Panorama da Pecuária no Brasil e no Mundo

Panorama da Pecuária no Brasil e no Mundo

(repensando nossa relação com o meio ambiente e com os animais)

 

Carlos Raul Brandão Tavares

Setembro de 2009

 

“Sempre em busca do prazer do ouro

Quem te interfere perde o couro

Mas te esqueces o teu tesouro

é o teu coração e todo mal que o consome

Bicho mau, bicho mau

Bicho homem!

Bicho mau, bicho mau

Bicho homem!”

Bicho homem, Maurício Baia

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Panorama da Pecuária no Brasil e no Mundo

(repensando nossa relação com o meio ambiente e com os animais) 
 

Carlos Raul Brandão Tavares

Setembro de 2009 
 

“Sempre em busca do prazer do ouro

Quem te interfere perde o couro

Mas te esqueces o teu tesouro

é o teu coração e todo mal que o consome

Bicho mau, bicho mau

Bicho homem!

Bicho mau, bicho mau

Bicho homem!”

Bicho homem, Maurício Baia 
 
 

SUMÁRIO

________________________________________________________________________ 

1. Introdução.

2. Estatísticas.

3. Confined Animal Feeding Operations – CAFO´s.

4. Fatores favoráveis às CAFO´s.

5. Tendência atual.

6. Condições de trabalho nas fazendas industriais.

7. Problemas causados por uma alimentação antinatural.

8. Impactos ambientais.

9. Reflexos na saúde humana.

10. Seis maiores problemas de saúde pública relacionados com a pecuária.

a) Gripe aviária;

b) Mal da vaca louca;

c) Nipah vírus;

d) Intoxicação alimentar;

e) Resistência aos antibióticos;

f) Hormônios e outras toxinas;

11. Peixes

12. Mitos criados pela indústria da carne.

13. A situação do Brasil.

14. Uma nova consciência.

15. Conclusão.

16. Bibliografia.

17. Referências 

  1. Introdução

     A pecuária é o processo de criação e domesticação de animais com objetivos econômicos pelo ser humano. De acordo com as estatíscas oficiais, aproximadamente 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro dependem, direta ou indiretamente, da pecuária.¹

            Segundo o relatório “Livestock´s long shadow” divulgado em 2007 pela Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO, a pecuária também é um dos principais responsáveis pela degradação do meio ambiente e dos recursos naturais.

     Seus impactos incluem²: 

    • O desmatamento e degradação do solo: Os pastos ocupam 26% de toda superfície não coberta por gelo e a área dedicada a alimentos para os animais ocupa 33% das terras aráveis. O setor é responsável por 70% de toda área dedicada à agricultura e 30% da superfície total do planeta Terra.

 

    • Poluição atmosférica e aquecimento global: A pecuária responde por 64% das emissões de amônia – gás responsável pela chuva ácida, 18% das emissões de CO2 e 37% das emissões de metano, um gás 23 vezes mais nocivo à camada de ozônio que o CO2.

 

    • Diminuição da biodiversidade: Citando um estudo da WWF, a FAO revela que dos 35 núcleos de biodiversidade mais ameaçados do mundo, 23 estão sendo diretamente afetados pela pecuária. A maioria das espécies que corre risco de extinção está tendo seu habitat devastado para o cultivo de animais ou para cultivar alimentos destinados ao gado criado nas CAFO´s – Operações de Engorda de Animais em Confinamento (sigla em inglês).

 

    • Saúde pública: Apesar dos pastos continuarem degradando ecossistemas no mundo inteiro, há uma tendência da pecuária se deslocar para os grandes centros urbanos, ficando mais próxima dos consumidores e da oferta de insumos para suas atividades. Esta mudança, no entanto, tem ocasionado sérios problemas, como a proliferação de pragas e doenças contagiosas, a exemplo da gripe aviária, mal da vaca louca e, mais recentemente, da gripe suína.

 

  1. Estatísticas

 

    De 1960 até 2004, a produção de carne, principal subproduto da pecuária, quadruplicou.³

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Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO

   Segundo o International Food Policy Research Institute -IFPRI isso se deve aos seguintes fatores4:

  • Crescimento populacional
  • Urbanização
  • Investimentos financeiros

 

      O preço da carne caiu 25% nos últimos 30 anos. A demanda pela carne também é um fator preponderante, enquanto a população cresce 2 a 3 % ao ano, o consumo de carne cresce 4 a 8 % ao ano.

