País Fast Food: “A Selva” no século 21

Upton Sinclair1 , denuncia, em 1906, as péssimas condições de trabalho e higiene
nos frigoríficos de Chicago; Eric Schlosser mostra, em 2001, o que há por trás do hamburguer,
da batata frita, do frango e das pizzas servidas nas redes de fast food

Por Antonio Claudio Bontorim

Em 1906, a indústria frigorífica de Chicago, um dos mais fortes segmentos econômicos dos Estados Unidos do começo do Século XX, sofre um efetivo revés, obrigando-a a dar início a uma revisão nas suas relações trabalhistas, ou seja, melhorar as condições de trabalho de seus operários. E o responsável por essas mudanças foi o livro "The Jungle"2 (A Selva), do escritor socialista americano Upton Sinclair, publicado em 1906. Sinclair relata, pela primeira vez, os horrores de se trabalhar em um frigorífico, onde denuncia as péssimas e anti-higiênicas condições dos currais, onde trabalhavam os assalariados desses frigoríficos.

O personagem central da história é Jurgis Rudkus, um jovem imigrante lituano, que chega à América com sonhos de riqueza, liberdade e oportunidade. Ele encontra trabalho num imundo, porém próspero, curral de Chicago. No início ele gosta de seu trabalho e fica admirado com seu companheiro que detesta. Ele tem a sensação de que o enorme estabelecimento lhe dá proteção, tornando-se responsável por seu bem-estar. Ele era sincero, e ignorante da natureza do negócio, ele não notava que tinha se tornado um empregado da Brown's, e que Brown e Durham eram conhecidos por todos como competidores terríveis – e que tinham sido obrigados pela própria lei do país a se tornarem competidores – sob ameaça de multa e até prisão. Gradualmente, a visão de Jurgis vai mudando, desiludido com o salário-escravo e no caos da vida urbana. Ele perde sua mulher, violentada por um capataz do próprio frigorífico, e seu segundo filho. Jurgis se torna um criminoso e logo mais tarde um socialista.

Esse pequeno trecho do livro "The Jungle" dá uma mostra real de como era a situação vivida por trabalhadores e como eram tratados. Ao tomar conhecimento do livro, o presidente americano, Theodore Roosevelt (1901-1909), conhecido por suas posições "anti-trustes" principia a reformulação das leis, então vigentes, sobre esse segmento, que, embora nada radicais, permite um fôlego a mais aos operários. É evidente que tanto as indústrias como seus principais executivos tentaram de todas as formas diminuir o impacto do livro e dos atos do presidente Roosevelt. O forte impacto que a publicação causou, porém, não pôde ser evitado a ponto desses empresários manterem inabalados seus impérios, que foram obrigados a rever as relações com seus empregados.

Para que se possa entender melhor esse quadro, pintado com suor e sangue desses trabalhadores – boa parte deles composta por norte-americanos e outra por imigrantes – a partir do final do Século XIX, vale a pena citar o professor Voltaire Schilling3, em seu artigo "O Truste e a Democracia – J.D. Rockefeller e a Standard Oil Co"4, em que ele comenta:

"Na década de 1890, durante o chamado Movimento Progressista, um profundo sentimento de indignação contra os grandes negócios varreu boa parte dos Estados Unidos. Era preciso por um basta nos paxás americanos (expressão usada por Henry D. Lloyd, um combativo jornalista de Chicago). Havia uma crença generalizada de que as corporações gozavam de liberdade demais, enquanto o homem comum, o operário, o trabalhador, o empreendedor principiante, o modesto comerciante, e o pequeno granjeiro, estava desamparado, sujeito como um cristão jogado às feras na arena do mercado. Um mercado em que só os grandes ursos brancos levavam vantagem. Além disso, havia de parte dos empregadores e do estado controlado por eles, fosse ele federal, estadual ou municipal, uma total indiferença pela sorte dos trabalhadores, dos pequenos.

