Para além da vivissecção: rumo a uma ética ecológica e anti-especista

Não sei se navegar é preciso. Mas realizar experimentos em animais não é preciso

Como profissional da área de Ciências Biológicas, que razões te levam a ser contra a experimentação com animais?

Como bióloga e, porque não dizer, como cientista, sou contra a “experimentação animal” por duas razões básicas. A primeira é que tais experimentos são injustificáveis sob o ponto de vista ético por submeterem seres sensíveis e conscientes a diversas categorias de danos físicos e psicológicos e à morte. Como se isso não fosse suficiente – e aqui vem a segunda razão – a chamada “experimentação animal” é uma prática que falha em alguns critérios essenciais para que uma atividade seja considerada verdadeiramente científica. Autores como Jean e Ray Greek e Hugh LaFollette e Niall Shanks, entre outros, destacam a predictabilidade (capacidade de prever um fato ou fenômeno) como um dos principais critérios em que os testes com animais falham: os dados provenientes dos “testes” não são confiáveis, não são absolutamente seguros para predizer o resultado do uso de determinada droga, ou as reações a procedimentos variados, como os cirúrgicos. Em meu livro “Amigo Animal”, de 2004, tratei especificamente desse segundo aspecto, ou razão, para me opor aos testes com animais, tomando como base uma série de considerações de natureza epistemológica (isto é, que dizem respeito à forma como o conhecimento é construído) sintetizadas pelo físico Fritjof Capra. Em seu livro “A Teia da Vida”, Capra resume e reelabora diversas premissas que fundamentam as visões de mundo sistêmicas que são essenciais para a compreensão da complexidade que envolve os fenômenos tanto naturais quanto sociais. Ao reler seu trabalho, logo percebi a importância desse conjunto de premissas para explicar as razões subjacentes à falibilidade dos modelos experimentais com animais não-humanos. Foi assim que nasceu em meu livro o capítulo intitulado “modelos animais”. Minha convicção no que tange a essa questão ficou ainda mais forte quando li o segundo livro do casal Jean e Ray Greek (“Specious Science”), citados antes.

A argumentação deles – calcada sobretudo na Teoria da Evolução e na Genética – complementava e contextualizava admiravelmente bem o que eu havia “pincelado” antes, no “Amigo Animal”, com base em seu primeiro livro e nas premissas das visões sistêmicas e suas redes autopoiéticas (ou seja, que se autoproduzem/gerenciam).  É interessante que, já na graduação, eu sentia uma profunda rejeição por quaisquer formas de manipulação de vidas animais e mesmo de vegetais, em alguns casos. No que diz respeito aos animais, o que sentia era uma aversão literalmente visceral. Naquele tempo ainda não havia a possibilidade de recorrer à escusa de consciência, garantida hoje pela Constituição Federal de 1988. Discussões sobre a cientificidade dos testes com animais, menos ainda. Hoje vejo com clareza que minha “intuição” – no sentido de instrução, conhecimento, ou conjunto de valores que vêm de dentro – estava de acordo com o que preconiza a epistemologia mais recente: trata-se de uma prática abominável sob o ponto de vista moral e espúria no âmbito científico. Razão e emoção, aqui, caminham lado a lado.

Os defensores da experimentação animal afirmam que a criação de fármacos e, conseqüentemente, a cura de doenças, depende diretamente dessa prática. Você concorda com isso?