     Nos países em desenvolvimento, uma pessoa consome em média 30 kg de carne por ano. Nos países desenvolvidos, 80 kg.

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                  Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO

     O instituto prevê ainda que em 2020, nos países desenvolvidos, cada pessoa irá consumir em média 90 kg de carne por ano, o equivalente a 50 frangos, 1 porco ou metade de um boi5.

     Observação: Uma alimentação baseada em grãos e proteínas vegetais foi a base da alimentação humana durante a maior parte da história.  Carnes, ovos, peixes etc. eram considerados um luxo, e geralmente eram consumidos apenas em ocasiões especiais como domingos e feriados. 

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Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO 6 

     À  medida que a demanda pela carne aumenta os métodos de produção mudam também.

  1. Confined Animal Feeding Operations – CAFO´s

     Em 2005, o instituto Worldwatch divulgou um relatório chamado “Happier meals”, analisando o impacto para a saúde humana e para o meio ambiente das fazendas industriais, denominadas de CAFO´s – Confined Animal Feeding Operations. (Operações de engorda de animais em confinamento).

     As CAFO´s são estabelecimentos onde milhares de animais são enclausurados em condições extremamente degradantes e alimentados até a hora da morte. Nesses criadouros, os animais praticamente não têm acesso à luz natural, ar fresco, alimentação adequada, nem oportunidade de desenvolver seus comportamentos naturais.

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 Instituto Worldwatch – Happier Meals

   Velocidade de crescimento das CAFO´s:

  1. Ásia
  2. America latina
  3. Caribe

 

  1. Origem

 

A origem das CAFO´s remonta ao início do sec. XX, nos Estados Unidos, onde 4 companhias controlam 81% do mercado de carne bovina. Segundo Danielle Nierenberg, dois acontecimentos marcaram o surgimento das CAFO´s nos Estados Unidos. São eles:

  • Caso Cecille Steele em 1920, uma produtora de ovos que recebeu por engano um carregamento de 500 galinhas e terminou se aproveitando da situação, comercializando a carne desses animais. 
  • Caso John Tyson, que transportou 500 galinhas por mil quilômetros. Tyson quebrou e estreita ligação entre os produtores locais e os matadouros mostrando ser possível comprar animais de lugares distantes por preços acessíveis. A Tyson Foods se orgulha de ser a maior fornecedora de proteína animal do planeta. Mobiliza anualmente 26 bilhões de dólares.

 
 

  1. Práticas adotadas:

 

  • mudanças genética;
  • criação de novas espécies;
  • Técnicas para fazer os animais engordar mais rápido, com pouca comida.

 

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Instituto Worldwatch – Happier Meals

Obs: Se o animal não é abatido nesse período ele desenvolve câncer e automaticamente morre.

c) Fazendas industriais de produção de ovos: as galinhas são espremidas juntas em gaiolas de aço, onde não podem ficar em pé nem abrir suas asas.

d) suinocultura: As porcas parideiras são mantidas em jaulas de gestação onde não podem se movimentar ou manifestar qualquer comportamento natural.

e) Produção de leite: As vacas leiteiras vivem sua curta vida enclausuradas em baias com pouca ou nenhuma grama, local para descanso ou proteção climática. Recebem injeções com hormônios de crescimento geneticamente modificados, forçando-as a produzir uma maior quantidade de leite.

4. Fatores favoráveis às CAFO´s

Alguns dos fatores que contribuem para o crescimento das CAFO´s são os incentivos fiscais e os baixos preços dos grãos (que não contabiliza o custo ambiental). A produção de soja e grãos é o maior causador da destruição da floresta amazônica e outras florestas equatoriais do planeta. No Brasil, onde a produção de soja é 5 vezes maior do que a de arroz e 18 vezes maior do que a de feijão, 90% da soja é destinada à exportação, em sua grande parte para alimentar o gado criado em confinamento na Europa e nos Estados Unidos.

