seres humanos. Como o sr. responde a isso?

Em primeiro lugar, quero fazer uma pequena correção. Você tem razão, eu defendo o aborto e a eutanásia, mas não é porque eu ache que não haja vida humana envolvida. No aborto, eu acho que é uma vida humana, mas acho que não é uma vida humana que esteja consciente ou que perceba o mundo ao seu redor -pelo menos não no momento em que a vasta maioria dos abortos é feita. É por isso que acho que o fato de ser um ser humano seja relevante, mas, nesse caso, é a morte de um ser humano que não pode sentir nada e que não tem esperanças ou questões sobre sua vida. Quanto à eutanásia, depende do caso de que falamos, se foi pedida ou não. De qualquer maneira, você não está tirando a vida de alguém que quer continuar vivendo.

Não acho que eu dê um peso maior e injustificado aos direitos dos animais. Acho que, em ambos os casos, sou movido pelo desejo de diminuir o sofrimento. Em toda a nossa entrevista, eu não disse em nenhum momento que as pessoas deveriam se tornar vegetarianas porque é errado matar animais, mas, sim, que o sistema comercial está arruinando e causando muito sofrimento aos animais. Minha preocupação em apoiar a eutanásia e o aborto em algumas circunstâncias é para reduzir o sofrimento. É a mesma questão em relação aos animais de fazendas industriais. Portanto, não acho que seja o caso de preferir animais a humanos… É só olhar para ambas as situações e dizer: "Por que temos de ter todo esse sofrimento que pode ser evitado?".
 
Nos EUA de hoje, é difícil pensar do modo como o sr. pensa?

É mais difícil ser efetivo, mas espero que as coisas mudem e comecem a ir para outra direção. Assim poderemos ter uma discussão produtiva dessas questões.
 
O que levou um filósofo utilitarista como o senhor a se preocupar com questões alimentares?

Porque a produção de alimento é a maneira pela qual os seres humanos mais afetam diretamente o planeta. É a agricultura o que mais transforma a superfície da Terra, mais do que qualquer outra atividade. Afeta um grande número de seres, talvez 50 bilhões de animais por ano, é um sofrimento inacreditável que poderia ser reduzido. Então, acho que essa é uma questão ética com que um utilitarista pode lidar, como qualquer outra.
 
Presumo que o sr. ainda seja vegetariano, certo?

Sim, não radical, porque não creio que seja como uma religião. Então, às vezes como alimentos vegetarianos que tenham produtos animais. Mas, essencialmente, sim, sou vegetariano.

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