Pesca artesanal

O Brasil possui cerca de 5 milhões de hectares de “projetos de reflorestamento”. Não se engane: trata-se de plantios homogêneos de pínus e de eucaliptos. Ou seja, florestas com pouca ou nenhuma vida, além da produção de madeira ou celulose. 

Nesse mesmo país, também foram inundados – até agora – cerca de 5,5 milhões de hectares de terras para produção de energia elétrica. Por causa disso, milhares de agricultores familiares e muitos povos tradicionais foram expulsos de suas terras ancestrais. Muitas áreas naturais desapareceram debaixo d’água. É só lembrar dos guaranis, em Foz do Iguaçu, e também das maravilhosas cataratas de Sete Quedas, que agora estão submersas. Tal destruição somente poderia ser imposta por uma ditadura militar. 

Hoje, ainda há muito mais hidrelétricas aguardando construção, pois a demanda por energia elétrica não para de crescer e, não, a utilização racional e econômica dessa assim chamada energia “limpa” ainda não é uma preocupação amplamente difundida. 

Uma grande diferença com os projetos de reflorestamento é que nesses reservatórios existe vida. Em geral, eles abrigam muito peixe mas, devido a graves obstáculos burocráticos, era impossível pescar neles. 

Desde ontem, isso mudou. O presidente Lula da Silva concedeu os primeiros títulos de cessão de uso de águas da União para criação de pescados a 73 pescadores artesanais, que vivem no entorno do reservatório de Itaipu. É o início de uma série de concessões para outros reservatórios. 

Também é um passo importante, um apoio tanto para a agricultura familiar quanto para a pesca artesanal. Assim como há, no mundo todo, um conflito entre dois modelos agrícolas, também há – principalmente no mar – uma luta intensa e desigual entre a pesca artesanal de milhões de famílias e a pesca industrial da União Europeia, Canadá, Estados Unidos e Japão. 

O que também é  interessante é que essa nova fonte de pescado não requer soja ou outro tipo de alimento. O crescimento explosivo da aquicultura dos últimos 15 anos faz com que o fluxo de soja não seja direcionado somente para suínos, aves e gado, mas também – e cada vez mais – para a piscicultura. 

E há, claramente, possibilidade de expansão dessa atividade. Atualmente, a pesca brasileira produz 270 mil toneladas de pescado. A meta é que a produção aumente para 705 mil toneladas de pescado até 2011. 

Os próximos parques aquícolas a serem inaugurados em breve são Castanhão (CE), Furnas e Três Marias (MG), Tucuruí (PA) e Ilha Solteira (SP). 

Em meio a essas notícias, quase se esquece de que a pesca é o esporte número 1 do Brasil. Sim, sua prática é mais difundida que o futebol! 
 

Luc Vankrunkelsven, 

São Paulo, 21 de março de 2008, enquanto espero para fazer a palestra para vegetarianos do Brasil.

Please follow and like us: