Os pequenos nos morros

Luc Vankrunkelsven

É com essas palavras que sou recebido por Marcolino Alves Leite: “Os pequenos moram nos morros”. Ele faz um esboço da situação agrícola em Sananduva, um ‘pequeno’ município no Rio Grande do Sul. Possui cerca de 60 km de diâmetro (metade de uma província, na Bélgica!) e 15 mil habitantes, dos quais 70% moram na área urbana. Portanto, a minoria – mas, ainda assim, 1.500 famílias de agricultores familiares – mora no interior, na área rural. Sidimar Lavandovski organizou uma programação intensa. Sábado: visita às feiras agroecológicas da cidade, duas entrevistas a rádios, visita ao sindicato local com suas cooperativas, visita a um dos últimos agricultores que produz soja orgânica, um produtor médio de soja transgênica, almoço numa festa a Santo Expedito, jantar com uma família que fez a conversão do sistema de produção integrada de aves para a diversidade da produção agroecológica. Domingo: futebol numa comunidade rural, visita a uma unidade de processamento de cana-de-açúcar e suco de uva, projeto etanol conduzido por agricultores, família polonesa com uma agroindústria de queijo. Segunda-feira: entrevista numa rádio comercial, palestra para o ‘Consórcio da Juventude’, palestra para 150 professores de todo o estado do Rio Grande do Sul, entrevista coletiva em Erechim.

Normal

Sábado à noite, sentado à mesa repleta da incrível diversidade de produtos das propriedades familiares, revejo o dia como num filme. Ou melhor, principalmente durante o aperitivo: um vinho licoroso feito de laranja. Delicioso!

 

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Os pequenos nos morros. Os grandes nos vales.

 

Compartilho com o grupo algumas distorções interessantes que observei ao longo do dia: ‘soja transgênica convencional’ como se a soja transgênica fosse a situação normal. ‘Eco’ para uma propriedade que cultiva 2,5 milhões clones de pinus e eucalipto. Como se um ‘reflorestamento’ com estas duas espécies exóticas pudesse dar alguma contribuição na recuperação ambiental da região. ‘Integração’. Esta palavra maravilhosa tem aqui um duplo sentido: ela é utilizada tanto para o time de futebol de amanhã quanto para o sistema de produção integrado de aves e seus produtores, que se encontram nas garras de poucas empresas multinacionais. Integração pode significar resgate e promoção das relações humanas. Futebol como um momento de integração dos diferentes projetos vinculados à Fetraf, em Sananduva. Ou seja, vida! Integração também pode significar um prenúncio do fim. O agricultor que, com suas aves e suas dívidas junto ao banco, se encontra num beco sem saída…

No Rio Grande do Sul, 90% da soja é ‘transgênica’. E desta, 99% é soja da Monsanto, tornando-se a situação convencional, ‘normal’. Infelizmente o produtor de soja transgênica não estava em casa, senão poderíamos ter ouvido seus motivos.

Normal? Há muitos anos, dei um pôster a um amigo com o texto: “Você já encontrou uma pessoa normal? Gostou do que viu?” Era um pôster imitando um espelho, para enxergar a si mesmo. Como você é.

Normal! O que é normal? O Rio Grande do Sul do espelho?

Economia – ecologia

Os dois irmãos que ainda cultivam soja orgânica estão a postos. Constatamos que eles são totalmente ‘anormais’. Tomando o costumeiro chimarrão, discutimos a situação; enquanto isso, observamos a colheita da soja transgênica na grande propriedade de seu vizinho. Uma área ondulada, mas totalmente ‘limpa’, cheia de soja, está à nossa frente. Há alguns anos ainda havia um pequeno bosque no meio da área. Pedir autorização para cortá-lo seria impossível. É que o governo deseja salvar os últimos fragmentos remanescentes de vegetação florestal. Então eles ‘dão um jeito’: todo ano, ao preparar o solo, eles ‘acidentalmente’ derrubam um pedacinho do bosque. Depois de algum tempo, não restou mais nada e até o morro foi rebaixado para tornar a área mais plana, de modo que as colhedeiras e outras máquinas agrícolas pudessem realizar seu trabalho libertador mais facilmente. Isto me faz pensar no texto ‘Soja e o lobo bravo’. Nas últimas semanas, ouvi de diversos agricultores que esta crônica retrata com exatidão o conflito entre os dois modelos agrícolas e, também, a destruição da natureza pelos ‘lobos modernos’. É com grande satisfação que descubro que as crônicas estão sendo utilizadas por Terra Solidária – e outros grupos. Como um espelho da realidade.