5. Tendência atual

  À medida que as leis ambientais e trabalhistas se fortalecem na União Européia e nos EUA, essas fazendas vão se deslocando para os países em desenvolvimento, a exemplo da China, Índia, Tailândia e Brasil.

6. Condições de trabalho nas fazendas industriais. 7

      As condições de trabalho nas fazendas industriais são extremamente degradantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, todo ano um em cada três trabalhadores são feridos. Dentre os problemas principais relacionados a essa atividade estão:

  • longas jornadas de trabalho;
  • ausência de segurança adequada;
  • os trabalhadores ganham por número de galinhas transportadas;
  • têm que pegar 5 a 6 galinhas ao mesmo tempo em cada mão (são comuns ferimentos causados pelas garras e bicos dos animais);
  • andam em chãos escorregadios repleto de sangue e vísceras dos animais;
  • sofrem danos psicológicos e emocionais;
  • Como a preocupação da indústria de exploração animal é com o lucro e não com o bem estar de quem quer que seja, muitos trabalhadores descarregam suas frustrações nos animais, tornando o processo de produção de carne ainda mais desumano e cruel.

   Os animais são alimentados com grãos. 70% da colheita de milho dos EUA é destinada a alimentar os animais. No mundo, 80% da colheita de soja também tem o mesmo destino8.

   Mas por que os animais são alimentados com grãos? Por um motivo simples: assim eles ganham peso mais rapidamente, o que diminui o custo da produção e aumenta o lucro.

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          Instituto Worldwatch – Happier Meals

   É importante ressaltar que a sanha capitalista dos pecuaristas está subvertendo a natureza de muitas espécies, como o gado bovino, que não tem a soja como alimento natural. 

7. Problemas causados por uma alimentação antinatural: 9

  • Gases
  • Acidez estomacal
  • Inflamações
  • Abscessos no fígado
  • Estimula a proliferação da E.coli, o que pode contaminar também os vegetais caso o estrume seja usado como adubo.

Vejam que 2/3 da produção de farinha de peixe do mundo é destinada a alimentar os animais criados em confinamento.

Os animais também estão comendo uns aos outros. Isso foi a causa dos príons que deram origem ao mal da vaca louca. Na Europa, hoje, é proibido alimentar animais com restos de outros animais mortos. Nos EUA, no entanto, pelo menos até a publicação do relatório Happier Meals, essa prática ainda não era proibida. Muito embora seja proibido alimentar animais com restos de outros animais da mesma espécie, essa regra, para a FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental dos Estados Unidos da América que faz o controle dos alimentos (tanto humano como animal), suplementos alimentares, medicamentos (humano e animal), cosméticos, equipamentos médicos, materiais biológicos e produtos derivados do sangue humano, não se aplica à gordura e ao sangue, nem a restos de animais de outras espécies. Isso tem preocupado os especialistas porque se o gado bovino for alimentado com restos de animais que comiam restos de bovinos mortos, os príons podem encontrar um caminho de volta para atingir o gado bovino novamente.  1

8. Impactos ambientais

Dentre os impactos nocivos da pecuária no meio ambiente podemos citar:

  • extinção das espécies nativas;
  • perda da biodiversidade: boa parte das espécies ameaçadas de extinção estão perdendo o seu habitat para a construção de pastos e agricultura destinada a alimentar os animais;
  • extinção dos pequenos produtores rurais;
  • concentração da produção de carne em grandes companhias internacionais;
  • poluição e degradação ambiental (mini agri-chernobyls);
  • proliferação de doenças entre animais e seres humanos;
  • diminuição da diversidade genética;
  • outro problema grave é a agricultura destinada a alimentação de animais.

A produção de animais é um dos maiores consumidores de água do mundo.10        

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 Instituto Worldwatch – Happier Meals

     Um só matadouro em HONG KONG libera diariamente 500 milhões de litros de água poluída. Mesmo que esses dejetos sejam usados como adubo, não há terra suficiente para tanto. Só nos Estados Unidos, a pecuária produz mais de 600 milhões de toneladas de esgoto todo ano. Estima-se que, para cada 20 animais, sejam necessários 30 hectares de terra para adubagem. Calculando somente a população de bovinos no Brasil, estimada em aproximadamente 190 milhões de cabeça, seria preciso uma área 12 vezes maior do que o estado de São Paulo para dar conta de todo o lixo e fezes desses animais.