Eu começaria citando o elevado índice de efeitos colaterais nocivos decorrentes do uso de fármacos legalmente vendidos. Diversos autores, como Kathy Archibald, citam longas listas de medicamentos retirados do mercado por conta dos seus gravíssimos efeitos colaterais e destacam que tais listas representam uma pequena parte da calamidade total, já que muitos problemas sequer foram relatados. Isso acontece por causa dos argumentos expostos na pergunta anterior: os dados provenientes de testes com animais não-humanos não são confiáveis. O modelo animal é falho porque existem diferenças, entre nós e eles, na anatomia, na fisiologia, nas interações ambientais, etc, que resultam na não-correspondência na absorção, distribuição e metabolismo de substâncias. Ademais, as condições de laboratório são mais controladas do que na vida humana e as doses administradas a eles podem ser muito maiores do que as prescritas aos humanos, em termos de peso corporal. As vias de inoculação de diferentes substâncias – se oral, anal, peritonial, vaginal, etc – exercem também uma grande influência sobre os resultados dos testes. Animais de laboratório são, ainda, em geral, menores do que os humanos e com isso têm um metabolismo muito mais intenso. Esse fato pode impedir que os efeitos tóxicos apareçam, pois as toxinas são eliminadas mais rapidamente. Tudo isso afeta a absorção, a farmacocinética e o metabolismo de compostos, ou causa reações inesperadas com relação a um composto. Embora haja muitas características comuns entre nós e os outros animais, diferenças ínfimas podem levar a erros grosseiros porque tais diferenças formam potencialmente novos universos, novos “elos” que vão “tecendo” novas redes e conexões (afetando, por exemplo, vias metabólicas). Somos todos formados pelas mesmas unidades de DNA (A,T,C,G) que são juntadas no mesmo processo. Mas, enquanto o material genético é o mesmo, a composição, os arranjos são diferentes. Aqui é impossível não lembrar de uma passagem do filme “Ponto de Mutação”, de Capra, na qual se diz que as “relações formam tanto a matéria, quanto a música”. Basta pensar que a partir de apenas 7 notas é possível compor todos os tipos de músicas existentes –  de sinfonias a melodias de origem folclórica –  e que, basicamente, a partir dos infinitos arranjos, isto é, das relações entre 4 bases nitrogenadas, a vida construiu tudo o que existe em termos de biodiversidade. A partir desse olhar sistêmico sobre a natureza, fica evidente o caráter limitado dos modelos animais, que se baseiam em premissas essencialmente mecanicistas. Por exemplo, uma mudança em um único aminoácido é responsável pela diferença entre a molécula de hemoglobina de pessoas com sangue normal e a molécula de hemoglobina em pacientes com anemia falciforme. Da mesma forma, uma única diferença em um aminoácido, entre primatas humanos e não-humanos, faz com que o HIV não se acople ao mesmo receptor celular em primatas não-humanos. Qualquer diferença, por menor que seja, pode deflagrar uma nova relação e formar uma nova rede. Essa é a dialética da natureza. Os defensores dos modelos animais insistem em afirmar que muitos medicamentos, procedimentos cirúrgicos e terapias dependeram da experimentação animal, ou foram descobertos usando animais como modelos. Mas, em geral, não aceitam discutir o baixo índice de sucesso dessa forma de construir conhecimento. Os Greek destacam que, de acordo com a organização Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, apenas 1% dos novos medicamentos testados em laboratórios vai para o estágio clínico (em que são testados em voluntários humanos). De acordo com a fonte, ou a área examinada, esse índice de sucesso pode aumentar até bastante, mas no cômputo geral a confiabilidade é sempre baixa. Estamos, portanto, diante de um percentual de sucesso que não parece diferir de outras situações baseadas em meras tentativas, como os índices de acerto em cestas de basquete por parte de pessoas que não dominam tal esporte. Se eu deixasse uma câmara ligada filmando minhas tentativas de fazer cestas e exibisse posteriormente apenas meus acertos, eu provavelmente convenceria as pessoas de que sou uma exímia jogadora. Mas isso reflete a verdade? Analogamente, é evidente que, com um volume tão grande de experimentos (estima-se que cem milhões de animais sejam mortos em experimentos a cada ano, mas esse número é provavelmente bem