Soja orgânica: fora de moda? É quase impossível continuar no sistema orgânico com toda a violência da soja transgênica em volta. Mas a razão do declínio está em outro fator. Até o final da década de 1990, uma empresa comprava soja orgânica para exportar para o Japão. Quase 40 agricultores passaram a produzir soja orgânica. Num determinado momento, as exportações cessaram. E, veja só! Aparentemente a conversão ecológica da maioria não estava arraigada profundamente. Atualmente, restam apenas três produtores de soja orgânica. A soja que produzem é enviada para São Paulo e destinada ao consumo humano. Entre outros, a deste agricultor-professor. Novamente um professor! É como se eles fizessem a conversão com mais firmeza, contra a corrente dominante. Agricultores-professores em ambos os lados do oceano. Chapeau, companheiros!

Enquanto isso, a cooperativa Coopvida (‘Cooperativa da Vida’) trabalha com as alternativas. Ela constituiu diversas agroindústrias familiares para o processamento de cana-de-açúcar e suco de uva e beneficiamento de feijão. Nesta propriedade está sediado o beneficiamento de feijão. A safra do último ano está armazenada em grandes sacos e é exposta com orgulho. Este agricultor produz dez variedades de feijão. A cooperativa comercializa 14 variedades.

Milho e soja diferentes

Enquanto degustamos o licor de laranja, a conversa prossegue. A ‘situação normal da soja’, em 2007, parece ser bem distinta da normalidade conhecida até o final da década de 1990. Como bem sabemos, não há nada de errado com o milho e a soja em si. São duas espécies extraordinárias. A soja é, há milhares de anos, uma espécie sagrada na China. O mesmo ocorre com o milho na América Central há milênios. Elas integram o fundamento de culturas muito diversas. É o modelo dominante – a monocultura destas duas espécies – que traz morte e destruição. Sidimar relata: “Até uns dez anos atrás, eu ainda via os agricultores cultivarem milho e soja em consórcio. Como milho e feijão.” É realmente um consórcio extraordinário: o feijão fixa o nitrogênio gratuito do ar e o fornece ao milho. A soja ou outras fabáceas (leguminosas) fornece proteínas. O milho fornece carboidratos (energia) e muito mais. No Brasil, o milho não é destinado apenas para ração animal, como na Bélgica, mas para o preparo de polenta e outros alimentos nutritivos. Na Guatemala e em muitos outros países, o feijão e o milho ainda são cultivados em consórcio. No Brasil ainda vejo, na propriedade de muitos agricultores familiares, abóboras cultivadas em meio ao milho. As recordações continuam: “Os agricultores armazenavam, cuidadosamente, as sementes de suas variedades de soja. Atualmente, quase toda a soja é plantada simultaneamente e colhida quase na mesma época. Observa-se muita movimentação no mercado de máquinas agrícolas. É claro que isto é interessante para a indústria, que vende um número maior de colhedeiras; afinal, todos querem colher na mesma época. Antigamente, as pessoas eram mais espertas: as diferentes variedades de soja permitiam que soja e milho pudessem ser semeados em épocas diferentes na mesma safra. Até dez anos atrás, era possível colher soja de março a junho. É claro que a colheita era manual, pois era em sistema de policultivo. A mecanização e, principalmente, o monopólio das sementes acabou com isso.”

Outra pessoa continua: “Os sistemas estão se dando as mãos. Há vários anos utilizamos o sistema de plantio direto (semeadura direta após a colheita da cultura anterior, sem arar o solo), o que é bom. Mas, como é obrigatório fazer o plantio numa determinada época – em outubro –, a vegetação de inverno ainda não secou. Neste sistema, o solo não é mais arado – o que é um grande progresso, pois ocorre menos erosão. Mas, como a soja precisa ser plantada em outubro, os fazendeiros forçam a morte da vegetação de inverno aplicando Roundup ou outro herbicida à base de glifosato. A erosão diminuiu, mas o uso de agrotóxicos aumentou. Eles deviam voltar a utilizar variedades de soja que podem ser plantas em novembro ou dezembro, aí não haveria necessidade de aplicar herbicidas. É um claro exemplo de como os modelos agrícolas e seus fornecedores de insumos se mantêm mutuamente.”