     Segundo o Worldwatch, somente metade dos dejetos da criação de animais é  utilizada como adubo. O restante termina poluindo o ar, a água e o próprio solo.

     A contaminação dos lençóis freáticos, acontecimento comum nas granjas industriais, libera altas concentrações de nitrogênio no meio ambiente, o que pode causar doenças de pele, infecções e até câncer. Estudos comprovam que a liberação de amônia na atmosfera também produz enxaqueca, fadiga e depressão nos habitantes das comunidades vizinhas.

     Na imensa maioria das vezes, os produtores estão mais preocupados com o lucro, por isso negligenciam as restrições legais e o tratamento adequado dos dejetos de suas atividades. No Canadá, em 2000, mil pessoas adoeceram e 4 morreram após o reservatório de água da cidade ser contaminado pelo esgoto de um matadouro.

     Esses dejetos possuem também antibióticos, bactérias, hormônios e metais pesados, que são ministrados nos animais durante o ciclo produtivo. Até 75% dos antibióticos usados nos animais são eliminados pelo sistema digestivo, o que favorece a proliferação de bactérias resistentes, um perigo para saúde humana.

     Hormônios usados para aumentar a produção de leite também terminam atingindo a água e o solo, afetando o metabolismo dos peixes e de outros seres vivos. Os peixes contaminados por essas substâncias manifestam sérios problemas no sistema reprodutivo. Na espécie humana, por sua vez, os hormônios podem causar câncer no ovário e no testículo.

     Os poços de petróleos também costumam ser afetados por vazamentos dos resíduos animais, comprometendo assim as nossas reservas de energia.

     A diversidade genética dos animais também está ameaçada pelas CAFO´s. À medida que as pessoas comem mais carne, os fazendeiros são obrigados a abandonar as espécies nativas e adotar aquelas mais lucrativas. No século passado, mil raças de animais desapareceram no planeta, 15% do total segundo a FAO, 300 somente nos últimos 15 anos. Na Europa metade desapareceu.

9. Reflexos na saúde humana

     O ambiente inóspito das fazendas industriais e o uso excessivo de antibióticos nos animais favorecem a proliferação de doenças e a contaminação das populações vizinhas.

     Como a carne é um produto globalizado, sendo transportada de um país ao outro indiscriminadamente, a proliferação de doenças como gripe aviária e mal da vaca louca fica muito mais fácil. No relatório do Worldwatch, em 2005, Daniela Neirenberg alerta para a potencial eclosão de epidemias nas áreas próximas às fazendas industriais, o que veio realmente a acontecer recentemente com a gripe suína. 

10. Seis maiores problemas de saúde pública relacionados com a pecuária. 11

  1. Gripe aviária: De 2003 a 2005 causou 50 mortes no mínimo. Não é uma doença nova. Nos últimos dez anos ela começou a romper a barreira das espécies e atingir também os seres humanos. O vírus se espalha rapidamente e, nas aves, tem uma taxa de mortalidade de 100%. Aves selvagens como os patos vem sendo chamadas de “cavalos de tróia”, porque levam essas doenças para diversos lugares. Em 2005, descobriu-se que a gripe aviária pode ser encontrada também em outros animais, como tigres, gatos, etc. O instituto Worldwatch alerta que, devido à proximidade genética entre os porcos e o ser humano, o vírus da gripe aviária pode se combinar com o vírus da influenza encontrada nos porcos e gerar um descendente muito mais potente e letal do vírus. Na Ásia, essa possibilidade é mais evidente devido à quantidade e proximidade entre as fazendas de aves, suínos e aglomerações humanas. A Organização Mundial de Saúde – OMS alerta que o fato da gripe aviária estar se tornando menos letal não é necessariamente uma boa notícia. As aves podem estar desenvolvendo uma resistência maior, o que pode gerar no futuro um mutante do vírus muito mais forte e letal.  A FAO e a OIE decidiram que, por razões de economia, ética e preservação ambiental, o sacrifício de animais será a última alternativa no controle dessas epidemias. Os órgãos governamentais têm estimulado a vacinação, que por ser uma alternativa mais cara, não é vista com bons olhos pelos pecuaristas. Os principais fatores que contribuem para eclosão dessas epidemias são: superpopulação de animais, péssimas condições sanitárias e uniformidade genética.