É neste clima de difusa insatisfação coletiva e de intensa agitação social que se entende o enorme impacto causado pela novela The Jungle (A Selva, 1906) de Upton Sinclair que, ao relatar as durezas da vida de uma família de emigrados lituanos, denunciou as péssimas e anti-higiênicas condições dos currais em que talhavam os assalariados dos frigoríficos de Chicago. O clamor foi tamanho que o governo federal viu-se constrangido a adotar o Food Drug Act e, depois, um sistema federal de fiscalização sobre as fábricas de alimentos. Sinclair, como tantos outros novelistas da sua geração, que fora fortemente influenciado pelo relato naturalista de Emile Zola (especialmente na novela "Germinal", 1885), e tal como seu ídolo alcançou na França de 1890, ele também conseguiu alterar a legislação trabalhista a favor dos operários".

Quase um século depois da publicação do livro de Upton Sinclair, o assunto volta à tona. E um novo segmento da economia americana – talvez muito mais expressivo em termos de números, se comparados os diferentes períodos históricos que separam os dois momentos – também foi dissecado. E, passo a passo, numa verdadeira cronologia de datas, fatos e personagens, tornou-se o centro de um dos mais importantes livros já publicados nos Estados Unidos nesse início de Século XXI: "País Fast Food" (Fast Food Nation, em sua versão original em inglês), lançado em 2001, pelo jornalista americano Eric Schlosser.


Capa do livro publicado nos EUA

Desta vez, é a indústria americana da "comida rápida" (que já não é apenas americana, mas ganhou o mundo nos contornos da globalização) quem está na berlinda. E graças ao tino investigativo de Schlosser – jornalista graduado em História pela Princeton University – e três anos de pesquisas e viagens, hoje se pode ver muito além dos balcões coloridos e bem decorados dos fast-foods.

Alguém, entretanto, pode até perguntar o porquê da citação de Upton Sinclair, na introdução desse artigo que pretende comentar o "País Fast Food"? Sem querer fazer marketing da editora ou do próprio jornalista, a relação parece ser óbvia: assim como "The Jungle", o "País Fast Food" trata da indústria e da saúde alimentar dos Estados Unidos e, muito mais que isso, das relações (nada amistosas, mas de senhores e servos) entre patrões e empregados desse segmento, que hoje movimenta cerca de US$ 110 bilhões só nos Estados Unidos (números do ano 2000).

E muito, mas muito além da relação entre uma obra e outra, existe uma identidade entre os dois livros e os dois autores. Pode ser que o segundo seja conseqüência do primeiro. Ambos, porém, foram concebidos para tentar mudar os rumos nas relações sociais entre o poder público, com alguns de seus representantes bancados pelo dinheiro do lobby das grandes corporações, empregadores, empregados e consumidores, com esses dois últimos elos sofrendo todos os impactos negativos das irresponsabilidades praticadas pelos dois primeiros.

E a própria crítica especializada, encarregou-se de acentuar ainda mais essa relação, chamando "País Fast Food" de "new jungle". Mesmo porque, ao rigor dessa análise, vale lembrar que a grande diferença entre um e outro livro, são os 95 anos que separam suas publicações. Ao tomar o pequeno trecho acima, que conta a vida do operário Jurgis nos currais da Chicago do início do Século XX e os exemplos e depoimentos descritos por Schlosser nesse início de terceiro milênio, "País Fast Food" pode, realmente, ser chamado de "A Selva" do Século XXI.

Uma boa leitura… e bom apetite a todos!

"Empurre a porta de vidro, sinta a lufada de ar fresco, avance alguns passos, entre na fila e olhe em volta, olhe para os garotos trabalhando na cozinha, para os fregueses sentados, para os anúncios do brinquedo mais recente, estude as fotos iluminadas sobre o balcão, pense de onde veio a comida, sobre como e onde foi feita, o que você vai pôr em marcha com uma única compra, o efeito cascata, tanto em volta quanto lá longe, pense nisso. Depois faça o seu pedido. Ou vire as costas e saia. Ainda não é tarde demais. Mesmo no país da fast food, você ainda pode se impor". (SCHLOSSER, 337).

Entender este último parágrafo do livro "País Fast Food" de Eric Schlosser, mais que uma necessidade, é um dever de todos quantos lerem esse raríssimo (no sentido de espetacular) livro-reportagem. Muito mais que uma denúncia contra o poder econômico de grandes redes de restaurantes e verdadeiros monopólios da indústria frigorífica e processadora de carnes nos Estados Unidos, trata-se de um completo "raio-X" da saúde pública e alimentar americana, onde manda quem tem dinheiro (e "lobby" junto ao governo) e obedece a grande maioria da população. Em especial as crianças, vítimas das grandes campanhas de marketing e da publicidade compulsiva, em torno da chamada "comida rápida", hoje uma obsessão dos norte-americanos e que já se espalhou pelo resto do mundo. Inclusive no Brasil.

