Pense globalmente, alimente-se localmente no sítio

Luc Vankrunkelsven

Há meses sinto necessidade de escrever mais uma crônica sobre a viagem organizada por Wervel ao norte da França e Bretanha. Anualmente realizamos uma viagem de inspiração para países vizinhos, em busca de mudanças de direção pioneiras. Desta vez realmente acertamos na mosca, com exemplos de sistemas agroflorestais em regiões temperadas, técnicas inovadoras de uso sustentável do solo (onde a matéria orgânica é, sim, considerada importante), inovações no cultivo de cereais e experimentos com antigas variedades de cereais, alternativas à soja importada – tais como cânhamo, colza e camelina (outro gênero da família Brassicaceae) – ou lavouras em consórcios de todo tipo. Neste meio tempo, a viagem já foi devidamente relatada no site <http://www.wervel.be>, com filmes e tudo mais. Por isso vou me limitar, neste contexto, a uma enumeração de sites interessantes sobre as iniciativas que visitamos (1).

Brasil-França-Flandres

Numa das crônicas anteriores, falei de um ‘Nicolas Supiot brasileiro’. Reclamei, casualmente, do fato de que, entre os agricultores europeus, são poucos os que se ‘convertem’ na agricultura a partir de uma inspiração judaico-cristã. Pois bem, Flandres também possui seu agricultor-professor. E um que é professor de religião! Hoje tive a sorte de visitar o sítio de Bellinda Staelens e Patrick Ruysschaert. Bellinda é orientadora pedagógica da diocese de Gent. Patrick dedica-se, parcialmente, a lecionar em Geraardsbergen, e parcialmente à agricultura. Além disso, ele faz seus próprios pães e queijos.

 

[Foto 58]

Patrick Ruysschaert, agricultor-padeiro-professor.

 

Mesmo sendo filho único de agricultor, não foi tão fácil encontrar uma propriedade com terras em Flandres. O sistema de subsídios de apoio à renda por estabelecimento em vigor faz com que os jovens não consigam imediatamente o que querem, principalmente se os jovens querem trilhar outros caminhos que não aqueles ditados pelo modelo agrícola intensivo e especializado. Para Patrick e Bellinda significou uma odisséia de dez anos de busca, em todo o país… para finalmente conseguirem comprar a metade uma vierkanthoeve[1]. É que o grande capital compra todas as boas propriedades. O grande capital não se interessou por este sítio, por causa ‘do muro’ que, há 70 anos, divide a propriedade.

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[1] Vierkanthoeve: literalmente, ‘sítio quadrado’, uma propriedade rural típica da região, onde a casa e os galpões formam um quadrilátero. Antigamente, o terreiro central era ocupado pelo depósito de esterco.

O forno, o coração do sítio

Não paro de me surpreender: Patrick domina a arte de não ser, apenas, um padeiro, um queijeiro e um professor. Não, além disso, ele consegue – sozinho – restaurar o sítio com muito bom gosto. No centro do sítio há uma área para visitantes onde se encontra uma tegelkachel, estufa de cerâmica típica da Europa, para aquecimento de ambientes, na qual ele adaptou um forno totalmente projetado por ele. O forno é, claramente, o coração do sítio. Com pouca energia, ele não só aquece toda a construção como ainda assa pães de trigo, trigo vermelho, aveia… Espécies de cereais cultivadas e moídas no próprio sítio.

 

[Foto 59]

O forno, o coração do sítio.

 

Patrick me mostra uma apresentação em PowerPoint sobre ‘Pense Globalmente, Alimente-se Localmente’. É mesmo, não foi ele o professor que encomendou 120 exemplares da publicação da campanha de Wervel do mesmo nome? Com este material, mas principalmente com os exemplos concretos no seu sítio – com seus ciclos ‘do cereal ao pão’ e ‘do leite ao queijo’, ele explica de maneira tocante como entender ‘pensar globalmente’ e ‘alimentar-se localmente’. Não como um slogan vazio, mas como uma calorosa realidade. Um calor que também pode aquecer pessoas jovens no contexto escolar.

Animais e plantas têm seu lugar no ciclo da vida no sítio. Assim, o porco não produz somente carne; primeiro ele é alimentado com o soro descartado na fabricação do queijo.

Tremoços como alternativa

Quando as ovelhas precisam produzir leite, elas necessitam de proteínas adicionais que hoje são fornecidas às custas de ração à base de soja d’além-mar. Mas ele quer se livrar disso o mais rápido possível. Por isso, Patrick está muito interessado nas alternativas divulgadas por Wervel: sistemas agroflorestais, cânhamo, camelina, gramíneas-trevo, tremoço… Nesta primavera, ele está testando tremoço para, assim, realizar em 100% o ciclo de auto-abastecimento para ração animal, na esperança de poder banir totalmente a soja do sítio.