maior), alguns resultados possam ser aproveitados. Porém, isso não reflete uma empreitada verdadeiramente científica. A validação de modelos pode aumentar bastante o sucesso das pesquisas, contornando as suas “anomalias” (isso implica de qualquer jeito a morte massiva de animais), mas, no geral, os dados corretos permanecem fruto da coincidência de resultados entre o modelo e o “objeto” a modelar, ou de pistas fornecidas por outros campos de pesquisa (muitas vezes não creditadas). Há outro aspecto muito importante: muitas vezes não são devidamente examinados os nexos causais entre os resultados de estudos com animais e o efetivo progresso da medicina. A história das terapias contra a AIDS e o câncer, e de procedimentos como os transplantes, entre outras, está repleta de exemplos de como os estudos com animais foram inúteis e até submeteram os primeiros humanos à verdadeira condição de cobaias, pois os pressupostos (dados obtidos em animais) não podiam ser extrapolados para os humanos. Assim como Kathy Archibald, citada antes, Neal Barnard e Stephen Kaufman listam uma longa série de drogas ou substâncias que apresentam efeitos totalmente diferentes em animais e seres humanos, alguns dos quais sérios e até fatais. Foram os estudos epidemiológicos, observações clínicas e autópsias que mostraram tais efeitos devastadores. O efeito carcinogênico do cigarro é um caso clássico: estudos clínicos, não pesquisas em animais, estabeleceram a ligação entre o tabagismo e diversos tipos de câncer (como de pulmão, boca, língua, laringe, fígado, etc), e doenças do coração, catarata, doenças respiratórias, doenças periodontais, e muitas outras. É incrível que com todas essas evidências algumas companhias de tabaco ainda insistam nos testes com animais.  Não há coerência (ou consiliência), portanto, entre as descobertas dessas diferentes áreas de pesquisa. Jean Pierre Dupuy salienta que é a epidemiologia que nos ensina que os progressos da longevidade humana no Ocidente nos últimos 150 anos devem o essencial aos melhoramentos da higiene pública, alimentação, condições de alojamento, água potável, esgotos, etc. Isso não quer dizer que as armas que a medicina conseguiu aperfeiçoar não sejam eficazes, mas que temos que reconhecer seus limites. É a epidemiologia que nos mostra também que temos hoje uma substituição das doenças infecciosas por doenças crônicas degenerativas.  Dupuy enfatiza ainda a importância de uma visão ecológica sobre a saúde humana, em contraposição às visões reducionistas dominantes. Ele levanta questões muito interessantes tais como o fato de estarmos tratando problemas complexos de uma forma biologicizada, reduzindo respostas orgânicas saudáveis a situações intoleráveis de vida, ou de trabalho, à condição de doença.  Thomas McKeown também argumenta que a medicina moderna não é tão eficiente como a maioria das pessoas acredita. Existe um falso conceito sobre a saúde humana. Médicos, bioquímicos e a população, em geral, acreditam que o corpo é uma máquina que pode ser protegida das doenças basicamente através de intervenções físicas e químicas. Essa abordagem, enraizada na ciência do século XVII, generalizou a indiferença  com relação à influência dos determinantes primários da saúde humana: o meio ambiente e o comportamento pessoal (como uma melhor alimentação, ou a atividade física),  e destacou o papel do tratamento médico. Ele menciona que a queda na mortalidade de várias doenças contagiosas ocorreu muito antes da descoberta de tratamento médico, ou intervenções médicas efetivas, e assinala a importância de aquilatarmos o quanto somos responsáveis pela nossa própria saúde. Trabalhos recentes, inclusive recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), corroboram essa visão mais sistêmica e ecológica. Mas o modo de pensar fragmentado e reducionista ainda é muito comum dentro do meio acadêmico. Basta examinar, por exemplo, a questão da saúde dos ossos. Nós, veganos (e mulheres veganas ainda mais!), somos constantemente aterrorizados por médicos e nutricionistas, inclusive, com a  possibilidade de sermos acometidos pela osteoporose, uma vez que não consumimos laticínios. Mas o Dr. Eric Slywitch nos ensina que o cálcio é apenas um entre os 18 fatores nutricionais necessários para a saúde óssea. E quando pensamos que os laticínios são uma entre muitas fontes de cálcio, percebemos o quão improcedente é tal tipo de “terrorismo”.