E os números e estatísticas mostrados pelo autor, que é correspondente da revista The Atlantic Monthly, com sede em Boston, é um exemplo fascinante dessa narrativa, fundamentada por pesquisas e dados das próprias cadeias de fast food e entidades governamentais e não governamentais.

Números que falam por si só:

  • Em 1970 os americanos gastaram cerca de US$ 6 bilhões em fast food;
  • Em 2000, foram US$ 110 bilhões.
  • A McDonald's responde hoje por 90% dos novos empregos.
  • Em 1968 operava com cerca de mil restaurantes.
  • Hoje são 28 mil espalhados pelo mundo todo.
  • E inauguram-se perto de 2 mil outros estabelecimentos anualmente.
  • 96% das crianças com idade escolar conseguiram identificar o Ronald McDonald, que só perde em popularidade para Papai Noel.
  • O americano médio consome, hoje, três hambúrgueres e quatro saquinhos de batata frita por semana.
  • Desde 1992 o número de franquias dobrou e por volta de 5 mil novas abrem todos os anos.
  • Além do fast food, os EUA globalizaram também a obesidade, que hoje atinge países como a Grã-Bretanha, Japão (ninguém ficou mais alto e loiro, mas teve o peso e a cintura aumentadas) e China.
  • O país tem, hoje, a maior taxa de obesidade do mundo, que cresceu nas últimas décadas devido ao consumo de fast food.
  • Ela é duas vezes maior agora do que em 1960. E entre as crianças é duas vezes maior do que era no final dos anos 70.
  • Hoje, 44 milhões de adultos norte-americanos são obesos e seis milhões obesos mórbidos, pesando 45 quilos a mais do que deviam.
  • A taxa de obesidade está aumentando em todos os estados: em 1991 apenas 4 estados tinham taxa de obesidade de 15% ou mais, hoje, pelos menos 37.
  • Há dez anos, os restaurantes vendiam 20% de todo o bacon consumido nos EUA, hoje vendem 70%.
  • 280 mil americanos morrem todos os anos por estarem acima do peso normal e os tratamentos para a obesidade estão perto de US$ 240 bilhões e os americanos gastam mais de US$ 33 bilhões com programas de perda de peso, sendo que a obesidade está relacionada com várias doenças: problemas cardíacos, câncer do cólon, câncer do estômago, de mama, diabetes, artrite, pressão alta, infertilidade e derrames.
  • Crianças entre 6 e 10 anos, com problemas de obesidade, estão morrendo de ataque cardíaco. Entre 1983 e 1984, o número de lanchonetes fast food dobrou na Inglaterra, assim como a obesidade. Os britânicos comem hoje mais fast food que qualquer outra nação européia ocidental. E na China a proporção de adolescentes acima do peso quase dobrou na última década.
    No Japão, durante a década de 80, a venda de fast food mais que dobrou, como também a obesidade infantil e 1/3 dos homens japoneses com 30 anos – primeira geração criada com "Bi-gu Ma-Kus", está acima do peso normal.
  • Pesquisa sobre publicidade para o público infantil, feita pela União Européia mostrou: 95% dos anúncios são de comidas com altos teores de gordura, sal e açúcar. O maior número de anúncios dirigido às crianças era do McDonald's.

Por intermédio do uso da história oral e relatos humanos comoventes (entrevistas com diretores e executivos das grandes redes e da indústria de processamento de carnes, trabalhadores dessas grandes corporações, líderes sindicais e especialistas em saúde e segurança alimentar, entre outras tantas fontes) e da história tradicional, documentada e amparada em estudos técnicos, ele vai esmiuçando todo um mundo até então desconhecido da maioria. É o mundo que está por traz do hambúrguer, da batata frita, do frango, da pizza entre tantas outras variedades alimentares, servidas nos mais de 60 mil estabelecimentos de "fast food" espalhados pelo mundo.