Compartilhar pão e pensamentos à mesa 

À tarde, o casal de anfitriões nos serve uma refeição com pão, leite, manteiga, queijo de produção própria. Principalmente o pão de abóbora é inesquecível. À mesa, Patrick e Bellinda falam sobre a dúvida que surge às vezes sobre a viabilidade de seu ideal e do modelo em pequena escala que estão construindo. É claro que os agricultores convencionais – que estão na espiral de crescimento e especialização – riem-se do que acontece aqui. Será que a agricultura praticada aqui é uma volta ao passado ou, pelo contrário, está se abrindo um novo futuro nesta época de completa alienação e loucura?

Mas o sítio geme sob a carga de trabalho: durante quanto tempo ainda será capaz de suportar? Há a reforma das construções, que exigem muita energia. Será que a atividade é realista, uma vez que Patrick pode sempre contar com seu salário de professor?

Embora haja (in)certezas, fica evidente que aqui está sendo realizado muito trabalho de entrelaçamento, tanto ecológico quanto social.

Em breve, ainda será adicionado o aspecto de laborterapia[1] ao sítio. Pode ser um alívio na carga de trabalho, mas é, simultaneamente, uma responsabilidade com pessoas debilitadas. Um vínculo com os animais e as estações pode ‘aterrá-los’ novamente e dar sentido à vida, neste aconchegante sítio. Em escala humana.

 

[foto 59bis]

Crianças e jovens encontram suas raízes no sítio.

[1] Laborterapia = terapia ocupacional para os internos de estabelecimentos da região.

O solitário caminho da recuperação e renovação

Assim como aqui, em Geraardsbergen, há vários outros exemplos em Flandres, na Holanda, na Europa. Apesar da – ou graças à – União Européia, que hoje comemora 50 anos?

Vamos dizer ‘apesar’, pois a agricultura produtivista ainda recebe muito subsídio, enquanto este sítio concreto não pode contar com um euro de apoio. Porém, este pequeno sítio paga tantos impostos quantos uma grande fazenda. É que as taxas são as mesmas… Alguém consegue entender?

Como poderemos, com Wervel, encontrar caminhos que apóiem aqueles que anunciam a aurora? Será que, afinal, a recuperação e renovação de pés no chão ocorrerão mais rapidamente no Brasil do que na velha Europa? No Brasil e em outros ‘países em desenvolvimento’ (que expressão!), o caminho da renovação é muito menos solitário e individual.

 

Prezados agricultores e agricultoras da agricultura familiar brasileira, ensinem para nós como voltar comunitariamente para a terra e uns para os outros. Para que haja novamente ‘desenvolvimento’ nos países excessivamente desenvolvidos.

 

Geraardsbergen, 9 de fevereiro de 2007.

 

(1)    – (em francês) Réseau Semences Paysannes [Rede de Sementes Crioulas] <http:/www.semencespaysannes.org>. Nicolas Supiot é co-fundador da rede (veja o site; no tópico ‘publications et vidéos’ [em francês] encontram-se documentos interessantes).

a.                   (em francês) Base (Bretagne, Agriculture, Sol et Environnement [Bretanha, Agricultura, Solo e Meio Ambiente]); Conrad Schreiber é o coordenador: <http://pageperso.aol.fr/baseagrisol/>.

b.                   (em francês) Apad (Association pour la promotion d'une agriculture durable [Associação para a Promoção de uma Agricultura Sustentável]): <http://www.apad.asso.fr>. Pesquisas sobre plantio direto, cultivo sem arar o solo, cobertura morta (mulching) e muitos livros interessantes (inclusive o último livro de Darwin sobre a importância das minhocas).

c.                   (em francês) Agriculture de Conservation [Agricultura de Conservação] <http://www.agriculture-de-conservation.com/>; muita informação sobre técnicas de cultivo simplificadas (sem arar).

d.                  (em francês) Cedapa (Centre d'étude pour un développement agricole plus autonome [Centro de estudos para o desenvolvimento de uma agricultura mais autônoma]): <http://www.cedapa.com>. Um grupo de criadores de gado que objetivam a sustentabilidade, com críticas bem fundamentadas à expansão das lavouras (grãos e milho) às custas de pastagens na Bretanha.

e.                   (em francês) Confédération Paysanne [Confederação de Agricultores Familiares]: <http://www.confederationpaysanne.fr/>.

f.                    (em inglês, francês, alemão, italiano, português e espanhol) European Conservation Agriculture Federation [Federação Européia de Agricultura de Conservação]: <http://www.ecaf.org>.

g.                   (em alemão) Sobre consórcios: <http://mischanbau.de>.

h.                   (em francês) Terre de Liens [Terra de ligações]: <http://www.terredeliens.org> (comparável com atuação da ONG flamenga Land-in-zicht [Terra à vista]).

i.                     (em holandês) Wervel: <http://www.wervel.be>; dê uma olhada no tópico ‘themas’, o artigo sobre sistemas agroflorestais (agroforestry). Este contém links para documentos interessantes com resultados de pesquisa sobre, entre outros, compostagem de superfície (também chamada de BRF; BASE também está trabalhando com isso). Também é possível fazer o download da publicação sobre BRF.

j.                     (em inglês e francês) Sobre sistemas agroflorestais em si há um site de referência para regiões temperadas: <http://www.montpellier.inra.fr/safe>. (com fotos inspiradoras).

 

 

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