Experimentação animal e vivissecção significam a mesma coisa?

O termo vivissecção tem o significado literal de “cortar um corpo vivo”, mas também é usado para designar “a realização de operação ou estudo em animal vivo para observação de determinados fenômenos”. Segundo o “The Concise Oxford Dictionary of Current English”, vivissecção significa “dissecação ou outros tratamentos dolorosos em seres vivos para propósitos de pesquisa científica”. É verdade que existem estudos pouco invasivos, ou meramente comportamentais, que não se encaixariam bem no significado do termo “vivissecção”, se tomarmos a palavra ao pé da letra. Eu sigo a tendência dominante de tratar os termos como sinônimos, conforme as definições anteriores, porque, na prática, não existem diferenças expressivas entre eles. Ambos são materializações de uma racionalidade essencialmente instrumental, expressões do paradigma reducionista e mecanicista dentro do qual tudo no planeta Terra se “transforma” em recurso, em meio para atingir determinado objetivo. Nada mais tem valor intrínseco. E os animais não se constituem em uma exceção.

Você já se referiu ao aspecto antiético da prática vivissecionista, no que tange aos animais de forma direta. Existe alguma outra faceta antiética ligada à experimentação animal?

Fora o aspecto mais imediato e evidente de causar sofrimento e morte a seres sencientes isto, é aqueles capazes de sentir dor e emoções como alegria, ódio, ou medo o caráter antiético da prática vivissecionista encontra-se relacionado mais uma vez a questões epistemológicas. É interessante destacar que o filósofo alemão Herbert Marcuse nos ensina que ética é, em si, epistemologia e vice-versa. Isso fica claro quando retomamos a questão da baixa confiabilidade dos modelos animais. Devemos reconhecer que nenhum método – seja ele baseado em animais, seres humanos, ou tubos de ensaio – é capaz de prever as reações dos pacientes com 100% de precisão. As reações diferem de acordo com o sexo, a idade, o grupo étnico e mesmo entre membros da mesma família. Somos todos diferentes, bioquimicamente únicos, embora não tão diferentes uns dos outros quanto somos dos animais não-humanos, é claro. Dessa forma, apesar de todos os genomas humanos terem mais de 99,9% de identidade, a pequena proporção de 0,1% de diferença pode produzir uns três milhões de polimorfismos, ressaltam os Greek (vejam que, mais uma vez, a prática encontra respaldo na teoria sistêmica). Muitos deles não têm efeito, mas os que têm impacto na expressão e função de proteínas podem afetar o funcionamento de drogas. Alguns exemplos estão relacionados ao metabolismo do colesterol, à manifestação da asma e aos transmissores de serotonina. Tudo isso só reforça a ideia de que usar animais em estudos é ineficaz e antiético, pois nenhuma dessas particularidades pode ser descoberta nos modelos animais. Archibald, citada antes, diz que a massiva ênfase na confiabilidade dos dados provenientes da experimentação animal permite que as companhias farmacêuticas evitem conduzir etapas clínicas mais criteriosas, mais representativas, com mais pessoas e durante mais tempo. E que os testes com animais são feitos por razões legais e não científicas, visto que isso protege as empresas contra processos decorrentes de efeitos colaterais prejudiciais ou letais. Mais grave ainda é que muitos compostos químicos cujos efeitos nocivos encontram-se fartamente documentados em estudos epidemiológicos, clínicos, etc ­ podem ser “inocentados” via experimentação animal. Isso acontece porque os testes geram dados contraditórios e inconclusivos, o que, em tese, é muito bom para a indústria. É como enfatiza o Dr. Neal Barnard, presidente do “Comitê Médico por uma Medicina Responsável”: usando diferentes espécies em diferentes projetos, os cientistas podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria. No caso do cigarro, por exemplo, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno, quanto as que asseguram a sua inocência, usaram animais como base. Há inúmeras outras facetas antiéticas ligadas à experimentação animal, tais como os gigantescos interesses econômicos envolvidos na criação e venda de animais, aparelhos de contenção, gaiolas, e os próprios fármacos. O setor farmacêutico é um setor produtivo que, como qualquer outro em nossa sociedade, precisa constantemente colocar novas drogas no mercado a fim de assegurar lucros crescentes. E isso, independentemente de as novas drogas serem mais eficazes ou seguras do que aquelas já existentes no mercado (sic). Não vou explorar aqui esse aspecto, mas recomendo que o leitor procure na Internet, por exemplo, os depoimentos da Dra. Marcia Angell, autora do livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”. Para encerrar esta pergunta, creio que é esclarecedor trazer à discussão alguns dos questionamentos de Paul Thagard quanto à distinção entre ciência e pseudociência (falsa ciência). Ele recomenda examinar, entre outras questões, se a comunidade de praticantes está tentando explicar as anomalias da teoria e se as consideram importantes; se estão comparando o sucesso da teoria com o sucesso de teorias alternativas/concorrentes; e se a comunidade científica procura provar  ou reprovar a teoria. No âmbito da experimentação animal, nenhuma dessas perguntas, aparentemente, se faz presente: elas são desafios de natureza ética e epistemológica que representam ameaças à continuidade da experimentação animal e ao mundo produtivo ao qual ela serve.