Eric Schlosser foi muito feliz no seu projeto e, "embora tenha feito pessoalmente diversas pesquisas e entrevistas para esse livro", como ele próprio diz em suas notas complementares, ele contou com o trabalho de várias outras pessoas, para levantar dados sobre essa indústria. "A McDonald's desempenhou papel central na criação dessa indústria" (SCHLOSSER, 338).

O que o autor mostra no transcorrer da sua narrativa, que vai da poesia (quando descreve as colinas de Colorado Springs) à frieza do aço embebido em sangue (quando expõe os perigos da indústria frigorífica norte-americana), é um claro dossiê sobre como todos são envolvidos pelo marketing do "fast food", sem saber como essa indústria opera suas redes, explora a mão-de-obra jovem e sua verdadeira "preocupação" com a sanidade da comida que serve. E apesar de todas as citações serem de antes de 2001 e sem fazer uma relação direta com essa ou aquela rede (e quando faz os nomes são mostrados), é importante que se esteja atento a alguns dados e números que o livro traz, quando traz à luz os meandros da saúde pública e a contaminação dos alimentos.

São constatações surpreendentes e assustadoras:

  • Contaminação por E. coli fez Hudson Beef Patties, da Hudson Foods Columbus fazer um recall para recolher 15 milhões de quilos de carne moída processados em agosto de 1977. Até que fosse anunciado o recall, mais de 11 milhões de quilos tinham sido consumidos.
  • Todos os dias 200 mil americanos adoecem por causa de algum alimento estragado.
  • 900 são hospitalizadas e 14 morrem.
  • 1/4 da população norte-americana sofre crises de intoxicação alimentar por ano.
  • 1/3 das mortes, segundo agentes do CDC, talvez tenham sido provocados por ingestão de alimentos nos Estados Unidos ainda não identificados.
  • Um estudo em bases nacionais, do Ministério da Agricultura dos EUA, em 1996 mostraram: 7,5% das amostras de carne moída recolhidas em fábricas estavam contaminadas com Listeria monocytogenes; 30% com Staphylococcus aureus e 53,3% com Costridium perfringens. Na mostra do Ministério, 78,6% da carne moída continham micróbios que se espalham sobretudo por matéria fecal.
  • Em 1990 a carne bovina era responsável por quase metade dos empregos no campo. O americano médio comia até 3 hambúrgueres por semana, 2/3 comprados em redes de fast foods e crianças entre 7 e 13 anos comiam mais hambúrgueres que todos os demais.
  • Em janeiro de 1993 aumentou o número de crianças com diarréia hemorrágica. 200 foram hospitalizados e quatro morreram. A primeira a morrer foi uma criança, em dezembro de 1992.
  • Nos oito anos que se seguiram ao surto provocado pelo Jack in the Box, aproximadamente meio milhão de americanos, em sua maioria crianças, adoeceram em virtude do E. coli 0157:H7, milhares foram hospitalizados e centenas morreram.
  • Em 1994 no estado de Arkansas, 1,4 milhões de toneladas de esterco de galinha entraram na composição para ração de gado.
  • Na IBP de Lexington, Nebraska, 20% dos intestinos de bois espirram escrementos por todo o lado. No inverno, 1% do gado reunido nos currais de engorda é portador de E. coli 157:H7 no intestino e no verão a proporção aumenta até 50%.
  • Hoje uma fábrica processadora pode fabricar até 360 toneladas de carne para hambúrguer por dia.
  • Um único animal infectado pode contaminar 14.515 quilos de carne moída.

Uma atenção que deve ser redobrada, principalmente, pela pouca divulgação das demandas judiciais em curso contra essa grande "rede do paladar". Os processos que envolvem essa indústria, são inúmeros e já começam a ganhar maiores proporções, repetindo aquelas ocorridas há alguns anos, envolvendo a indústria do tabaco. Ongs e pessoas físicas, empenhadas e preocupadas com a saúde dos consumidores, encontram, hoje, uma mídia mais suscetível às denúncias e, a despeito do seu poder econômico, as próprias redes estão se posicionando de forma a atenderem esses apelos, introduzindo em seus cardápios as chamadas "comidas lights" ou então estampando as informações nutricionais de cada produto em suas embalagens.

E além dessa preocupação com a onda da "comida politicamente correta", é muito provável que a publicação de "País Fast Food" tenha influenciado nessas pequenas transformações num segmento até então intocado e revestido de proteção por todos os lados. Nesse aspecto fica mais fácil entender a co-relação existente entre "The Jungle" e "País Fast Food".