 

  1. Mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme): Surgiu quando os fazendeiros começaram a colocar na ração restos de outros animais mortos triturados, com o objetivo de fazer os animais engordarem mais rapidamente. É causada por príons, proteínas grandes que ocupam espaço no cérebro do animal. Causa a morte do animal e pode contaminar seres humanos através do consumo da carne. Mais de 150 pessoas já morreram no mundo. Um estudo relata que mais de 3.800 pessoas podem estar contaminadas com a variante humana da vaca louca, mas os cientistas não sabem qual o período de incubação da doença. Na Itália foi descoberta uma variação do mal da vaca louca, chamada de BASE. A BASE não manifesta sintomas, logo fica difícil saber qual vaca está contaminada. Também não se sabe se ela pode afetar seres humanos, mas tudo indica que sim. Em 2005, descobriu-se que a doença pode atingir também as cabras. A revista Science publicou um estuda em 2005 mostrando que os príons afetam também outras partes do corpo do animal, e não só o cérebro e os nervos como se imaginava.

 

  1. Nipah vírus – É uma das mais recentes zoonoses descobertas que podem ser transmitidas pelos animais aos seres humanos. Foi descoberta em 1997 num dos maiores criadouros de porcos da malásia. Passa dos morcegos para os porcos, e depois, através da tosse do animal, se espalha entre os seres humanos. Os sintomas são semelhantes aos da gripe, e já matou mais de 100 pessoas. Em 2004 eclodiu também em Bangladesh matando mais de 74 % das vitimas.

 

  1. Intoxicação alimentar – (listeria, salmonela, E.coli). Nos EUA, todos os anos, milhões de toneladas de alimentos são jogados fora por motivos de contaminação. A contaminação se dá na imensa maioria das vezes no processo de produção da carne, e não no processo de consumo, como a mídia costuma divulgar. Os animais chegam geralmente nos matadouros cobertos de fezes. É difícil manter a carne afastada das fezes do animal. No atual sistema de produção, um funcionário sacrifica em média 60 bois em uma hora. Quando tiram o intestino do animal, as fezes derramam e se espalham por todo seu corpo. E o que se chama nos bastidores de “Spillage”. A Salmonela é responsável pela morte de 500 pessoas por ano, só nos EUA.

 

  1. Resistência aos antibióticos: Por causa do hábito de se ministrar antibióticos nos animais, as intoxicações alimentares estão ficando cada vez mais difíceis de combater. Nos EUA, os animais consomem 8 vezes mais antibióticos do que seres humanos. Eles permitem que o animal ganhe peso mais rapidamente em menos tempo. Enquanto uma pessoa, para comprar um antibiótico, precisa estar doente e de uma receita médica, os fazendeiros colocam essas substâncias na comida e na água dos animais sem nenhuma prescrição médica e independentemente de qualquer doença. Pouca ventilação, enclausuramento e superlotação, condições típicas das CAFO´s, favorecem esse acontecimento. A União Européia baniu toda e qualquer utilização de antibióticos como promoção do crescimento animal. A Organização Mundial de Saúde – OMS também condena essa prática. Os produtores estão tentando agora tratar a carne com radiação, mas isso pode provocar câncer e alterações cromossômicas nos seres humanos.

 

  1. Hormônios e outras toxinas – Começaram a ser usados depois da II Guerra Mundial. 2/3 do rebanho de corte dos EUA são tratados com hormônio. 1/3 das vacas leiteiras recebem hormônio de crescimento.  Conseqüências: câncer de intestino e de mama. Puberdade prematura.  A união européia proibiu a utilização de hormônios na pecuária desde 1988. 70 % das galinhas são tratadas com arsênico nos EUA. Quanto mais alto na cadeia alimentar estamos, maior a quantidade desta toxinas que consumimos.

11. Peixes

     A demanda por peixes duplicou nos últimos 30 anos.