Quais as dificuldades de abordar, no meio científico, questões de cunho ético que dizem respeito à nossa relação com os animais não-humanos?  

Esta pergunta é muito boa porque nos remete ao universo muito mais amplo de pensamento e ação mencionado antes à “lente” através da qual conhecemos a natureza e seus fenômenos que prima por uma racionalidade mecanicista, instrumental.  Recorro mais uma vez a Marcuse, que nos ensina que nossa forma dominante de construir conhecimento é baseada na quantificação da natureza. Mas a tradução da natureza em termos de estruturas matemáticas (por exemplo, a coleção de dados como pesos, alturas, percentuais, informações estatísticas, quantificação de danos ambientais, etc) criou a ilusão da existência de uma realidade autônoma, independente do observador humano. Isso acabou separando a Ciência da Ética e resultou na dificuldade de vermos nossos “objetos” de estudo em termos de causas finais (isto é, dotados de valor intrínseco). Essa é a base da visão da natureza como uma grande fábrica, como uma parte produtiva do todo. E dos animais (mesmo os humanos) como recursos ou meios. Ao estabelecer a quantificação da natureza como um pré-requisito para conhecê-la, a ciência foi também paulatinamente destituindo a importância dos nossos sentidos como forma confiável de conhecer o mundo. O conhecimento passa então a ser construído, cada vez mais, por meio do domínio ou mesmo da libertação dos sentidos. Não é difícil aquilatar o quanto tudo isso foi especialmente nefasto no caso da nossa relação com os animais. O conceito de especismo é, com isso, particularmente relevante para a compreensão de nossa relação com os outros animais, uma vez que contextualiza e detalha um aspecto do antropocentrismo como traço cultural que domina nosso olhar sobre a natureza. O especismo encontra-se na base de nosso pensamento. Estamos imersos dentro dessa “bolha” ou “lente” paradigmática que – como antolhos –  nos impede de ver o que é evidente, o que os sentidos nos mostram o tempo todo: que os animais não são autômatos incapazes de pensar; que eles têm linguagem; que são sencientes; que gerenciam sua saúde e seu bem-estar; que têm uma expectativa sobre o futuro (e lembranças do passado); e que, em alguns casos, têm o que podemos chamar de uma protocultura. Tudo isso deveria lhes conferir direitos, sendo o direito à vida o mais evidente. Mas falar de uma ética que inclua os animais não-humanos como parte da comunidade moral equivale a tentar virar o mundo de cabeça para baixo. E tratar desse assunto pode ser tanto mais difícil quanto mais alto o nível de escolaridade das pessoas. Isso porque, dependendo da área em que trabalham, ou estudam, pode haver conflitos de interesses. Agir de forma eticamente correta é geralmente mais difícil porque, frequentemente,  nos vemos forçados a abandonar nossas zonas de conforto mental para abrir mão de práticas (ou costumes) moralmente injustificáveis, independentemente de o quanto isso possa nos afetar. A maior parte dos alunos das fases finais de cursos de graduação como as Ciências Biológicas, Bioquímica, ou Farmácia não deseja ouvir discursos inconvenientes que abalem suas convicções, construídas ao longo da graduação, quanto ao que seja fazer Ciência. Numa experiência acadêmica recente, que durou três semestres, me senti diversas vezes como se estivesse falando para uma parede de granito. Mas a resistência dos alunos em ouvir o que poderíamos chamar de “lado B” da experimentação animal – e outras relações especistas – é um mero reflexo do ambiente em que estão. Os estudantes espelham as visões de mundo de seus professores. E, entre estes, praticamente não há vozes contrárias à vivissecção. Os poucos que não “simpatizam” com a prática tampouco a condenam de forma aberta e sistemática. A questão – de ser contra ou a favor  costuma ficar na esfera das convicções pessoais, ou seja, o assunto não é tratado como algo que mereça uma reflexão acadêmica. Isso se deve, mais uma vez, ao fato de não se tratar o tema sob o ponto de vista epistemológico. Vale destacar também que, como os animais não são vistos como pertencendo à comunidade moral, muitos professores preferem não se indispor com seus colegas vivisseccionistas. É preciso pontuar, inclusive, que nas Ciências Biológicas é relativamente comum sacrificar vidas animais para estudar. Ainda que tais práticas não se constituam em  “experimentação”, isso contribui para “esfriar” eventuais críticas à vivissecção. Além disso, há o aspecto do prestígio e da produtividade acadêmica. Mais uma vez cito os Greek, que comentam que, enquanto um pesquisador clínico publica um trabalho, um vivisseccionista publica, em média, cinco. Isso acontece porque “um rato é um animal que, quando injetado, produz um artigo”, enfatizam eles. Já presenciei algumas cenas nas quais os estudantes são insuflados por seus professores a adentrarem esse mundo da produtividade acadêmica (sic). Parece não ter a menor importância o fato de estarem construindo suas carreiras rolando por sobre os cadáveres de indefesos seres sencientes. Isso coincide, lamentavelmente, com a crítica de Milton Santos à “universidade de resultados”, consequên­cia de comportamentos pragmá­ticos e raciocínios técnicos que atropelam os esforços de enten­dimento abrangente da realidade. No caso especificamente da vivissecção, aceitamos tudo isso porque somos especistas. Não levamos a sério o sofrimento dos animais.