E alguns países da Ásia, Europa e África, por exemplo, onde as grandes redes de "fast food" já chegaram, os protestos têm se acentuado, exigindo posturas mais rígidas e normas de fiscalização efetivas, não contrárias aos lucros dessa indústria, mas em respeito à própria saúde pública. Em especial das crianças.

China, Dinamarca, Rússia, Grécia, África do Sul, França e Inglaterra, têm sido, dentre os anos de 1995 e 1999, os países onde começaram a acontecer protestos contra as redes de fast food; em especial ao McDonald's. Na França, por exemplo, o ativista José Bové liderou os protestos e destruiu um McDonald's em Millau, sua cidade de Natal.

É na Inglaterra, entretanto, onde se arrasta o mais longo e sistemático ataque contra o McDonald's. Ataques que partiram de militantes do "Greenpeace" de Londres. Em 1986 o grupo decidiu-se voltar contra o McDonald's e começou a distribuir folhetos contra a rede relatando todo o mal que ela causava, com refrões como McDólares, McCobiça, McCâncer, McMorte, McLucros e McLixo. Em 1990 a McDonald's abriu processo contra o grupo e então se deu mal, Helen Steel, uma atendente de bar, jardineira e motorista de microônibus, à época com 25 anos, e Dave Morris, de 36 anos, ex-funcionário dos correios, persistiram no caso apesar de alguns membros do grupo terem se desculpado com a rede. Com insistência e mesmo sendo espionados pela Scotland Yard e detetives contratados pelo McDonald's de 1989 a 1991, eles perderam em primeira instância, apelaram e no dia 31 de março de 1999, os três juízes do Tribunal de Apelação derrubaram o veredicto original do caso "McLibel" (como ficou conhecido), indicando que eles teriam que pagar apenas 40 mil libras, em vez das 60 mil. A própria rede disse que não queria receber nada porque queria ver o caso o mais rápido fora da mídia, uma vez que estavam cansados dos dez anos de desgaste. Helen e Dave ganharam 10 mil libras de indenização da própria polícia especial inglesa, pela espionagem que foram vítimas. O caso, hoje, está em cortes internacionais. (SCHLOSSER, 306/314).

As ações judiciais contra essas cadeias, entretanto, longe de terem um fim, prometem agitar bastante o "milk shake" dos restaurantes e pegar "pesado" nos hambúrgueres e batatas fritas. A mais recente é relativa a um processo contra a McDonald's, onde dez adolescentes americanos, que juntos pesam uma tonelada, estão alegando que a rede é responsável por seus problemas de saúde.

Em matéria publicada pela revista "IstoÉ", do último dia 15 de janeiro (O povo contra McDonald's, páginas 52/53), o jornalista Osmar Freitas Jr. conta, de Nova York, como está o andamento do processo envolvendo os dez jovens e as medidas que a rede está tomando, como o anúncio, no início deste ano, de que em breve mudará a receita e mexerá nos ingredientes tradicionais de sua linha de produtos. No Brasil, a rede fornece, desde dezembro, tabelas com valores calóricos e o perfil nutricional de seus lanches. E, na França, a filial local já fixou cartazes em suas paredes, alertando sobre os perigos do consumo freqüente desse tipo de produto.

O livro não é somente uma leitura importante, acaba sendo obrigatória para quem quiser entender as contradições da "mais moderna" e avançada sociedade, mas que ainda não se preocupa com a segurança alimentar de sua população. E como essa sociedade conseguiu exportar para o mundo um hábito tão exclusivo e regionalizado.

A origem de tudo

O livro "País Fast Food" originou-se de um artigo publicado em duas partes na revista Rolling Stone, (edição 794, de setembro de 1998) encomendado pelo seu editor, Bob Love. A idéia original, bem como o título e o objetivo que há por trás do livro, foi de Will Dana, outro editor e amigo de Eric Schlosser. Essas informações estão nas três últimas páginas do livro, onde o jornalista faz os seus "agradecimentos", e fala sobre as pessoas que o ajudaram, dando os devidos créditos a todas elas (Págs. 403 a 405).

