Os passarinhos morreram

Novamente sou hóspede de José Antônio da Silva Marfil e família. Eles estão dando uma festa e, de repente, me vejo conversando com o patriarca Antônio Marfil Muela. Ele me conta o que aconteceu e eles – e a milhares de outros agricultores – nos anos 1970. Ele era cafeicultor no norte do Paraná, próximo a Londrina. Os negócios iam bem, não havia doenças, a comunidade e a economia locais floresciam. Até que lhes foi imposto o uso da “mágica química”. Surgiram vários tipos de doenças, que não podiam ser controladas a não ser utilizando ainda mais química. Antigamente havia vida na propriedade e em seu entorno. Os passarinhos mantinham a população de insetos em equilíbrio, de modo que não havia grandes prejuízos. 

Mas o veneno matou os passarinhos. Os tico-ticos e as rolinhas sumiram. E as doenças aumentavam cada vez mais.

Os agricultores se tornaram dependentes do fornecedor de sementes e agrotóxicos. Uma história já conhecida. A família Marfil Muela partiu para a cidade, como muitas outras. No caso deles, foram para Curitiba, onde eles começaram com uma pequena mercearia. José Antônio se pergunta: “Por que isto tinha que acontecer? Será que foi porque a indústria precisava de mão-de-obra barata e concluiu que ela deveria vir do meio rural ‘atrasado’?” 

De acordo com Antônio Marfil, a economia e a vida no meio rural foram destruídas de propósito. No ônibus de Curitiba a Guarapuava, meu vizinho suspira: “No Brasil, enquanto um trabalha, dez são obrigados a ficar de braços cruzados.” Não que eles não queiram trabalhar. Pelo contrário, é que não lhes dão chance. Muitos outros estão aguardando na fila. 

Dezenas de anos mais tarde, o Governo Lula tenta sanar o problema. Exatamente nesta semana foi lançado o programa “Territórios da Cidadania”. Serão 135 ações, coordenadas por 15 ministérios, para restabelecer o desenvolvimento regional. O governo espera alcançar, principalmente, as regiões menos desenvolvidas do interior e, assim, reduzir as imensas desigualdades no país. Para o ano de 2008 está previsto o investimento de 11,3 bilhões de reais. Na região de Guarapuava, várias entidades trabalham há anos na “inclusão” social, ao invés de “exclusão”. Um projeto de cinco anos está encerrado agora, com resultados bastante diversos. É um dos muitos projetos realizados no Brasil para manter as pessoas no campo e fora das favelas.

Exatamente agora as Nações Unidas divulgaram um relatório chocante. Conclusão: “O Brasil é corrupto, violento e racista”. Três golpes seguidos. Será que um está relacionado ao outro? Pessoas que se amontoam – imersas em violência – nas favelas das cidades, porque a vida no campo foi arrancada de suas mãos? O relatório afirma que o número de vítimas fatais entre adolescentes de 15 a 19 anos quadruplicou nos últimos 20 anos. A Unicef confirma que, em 2003, foi alcançado o triste recorde de 7900 mortes. 

Os passarinhos estão morrendo.

Jovens são mortos a tiros.

Porque a luz nos olhos de seus algozes desapareceu. 

Luc Vankrunkelsven,

Bocaiúva do Sul, 25 de fevereiro de 2008.

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