Você considera que a criação de “comissões de ética no uso de animais”, no que tange ao ensino ou à pesquisa científica, poderá salvaguardar alguns interesses dos animais?

Como ex-membro de uma das primeiras comissões desse tipo no país, posso afirmar que tais fóruns de deliberação são ineficientes porque são formados predominantemente por vivisseccionistas e, por conta disso, se tornam tendenciosos. Vivenciei ao longo do meu mandato situações desconcertantes como: pesquisadores que desconheciam os métodos substitutivos ao uso de animais, bem como os avanços científicos em suas áreas (em mais de trinta anos de pesquisa com modelos animais); protocolos que buscavam renovação com base em critérios produtivistas como publicações, dissertações e teses, ou seja, com base em seu valor instrumental e não no valor intrínseco (que seria o avanço científico em si); e protocolos que eram aprovados porque alguns membros da comissão alegavam não ter competência para questionar seus colegas. Com isso, durante o período em que participei da comissão, apenas uns poucos protocolos foram reprovados com base na total inobservância de critérios mínimos, tanto científicos, quanto éticos. Eram simples “experimentações” que alguns colegas mal acostumados vinham praticando há décadas, sem que houvesse qualquer questionamento acerca delas. Mesmo assim, ouvi dizer que algumas dessas “pesquisas” acabaram acontecendo por causa do hiato entre o início do experimento e a negativa por parte da comissão, às vezes demorada. Tivemos, contudo, um saldo positivo: um colega que trabalhava com animais deixou de fazê-lo. Outros avanços que poderiam ser mencionados – como um maior empenho na clareza dos objetivos e nos critérios científicos adotados em diferentes protocolos de pesquisa – devem ser vistos com cautela. Como a aprovação de protocolos por parte dessas comissões é uma condição sine qua non para que um trabalho seja publicado em revistas e periódicos de prestígio, a motivação para aprimorar um protocolo pode ter pouco a ver com valor intrínseco da pesquisa, no sentido lato de avanço da ciência. O fato é que a posição dos vivisseccionistas é bastante confortável, já que eles não têm que se encarregar, verdadeiramente, do ônus da prova de que é preciso aniquilar tantas vidas. Essas comissões acabam, com isso, legitimando uma ciência especista, sob o manto de uma suposta avaliação ética. Mesmo que todos os problemas citados não tivessem existido, ou que possam hoje ser minimizados, tais comissões não salvaguardariam os interesses dos animais porque seu fundamento não é abolicionista. Aliás, mais correto é dizer que tais problemas existem precisamente porque os valores que fundamentam as comissões não refletem uma mudança paradigmática, mas, na melhor das hipóteses, uma visão bem-estarista ou reformista, como destaca Tom Regan. A verdadeira mudança paradigmática não propõe “jaulas maiores”, mas “jaulas vazias” pois, ainda que os experimentos resultassem em dados úteis e confiáveis, não temos esse direito. Não é absolutamente