E para o exercício da profissão jornalística, Eric Schlosser deixa, entretanto, um legado muito maior que o próprio conteúdo do "País Fast Food": a sua dedicação à pesquisa e a riqueza de detalhes com que descreve, das páginas 339 a 394, passo a passo, todo o seu trabalho para a produção do livro, em suas "notas" complementares. Ele se vale de cada capítulo, desde a Introdução ao Epílogo, para mostrar como produziu seu livro. Denúncias graves, histórias de vida, relatos poéticos e, às vezes, até cruéis, de uma dura realidade a que está submetida uma parcela da população norte-americana.

E o mais grave de tudo isso: grande parte dessa população é composta por imigrantes ilegais vindos, principalmente, do México, da Guatemala e países orientais. Mão-de-obra barata, analfabeta e que não pode reclamar seus direitos, explorada pela grande cadeia que tem na sua ponta a chamada "comida rápida". Isso tudo no país das oportunidades e da igualdade, que caçam imigrantes legais porque são árabes e deixam os ilegais trabalharem porque interessam aos deputados, senadores e ao próprio presidente republicano, cujas campanhas políticas recebem ajuda financeira dos empresários desse segmento.

Dá para afirmar, sem cair no lugar comum, que o capítulo destinado às "notas" é um livro à parte. É onde ele vai contar a história de todas as entrevistas e locais que visitou; das pessoas com quem conversou e um pouco sobre os documentos onde pesquisou. E o que não falta no livro é a descrição dos documentos e onde os conseguiu. Talvez esteja aí um dos segredos do jornalista e historiador não ter enfrentado, até o momento, nenhum processo judicial por conta de suas denúncias. Na entrevista que deu ao jornal espanhol "La Vanguardia", em abril de 2002, ele mesmo afirma que ainda não enfrentou nenhum processo porque tudo o que disse e escreveu está muito bem documentado.

E o último passo do livro é a catalogação bibliográfica, feita com o auxílio da sua mulher, Shauna Wrigth: são oito páginas contendo cerca de 125 títulos, que vão de livros de história, biografias, de economia, saúde pública e alimentar, além daqueles que tratam explicitamente da criação, evolução e sucesso das redes de "fast food". Ou seja, um árduo e longo trabalho (durou cerca de três anos) que só poderia resultar numa obra como esta.

Difícil classificá-lo dentro das 13 modalidades de livro-reportagem, propostas por Edvaldo Pereira Lima, no livro "Páginas Ampliadas", tamanha é a sua abrangência. É certo que temos por obrigação inseri-lo dentro das categorias "atualidade" e "denúncia", como as mais fortes. Não podemos nos esquecer, entretanto, de outras, como "ciência", "ambiente" e "instantâneo" e até "nova consciência". Enfim, trata-se de uma leitura bastante pessoal, que pode exigir muita reflexão e uma visão bastante crítica da sociedade atual. Em especial nesses tempos extremos de "fast food".

Além do livro de Eri Schlosser, outras publicações também tratam do assunto. Cada uma à sua maneira. Mas vale a lembrança, para quem se interessar em complementar os conhecimentos na história do "fast food", que em janeiro do ano passado, a Boitempo lançou "O Nome da Marca-McDonald's, Fetichismo e Cultura Descartável", de Isleide Fontenelle, no qual a autora, de acordo com Paulo Eduardo Arantes, professor de Filosofia da USP, fala sobre a "avassaladora máquina de moer chamada McDonald's". No livro, ela retrata a influência dessa marca e os efeitos do marketing sobre as pessoas, dizendo inclusive que algumas já estão "mcdonaldizadas".

Outro, também citado, é o "Food: The History", do historiador e professor da Universidade de Londres, Felipe Fernandez-Armesto, ainda sem tradução para o português. Num artigo publicado no "The Guardian", e traduzido por Clara Allain, publicado no caderno "Mais!", da Folha de S. Paulo, de 20 de outubro de 2002, com o título "A Civilização FAST FOOD". Ele diz que a solidão de uma pessoa que consome "fast food" é incivilizadora. O livro, entretanto, é muito mais que isso, trata sobretudo dos hábitos saudáveis que estamos deixando de ter na hora das refeições, contribuindo assim para a própria desagregação social, inclusive familiar.