     Hoje em dia, 30 % da produção de peixe vêm dos criadouros artificiais.

Problemas:

  • Perda líquida na produção. Para cada quilo de peixe dos criadouros são necessários 2 quilos de peixe selvagens, utilizados como ração.
  • Super dosagem de antibióticos para evitar doenças causadas pela superpopulação. Estudo na revista SCIENCE constatou que os salmões de criadouros possuem nível de dioxina 11 vezes superior aos peixes selvagens. O nível de PCB é oito vezes maior.
  • Poluição do oceano, dos rios e lençóis freáticos.

 

12. Mitos criados pela indústria da carne. 

  • mito da proteína: O corpo humano não absorve diretamente as proteínas, mas sim os aminoácidos, que são espécies de tijolos que compõe as proteínas. Acontece que dos 20 aminoácidos existentes na natureza, apenas oito não são produzidos pelo próprio corpo humano. São os aminoácidos conhecidos como essenciais, uma vez que precisam ser obtidos através da alimentação. Esses oito aminoácidos, no entanto, são encontrados facilmente numa dieta baseada em alimentos vegetais, como feijão, arroz, trigo e milho. Vejam que animais como o elefante são vegetarianos, e nem por isso são subnutridos. Portanto, não há necessidade alguma de se consumir carne para suprir as necessidades protéicas do corpo. Vale lembrar ainda que a proteína não é nem deve ser o principal ingrediente da alimentação humana. Segundo NRC (National Research Council), órgão do governo americano responsável por determinar as necessidades nutricionais do corpo humano, um indivíduo adulto deve ingerir diariamente apenas 8 a 9% de calorias na forma de proteína.12

 

     É bem provável, que o mito da proteína tenha sido culturalmente introduzido na sociedade humana de forma intencional pela indústria da carne, com o objetivo de estimular o consumo de produtos de origem animal e incrementar os lucros obtidos com essa atividade. Essa cultura, no entanto, vem sendo hoje combatida pela própria ciência e pelos governantes, atentos para o alto custo dessa dieta para economia e para saúde humana.

  • O problema da fome: Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde, morre-se mais pelo excesso do que pela falta de comida no mundo. As doenças cardiovasculares, diretamente relacionadas com o consumo de carne e gordura animal, são responsáveis por 29,3% das mortes no planeta, enquanto a desnutrição por falta de proteínas representa apenas 0,6% deste total. Isso sem falar nas infecções e no câncer, que ostenta o primeiro lugar no ranking da mortalidade.13

 

          Vale salientar que o consumo de carne contribui de forma significativa para a escassez de alimentos no mundo. 33% de toda a área disponível para a agricultura do planeta é dedicada ao cultivo de alimentos para os animais e 80% da soja produzida é destinada à alimentação animal. Esse processo acarreta um desperdício nutricional sem precedentes, uma vez que para cada caloria de carne vermelha ou branca são necessários de 11 a 17 calorias de grãos, como milho e feijão, que poderiam estar nutrindo o próprio ser humano.14 O instituto Worldwatch estima que só os grãos utilizados para alimentar o gado criado em confinamento nos Estados Unidos seriam suficientes para eliminar a fome no mundo inteiro.  

A questão da vaca na índia: Considerando que uma vaca leiteira tem uma vida útil de 8 anos e que produz em média 15 litros de leite por dia, durante toda sua vida, ela irá produzir aproximadamente 43.680 L de leite, o que significa um rendimento energético de 26.208 Kcal por cabeça. Se a mesma vaca é sacrificada para alimentação humana, ela irá proporcionar tão-somente 200 kg de carne, o que representa apenas 280 Kcal, 100 vezes menos do que ela produziria se fosse utilizada apenas na produção de leite.  

13. A situação do Brasil

O Brasil é o maior exportador de carne, e o segundo maior produtor de soja do mundo, perdendo apenas para o EUA. 

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 Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO 

A quantidade de soja produzida no Brasil é 5 vezes maior do que a de arroz e 18 vezes maior do que a de feijão. 
 