Doux, a dura

Gilmar e Ivete Sagioratto são nossos anfitriões. Na época em que sua filha mais velha nasceu, em 1991, eles criavam seu primeiro lote de aves: 6500 cabeças. Eles conseguiram se manter na atividade até 2005. Eram produtores ‘integrados’ da Frango Sul, adquirida posteriormente pela empresa francesa ‘Doux’. Em francês, doux significa ‘macio’ mas, não, a abordagem desta multinacional foi – e é – extraordinariamente dura. O agricultor sempre é obrigado a fazer novos investimentos. Além disso, ele depende do ‘integrador’, que fornece todos os insumos e é comprador exclusivo da produção. Na verdade, é o mesmo sistema que conhecemos na Bélgica e na Holanda. Um sistema que, no outro lado do oceano, todos também acham ‘normal’: o agricultor como vassalo de um senhor feudal moderno, invisível. Um senhor feudal disfarçado em inúmeros acionistas. Gilmar era obrigado a atender às mudanças constantes das exigências e a fazer grandes investimentos. Percebeu que se tornava mais pobre a cada ano, com dificuldade de manter sua renda. A partir desta crise, eles mudaram o curso de suas atividades. Eles demoliram a granja de aves e voltaram à diversidade de produção de antigamente. Porém, não foi um simples retorno a práticas antigas e, sim, à sabedoria dos antigos fertilizada com os novos conhecimentos da agroecologia de hoje. Quando pergunto quantas espécies eles cultivam, constato que eles nunca haviam se preocupado em contá-las. Tudo indica que se aproxima da diversidade de Gilso, em Seara (SC), inclusive com a grande variedade de sementes próprias.

Produção de energia em escala humana

A Creral é uma cooperativa de eletrificação rural. Ela possui duas pequenas represas para geração de energia elétrica. Descentralizada e com controle na base, o que não se pode afirmar das grandes represas de Electrabel, no Brasil, ou das centrais de energia nuclear Doel e Tihange, na Bélgica. Esta mesma cooperativa está iniciando, atualmente, uma pequena usina de cana-de-açúcar numa comunidade com 17 agricultores menos favorecidos, numa localidade isolada de Sananduva. Os agricultores entregarão sua cana-de-açúcar para a produção de etanol e cachaça. O etanol é para consumo próprio dos agricultores e associados da cooperativa de Erechim. Outras 12 comunidades rurais processam sua cana-de-açúcar até obter um produto intermediário; este é refinado na usina. Eu tenho muitos questionamentos em relação à produção de etanol e biodiesel, mas neste caso o projeto-piloto parece fazer sentido. A mim, lembra o pioneiro Jan Van Humbeeck, em Flandres [Bélgica]. Ele não tem uma usina, mas extrai óleo de colza em sua propriedade. O óleo é utilizado em diversos motores. As proteínas da torta vão para seus porcos. No Brasil, a produção de etanol já está – há mais de 30 anos – nas mãos dos grandes usineiros. No caso que acabamos de relatar, não se trata de monocultura e, sim, de pequenas áreas de cana em cada propriedade. Produção de combustível para consumo próprio e de ração para o gado. Este último pode trazer consigo uma industrialização da criação de gado de leite, o que me causa alguma preocupação. O que é interessante, sim, é que a cooperativa é apoiada também pelos agricultores. Nem o óleo de colza, na Europa, nem o etanol da cana-de-açúcar representam a solução para o problema energético mundial. A produção de combustível para o parque automotivo mundial exigiria, pelo menos, seis planetas Terra. Mas, aqui nos morros, a produção de etanol representa uma diversificação bem-vinda e uma renda extra para agricultores menos favorecidos numa região muito isolada.

 

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Soja orgânica ainda existe.

 

Amanhã ainda terei que fazer uma palestra para o ‘Consórcio da Juventude’, o irmão mais novo de Terra Solidária. Neste fim de semana, novamente pude vivenciar pessoalmente quão importantes são esses processos de formação. Muitos dos processos de transformação que pudemos visitar nestes dias brotaram do primeiro ciclo de Terra Solidária, no período de 1999 a 2001. Essa formação intensa também revelou muitas lideranças rurais em todo o Sul do Brasil. Os pequenos saíram dos morros e não vão mais deixar que os diminuam.

 

Sananduva, 15 de abril de 2007.

 

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