E após todas essas considerações vale a pena retornar, definitivamente, à leitura do último parágrafo de "País Fast Food" transcrita neste texto e, de forma pausada e com muita atenção, ler as considerações finais feitas por Eric Schlosser sobre consumir ou não "fast food".

Quem é Eric Schlosser

Foto: Mark Mann
Graduado em História pela Princeton University, Eric Schlosser é conhecido como um dos mais premiados jornalistas investigativos dos EUA. Ele é correspondente da revista Atlantic Monthly. Em agosto e setembro de 1994, ele escreveu uma reportagem, em duas partes, sobre o endurecimento da lei contra a maconha ("Cigarro de doido" e "A maconha e a lei"), recebendo, por isso, um prêmio nacional na categoria revistas: o National Magazine Award. Em novembro de 1995, um outro artigo, "Nos campos de morango", falando sobre a indústria do morango na Califórnia, dá a ele o prêmio Fundação Sidney Hillman. Ele escreveu, também, sobre as famílias vítimas de homicídio, sobre a prisão industrial e sobre o "negócio" pornografia.

"País Fast Food" é o seu primeiro livro. Ele vem sendo chamado de "new jungle", numa referência ao livro "The Jungle" e que, por suas denúncias, causou as primeiras transformações na indústria frigorífica daquela época. E foi considerado pela imprensa norte-americana e pela crítica especializada como a "obra do ano" de 2002.

Bibliografia

  • SCHLOSSER, Eric. País Fast Food. São Paulo: Editora Ática, 2001

Notas bibliográficas

1 Novelista, ensaísta, contista e escritor de livros juvenis, Upton Sinclair nasceu em Baltimore, Maryland, EUA, em 29 de setembro de 1878, oriundo de uma família da arruinada aristocracia sulista. Seus trabalhos sempre refletiram sua visão socialista de mundo. Sinclair morreu em 25 de novembro de 1968, aos 90 anos de idade.

2 A mais famosa obra de Sinclair, publicada pela primeira vez em 1906, "The Jungle" lhe rendeu fama e fortuna, e foi reimpressa em 1981, em Nova Iorque, pela Bantam Books.

3 Voltaire Schilling, é professor de História e Mestrando na UFRGS, responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. Escreveu 8 livros e mais de 40 polígrafos, a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. É professor do Curso de Jornalismo Aplicado da RBS-RS e palestrante da AJURIS-RS. É articulista da Zero Hora-RS na página de "Opinião", colaborador do Caderno de Cultura ZH e, também, foi comentarista de assuntos internacionais, culturais e políticos do programa "Câmera 2" na TV Guaíba-RS.

4 O artigo, segundo o próprio autor, é de 2001, publicado no site www.terra.com.br/voltaire/mundo/truste.htm. Ele não consta de nenhuma outra publicação. A razão dele foi que naquela época havia o processo antimonopolista contra o Bill Gates e ele aproveitou para fazer uma analogia com o processo contra o velho John D. Rockefeller e o poder que ele exercia sobre a distribuição do petróleo nos EUA.

Leitura de apoio

Fontes de pesquisa

  • Editora Ática – www.atica.com.br – Fale Conosco – Selma Cavalcanti, Assessora de Imprensa.
  • "Clippings" dos jornais norte-americanos Washington Post, The Altanta Journal-Constituition, The New York Times, The New York Times Book Review e The Globe and Mail Metro, da época do lançamento do livro "Fast Food Nation"
  • www.google.com.br
  • www.powells.com
  • www.lavanguardia.com.es (versão "online" do jornal La Vanguardia)
  • www.theatlantic.com (versão "online" da revista Atlantic Monthly)
  • www.rollingstone.com (versão "online" da revista Rolling Stone

Este artigo foi produzido a partir do seminário apresentado dentro do Curso de Pós-graduação em Jornalismo e Novas Linguagens da Universidade Metodista de Piracicaba, Unimep, em novembro 2002, na disciplina Captações Não Diretivas, ministrada pela professora Marta Maia, em conjunto com a jornalista Kelly Camargo.

Antonio Claudio Bontorim é jornalista e aluno do Curso de Pós-graduação em Jornalismo e Novas Linguagens da Universidade Metodista de Piracicaba, Unimep.

Fonte: http://www.martamaia.pro.br/cultura_paisfastfood.asp 

Please follow and like us: