Paz no campo (9)

‘Guerra’ atua nas estradas e no agronegócio? Há uma relação? A violência do trânsito, no Brasil, sempre chama minha atenção. Quantas vezes eu quase fui atropelado? É que, como europeu, eu parto do princípio que as faixas de pedestre servem para atravessar a rua. Que nada! Ninguém pára diante da faixa de pedestres. Elas são aplicadas sem esclarecimento, como enfeites. Para decorar o negro asfalto. Não, pessoal, não se distraiam. Não confie sua vida à faixa de pedestres. Os carros somente param num cruzamento quando a outra via é preferencial, isto é, quando há risco do próprio motorista ser atropelado, com carro e tudo.

Será que o ‘elemento do trânsito mais vulnerável’, aquele que deve temer por sua vida, poderia ser uma metáfora para a agricultura familiar? Será que os elementos do trânsito mais vulneráveis e os agricultores familiares poderiam se encontrar nos valores mais suaves, femininos, que cada um de nós guarda dentro de si? Uma agricultura novamente nas mãos dos agricultores, onde sementes, terra, água, (agro)biodiversidade, natureza e o homem voltam a ocupar o centro? E será que o trânsito agressivo, liderado pelas caminhonetes de moda, poderia ser uma metáfora para a agricultura da morte? Caminhonetes como variantes urbanas das colhedeiras-tanques que, em colunas, avançam sobre os milhares de hectares de soja? Metáfora da guerra permanente? O trânsito infernal e impiedoso e a agricultura produtivista dão-se as mãos no jogo da guerra. Coloquem os capacetes. Apertem os cintos. Guerra, literalmente.

 

Enquanto isso, ainda existem agricultores familiares. No Brasil: uns 4 milhões de famílias. Eles ainda existem, apesar de terem sido expulsos, literalmente, para as margens das terras produtivas. Para as margens, como os pedestres e ciclistas tentam sobreviver nas margens das ruas. Agricultura familiar em escala humana. Na escala do ritmo lento da terra, com suas estações, sua chuva e sol. Eles vivem e vivenciam que uma agricultura saudável e alimentos saudáveis não são banais e, sim, básicos (10) na vida humana. Básicos na sociedade, local e global. Voltar a produzir sementes e a trocar sementes torna-se, então, um ato de resistência, de independência (11). As ‘sementes crioulas’, a diversidade das sementes dos agricultores, elas representam a paz. A verdadeira paz na cidade e no campo. Além da guerra. Como uma faixa de pedestres que, finalmente, volta a promover o contato das pessoas – e com a ‘Mãe Terra – em segurança.

 

A próxima série de crônicas irá tratar deste caminho suave: ‘Como agricultores e agricultoras fazem a conversão? Como os agricultores sobrevivem?’ Como sementes de paz. Paz mundial. Paz alimentar mundial.

 

Desarmamento das cabeças, dos corações, das mãos. Desarmamento das lavouras (10).

 

Guarapuava, 28 de outubro de 2005. Escrito durante a ‘Semana do Desarmamento’, 23-30 de outubro de 2005.

(1)   De um discurso do ministro Roberto Rodrigues, em Campinas (SP), maio de 2004: <http://www.cnpm.embrapa.br/vs/vs1205/discursos.html>

(2)   Verbeek, Herman; Economie als wereldoorlog [Economia enquanto Guerra Mundial], Kampen: Kok, 1990 (ainda pode ser adquirido na Wervel).

(3)   Veja <http://www.acaoterra.org/display.php?article=288> (versões em inglês, espanhol e português). Quarta Semana Social Brasileira, 2004-2006.

(4)   Instâncias privadas: capangas, milícias, seguranças, pistoleiros.

(5)   As queimadas na floresta amazônica emitem, anualmente, mais CO2 do que o trânsito brasileiro. No entanto, o trânsito também aumentou vertiginosamente nos últimos anos.

(6)   Leia mais sobre ‘Soja e escravidão’ em: ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’. Curitiba: Editora Gráfica Popular/CEFURIA, 2006.

(7)   <http://www.oecd.org/document/62/0,2340,en_2649_201185_35584190_1_1_1_1,00.html>; neste contexto, leia também o ataque de prof. Marcos Jank ‘Agronegócio versus Agricultura Familiar’, e elementos para uma resposta no site <http://www.wervel.be>, nieuwe elektronische voedselkrant [Novo Boletim Eletrônico sobre Alimentos], de novembro de 2005.

(8)   A versão completa ou resumida, impressa em três idiomas (holandês, inglês e português) pode ser adquirida na Wervel e Fetraf, ou nos sites <http://www.fetrafsul.org.br> e <http://www.wervel.be/EN/dossiers/fm_200505/fm_200505_04052.htm>.

(9)   Para variar, nesta crônica eu não falei do programa ‘Alimentos para a Paz’, iniciado pelos Estados Unidos da América, em 1954 (Public Law 480). Parece bonito: ‘Ajuda humanitária para alimentar os famintos do Sul’. Na verdade, trata-se de imposição da Pax Americana por meio de cereais, como os romanos ensinaram há 2 mil anos. Lavouras de trigo como munição para manter os povos sob controle. Até hoje esta ajuda humanitária, na forma de alimentos, continua sendo uma arma estratégica do ‘State Department’, o Ministério dos Negócios estrangeiros. Os negociadores do EUA na OMC irão defender com unhas e dentes sua ajuda ‘humanitária’, em Hong Kong (13-18/12/05).

(10)                      Neste contexto, leia o artigo revelador de Wim Robben: ‘Goede voeding vermindert geweld’ [Boa alimentação reduz a violência]. Na: revista eletrônica Geweldloze Kracht [Força Pacífica], abril de 2005 (WEB 305.1B). A revista eletrônica é parte da <www.geweldloosactief.nl>, site da “Fundação pelo pacifismo ativo”, da Holanda. O artigo também pode ser encontrado no boletim eletrônico sobre alimentos <http://www.wervel.be/vk/0508/vk0508_0101.htm>. Outros sites interessantes sobre o tema: <www.educare.nl>; <www.ortho.nl>.

(11)                      Wervelforum 5: ‘Landbouw, markt voor chemische wapenindustrie in vredestijd?’, do gaúcho Sebastião Pinheiro. Pode ser adquirido na Wervel, por cerca de 5 euros, Pax Christi-Vlaanderen e KWB. [título em português: Cartilha dos agrotóxicos. Canoas, RS: Fundação Juquira Candiru, COOLMÉIA, 1998. 66 p., com ilustrações de Eugênio de Faria Neves].

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