razoável rotular como “radicais”, ou “obscurantistas” movimentos que, baseados em dados científicos e reflexões fundamentadas na mais recente epistemologia, questionam a legitimidade da prática vivisseccionista. Não se pode afirmar que não seja possível prescindir dos modelos animais porque não há investimento algum (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, epidemiológicos e outras fontes de informação). E isso acontece por diversas razões. A principal delas é, mais uma vez, a falta de uma visão sistêmica na construção do conhecimento. Avanços significativos, especificamente no que toca aos fármacos, poderiam advir da adoção de novas técnicas e procedimentos, já existentes – que evitariam a etapa de testes com animais – e da ampliação da fase de estudos clínicos. A observação sistemática dos efeitos colaterais de fármacos já existentes, inclusive os efeitos positivos que resultariam em novos valores de curas, também traria uma inestimável contribuição. A inclusão em larga escala de antigos e novos métodos como os estudos in vitro, epidemiologia, observação clínica, autópsias, etc, – e as simulações por computador, química combinatória e modelagem matemática ­– permitiriam, também, mudar a forma dominante de se fazer pesquisa. A epidemiologia, hoje, é grandemente facilitada pelo fato de que dados médicos podem ser acessados por computador, rastreando informações sobre milhares de pacientes em diversas instituições. Nunca houve um período histórico com tantas possibilidades de unir novas tecnologias a práticas tradicionais. Nunca houve uma condição tão favorável para acabar com a vivissecção, fazendo interagir os avanços nas ciências da vida (como a epigenética, por exemplo) com a tecnologia e as ferramentas de gestão do conhecimento. Não podemos dizer que não vai dar certo algo que não foi tentado. Seria como se alguém, ao “rés-do-chão”, olhasse para o alto de uma escadaria e dissesse: “não consigo subir”, sem que ao menos tentasse dar o primeiro passo. Certa vez um colega vivissecionista criticou os defensores do abolicionismo animal alegando, entre outras coisas, falta de coerência entre seus praticantes. Ele argumentou que, quando precisamos de um medicamento, damos “graças a Deus” de termos a chance de nos curarmos. Sem entrar no mérito de o quanto nós, antivivisseccionistas, conseguimos manter nossa saúde mais às custas da prevenção, do que de intervenções, não é difícil imaginar uma situação análoga em que um abolicionista no século XIX fosse criticado por usar roupas de algodão colhido por escravos, como se essa fosse a única forma de produzir, colher e manufaturar  tais produtos. Poderíamos ir longe com este tema, mas vou ficando por aqui. Quem desejar ler mais sobre o assunto poderá encontrar diversos textos muito esclarecedores na Internet, inclusive em língua portuguesa. Encerro com uma frase meio poética, meio epistemológica: não sei se navegar é preciso, mas realizar experimentos em animais não é preciso.

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