                       Quantidade produzida segundo a FAO: 

             Soja                          57.857.200 toneladas
             Arroz                                    11.060.700 toneladas
             Feijão                               3.169.360 toneladas

                            Link: http://faostat.fao.org/site/339/default.aspx

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Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO 

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Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO 

 

     Considerando a perda no processo de produção da soja texturizada e do óleo de soja, o percentual de soja destinada à exportação pode chegar a 90% de toda soja produzida no Brasil.  

     Eis alguns dados fornecidos pela Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO:

Quantidade de soja bruta produzida no Brasil em 2007                 57.857.200 toneladas
Quantidade de soja bruta exportada                                             23.733.776 toneladas
Quantidade de soja texturizada exportada                                    12.474.183 toneladas
Quantidade de óleo de soja exportado                                           2.342.541 toneladas

Links: http://faostat.fao.org/site/342/default.aspx

           http://faostat.fao.org/site/339/default.aspx 
 

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  Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO 

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  Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO

Produção de soja no Mato Grosso, o estado que tem o maior índice de desmatamento do Brasil: 15

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     Grandes investimentos por parte do setor de agronegócio norte-americano transformaram a Amazônia na mais nova fronteira agrícola do País. Até 2004, cerca de 1,2 milhão de hectares de florestas foram convertidas em plantações de soja. Estima-se que entre 2-3 milhões de toneladas de soja por ano sejam transportadas para o porto de Santarém, no coração da Amazônia. 

     Em 6 de abril de 2006, o Greenpeace divulgou um relatório chamado “Comendo a Amazônia”  com o objetivo de denunciar a relação direta entre a produção de soja, o desmatamento, a grilagem de terras e o trabalho escravo na região amazônica.

     No relatório, o Greenpeace identifica três empresas norte-americanas como principais co-autoras dessas atividades: Archer Daniels Midland (ADM), com sede em Decatur, Illinois; Bunge Corporation, baseada em Saint Louis e, a mais importante, a Cargill, com sede em Minnesota. Das três, a última é a pior de todas. A Cargil construiu ilegalmente um enorme porto graneleiro às margens do rio Tapajós, em Santarém, no Pará. A soja produzida no Mato Grosso é transportada pela BR-163 para o porto da Cargil em Santarém e, de lá, escoada pelo oceano para a Europa e Estados Unidos, onde vai servir de alimento para o gado criado em confinamento nas CAFOS´s. A Cargil possui 13 silos espalhados pela floresta amazônica, a maioria ao longo da BR-163.

     A produção de soja ao longo da parte pavimentada dessa rodovia saltou de 2,4 mil hectares em 2002 para mais de 44 mil hectares em 2005 – um crescimento de quase 20 vezes em três anos. A Cargill, ADM e Bunge são parceiras no financiamento do projeto de US$ 175 milhões para pavimentar a parte que vai da fronteira com o Pará até Santarém, região que ainda preserva boa parte da floresta original, conforme se pode ver nas fotos abaixo.

     Imagens extraídas do Google Earth:

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     No relatório, o Greenpeace mostra ainda que Cargil e companhia compram soja de fazendas condenadas pela utilização de trabalho escravo na região do Mato Grosso. Por motivos óbvios, essas três empresas se recusaram a assinar o Pacto Nacional pela a Erradicação do Trabalho Escravo proposto pelo governo brasileiro. 

     Em 2009, o governador do Mato Grosso foi considerado o maior produtor individual de soja, e o sexagéssimo segundo homem mais poderoso do mundo.  

14. Uma nova consciência 

  Em 2005 a Associação Americana de Medicina divulgou uma pesquisa reconhecendo que as pessoas que comem carne possuem muito mais propensão ao câncer e outras doenças que os vegetarianos. A obesidade, por exemplo, é um mal que afeta mais de 300 milhões de adultos no mundo inteiro e está diretamente ligada ao consumo de animais, assim como as doenças cardíacas, que matam todo ano quase dezessete bilhões de pessoas.16 

     Em 2000, a Mc Donalds17, cedendo a pressões dos grupos de proteção aos animais e de saúde pública, começou a exigir um espaço mínimo para as galinhas nos galpões de confinamento e proibir o uso de alguns antibióticos e hormônios nos animais. A possibilidade do animal descansar antes do abate também foi uma das exigências adotadas.  

