Pão de mandioca e outras formas de resistência

Por fim, ele ainda nos informa que há muito mais possibilidades para a mandioca. Atualmente são realizados projetos governamentais para fazer pão de mandioca, já que não é possível cultivar trigo nesta região quente e este cereal precisa ser, portanto, principalmente importado. Só é possível cultivar trigo no Sul do Brasil e em Mato Grosso do Sul. Mesmo em seu uso tradicional, a mandioca tem mais a oferecer do que o normalmente explorado. Por exemplo, o líquido resultante ao espremer a mandioca poderia ser recolhido e utilizado como adubo. As ramas da mandioca não são utilizadas, no entanto são ricas em proteína e poderiam perfeitamente servir para alimentação do gado. No Sul do Brasil elas são, de fato, empregadas na alimentação de porcos.

[foto 12]

O pão de mandioca está a caminho?

 

Ao todo, visitamos três regiões diferentes em relação ao grau de aridez e vegetação. Numa região mais árida encontramos, finalmente, os quilombolas de ‘Matinho dos Negros’. A senhora que nos recebe exibe, claramente, as marcas das lutas de muitas gerações. Oficialmente, a escravidão foi abolida em 1888, mas a prática continuou até o início do século XX e, hoje em dia, novas formas de escravidão vêm sendo constatadas – entre outros, nas plantações de soja em grande escala.

O local onde estamos hospedados agora é um dos muitos exemplos, na história do Brasil, de escravos fugidos que fundaram uma comunidade isolada no meio da floresta. Na década de 1970, eles travaram uma batalha jurídica pela propriedade da terra e ganharam a causa contra o latifundiário, fato raro por aqui. Atualmente, sete famílias sobrevivem em 9 hectares; três famílias trabalham na propriedade, os outros trabalham em outros locais. Frutas como a manga e o caju proporcionam uma boa renda, assim como muita mandioca.

 

Na Bahia há muita vida. Também aqui, no Nordeste semi-árido, a monocultura da soja vem se expandindo. Estas imensas planícies destinadas à agricultura para exportação sugam, através da irrigação, a água das pessoas mais humildes, agricultores e consumidores.

Mas, nos três exemplos descritos, estão ocorrendo mudanças. Assim, não é por acaso que, há poucos dias, uma mulher deste estado foi eleita presidente da Fetraf-Brasil.

 

Salvador da Bahia, 20 de novembro de 2005.

 

(1)   Um alqueire é 2,42 ha, medida válida para o Sul do Brasil; este é chamado de ‘alqueire paulista’. Ao norte do estado de São Paulo, um alqueire é 4,84 ha.

No Mato Grosso, um alqueire também é 2,42 ha. Isto está relacionado com a influência dos gaúchos no Mato Grosso.

Uma ‘colônia’ é 10 alqueires, ou seja, quase 25 ha (24,2 ha). Muitos imigrantes que vieram para o Brasil durante os fluxos migratórios do final do século XIX recebiam uma ‘colônia’ cada um. Por isso, os agricultores são, muitas vezes, chamados de ‘colonos’. Em alguns locais, como no sudoeste do Paraná, os lotes são menores, geralmente 12 hectares. Já em outras colônias são de 19 hectares.

Please follow and like us: