Aurora no Campo - Soja Diferente

Pão e vinho

Faço estas reflexões enquanto como minha pizza e tomo minha cerveja, feitas de trigo e de cevada. Cereais que não deveriam estar aqui. Na maioria dos estados do Brasil é impensável cultivar trigo. Não dá. O clima é ou muito quente, ou muito úmido, ou muito seco. Somente nos três estados mais ao sul e em Mato Grosso do Sul – exatamente  nos locais onde se concentra a maioria dos descendentes de europeus – é possível cultivar trigo e cevada. Como se fosse um sistema de rotação de culturas com a soja. Paraná na liderança. Devido ao inesperado aumento na produção – um reflexo do aumento na produção de soja –, em 2003, o Paraná foi obrigado a tentar exportar trigo pela primeira vez em sua história. Mas o maior volume de trigo vem dos Estados Unidos da América, Europa e Argentina.

Numa das crônicas anteriores, o professor Kinupp tratava do imperialismo gastronômico-alimentar: “Em média, apenas cem espécies vegetais são ingeridas de um universo de 17 mil que estão à nossa disposição.”

Trigo é um excelente exemplo disso. Os povos da região do Mediterrâneo conhecem este cereal há milhares de anos e o levavam em suas expedições de conquista. O pão doce do Norte substitui, agora, o alimento predominantemente ácido do Sul. Isto não desperta muita atenção no Brasil, graças aos doces onipresentes – herança dos colonizadores portugueses –, mas na África subsaariana isto é mais do que evidente.

Em relação a isto, nunca esquecerei o profundo clamor do padre camaronês e teólogo da libertação Jean-Marc Ela. Em um de seus textos, o tom básico é sua afirmativa (um tanto dura): “Trigo é o cereal do opressor. Um produto de dumping que expulsa nossos próprios produtos agrícolas e culturas. Como é que podemos celebrar a eucaristia com este cereal da opressão?!” [Para ler meu resumo, veja nota de roda-pé 5] Apesar desta tese, ele recebeu posteriormente o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Católica de Leuven [Bélgica].

 

Fiquemos, por um momento, no espírito de advento e natalino: não é marcante que o código da Igreja Católica Romana exija que o vinho seja feito com uvas e a hóstia com trigo? Dois produtos da região mediterrânea, onde surgiu a tradição judaico-cristã que, em seguida, dominou e domina o mundo, via Roma. Até no alimento e na bebida. Até o corpo e os membros. Até a alma das pessoas.

Nem se cogita utilizar vinho de palma e broa de milho. Ou pão de mandioca e vinho de arroz.

Ou será que a globalização total é a solução? A globalização que faz com que no Nordeste semi-árido do Brasil sejam cultivadas uvas para servir nas ceias natalinas dos europeus. Uvas e soja do agronegócio internacional, pelas quais agora se crê ser necessário canalizar e esvaziar o rio São Francisco.

 

Foi revigorante encontrar, em Goiás, a beneditina belga, Ione Buyst. Ela está construindo uma liturgia e escrevendo um livro a partir da realidade da vida do povo mais simples e para eles. Ela e sua equipe estão realizando um trabalho maravilhoso, entre outros, com os sem-teto, em São Paulo, mas também fazem atividades de capacitação nas universidades.

Eu só me pergunto se ainda é possível formular esta ‘questão do imperialismo do pão e do vinho’ no Brasil. Esta nova nação miscigenada não é parte do ‘velho mundo’ com a dominância e evidência dos valores mediterrâneos? Eu acho que, não por acaso, o clamor mais veemente parte da África subsaariana.

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