     Em 2001, o banco mundial18 mudou sua postura em relação à pecuária, passando a levar em consideração, nos seus investimentos, uma abordagem centrada na redução da pobreza, da degradação ambiental, e na preservação do bem-estar dos animais. Isso não se deu devido às pressões dos grupos de proteção aos animais, mas sim pelo reconhecimento de que os métodos de produção intensiva têm um custo extremamente alto para o meio ambiente e para a sociedade humana.  

     Na mesma direção, a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal) adotou uma série de medidas visando a tornar a produção de animais menos desumana. O descanso adequado antes do abate foi uma delas.

     A USDA19, por sua vez, baniu o uso do antibiótico Baytril, da Bayer, largamente utilizado nos frangos nos Estados Unidos. Apesar das reclamações da Bayer, muitos produtores, inclusive a Tyson Foods, já pararam de utilizar essa substância em seus rebanhos.

             Enquanto o governo americano ainda recomenda uma dieta rica em proteína animal, em grande parte graças ao lobby dos grandes pecuaristas, outros países têm desenvolvido guias alimentares recomendando uma dieta mais rica em alimentos vegetais. Recentemente, um estudo do instituto Gallup constatou que 62% dos americanos são favoráveis à aprovação de leis mais rigorosas no que diz respeito à proteção e ao bem-estar dos animais.

15. Conclusão.

        A maioria das pessoas não sabe – ou prefere não saber – como a carne que chega até seus pratos é produzida. Como diz Michael Pollan20, jornalista do New York Times: “se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos.”              

Mas essa falta de consciência é mais comum do que se imagina. No dicionário Wikipédia, por exemplo, a pecuária é descrita como a primeira profissão dada por Deus ao homem. “nomear e cuidar do Jardim do Éden e dos animais (Gênesis).21 No entanto, o sentido da palavra “cuidado” passa longe da exploração e crueldade a que esses animais são submetidos diariamente nas fazendas e quintais do mundo inteiro.               

Não podemos fechar os olhos para essa realidade impunemente, pois a natureza humana se caracteriza pela capacidade de compreender o certo e o errado e agir de acordo com esse entendimento. É preciso repensar a forma como nos relacionamos com os animais e construir um novo significado para a vida humana que não inclua a exploração e o sofrimento de criaturas indefesas.               

Esse novo paradigma, talvez,  surgirá como uma consequência natural a partir do instante em que o homem compreender a exploração e o consumo de animais como fatores diretamente relacionados à degradação do meio ambiente, da qualidade de vida e da própria consciência humana. 
 
 

16. Bibliografia 

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  • Livestock´s long shadow – Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO.
  • Happier Meals – Danielle Nierenberg, Instituto Worldwatch.
  • Site da  Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO.
  • “Comendo a Amazônia” – Greenpeace.
  • Site da Organização Mundial de Saúde – OMS: http://www.who.int/research/en/
  • O Dilema do Onívero. Michael Pollan, Editora Intrínseca, 2007.

 

17. Referências.

1. Happier Meals, Danielle Nierenberg, 2005, pag.8.

2. Livestock´s long shadow, Fundação das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação  – FAO.

3. Happier Meals, Danielle Nierenberg, 2005, pag.9.

4. Idem, pag.10.

5. Idem, pag.11.

6. Idem, pag.10.

7. Idem, pag.18.

8. Idem, pag.23.

9. Idem, pag.25.

10. Idem, pag.26.

11. Idem, pag.35

12. http://www.vegetarianos.com.br/links/nutriveg.htm.

13. http://www.who.int/en/

14. Happier Meals, Danielle Nierenberg, 2005, pag.24.

15. http://www.greenpeace.org.br/amazonia/comendoamz_sumexec.pdf.

16. http://www.who.int/en/

17. Happier Meals, Danielle Nierenberg, 2005, pag.61.

18. Idem, pag.63.

19. Idem, pag.64.

20. http://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Pollan.

21. http://pt.wikipedia.org/wiki/Pecu%C3%A1ria.

Carlos Raul Brandão Tavares, mestrando em Direito Ambiental e Direito Animal pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e coordenador do Alimentos para Vida seção Salvador-Ba. Email: raultavares_@hotmail.com

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