Alimento para pensar

Os freegans são vegans trapaceiros?

O site Freegan.info utiliza o termo freegan para definir uma pessoa que, baseada em uma objeção ao capitalismo e a exploração que ele cria, encontra modos de viver fora da economia monetária, utilizando-se de recursos desperdiçados – bens descartados (para comida, roupas, literatura, etc.), casas abandonadas (para squats), lotes vagos (para jardins), etc.

Mas é provável que você tenha ouvido aquela "outra" definição de freegan. Você sabe qual – aquela sobre a pessoa que normalmente é vegan, mas quando alguém dá a ela metade de um sanduíche de presunto, e já que a pessoa não pagou por ele, ela diz que é "freegan" e o come. Basicamente, alguém procurando por brechas para continuar comendo carne.

A primeira vez que eu ouvi o termo freegan também foi no contexto desta definição menos lisonjeira. Eu não me lembro quando ouvi pela primeira vez a palavra, mas eu me lembro da primeira vez que eu a ouvi utilizada em um sentido mais positivo. Foi por volta de 1995 em Seattle, Washington, enquanto eu estava descrevendo meu estilo de vida e a pessoa que estava comigo, um ativista da Rede Noroeste de Direitos dos Animais me disse que eu era um freegan. Eu acho que na época eu mostrei a diferença entre a definição nada lisonjeira que eu havia ouvido e o modo muito mais atraente que ele entendia a palavra como diferenças regionais de uso.

Por anos depois, eu não me identificava com o termo por causa das associações negativas que muitos vegans têm com a palavra, baseados na definição mais negativa. Com o tempo eu cheguei à conclusão que de fato a definição que o site freegan.info usa é na realidade a correta, e que o outro uso veio de pessoas que entenderam errado o conceito e o explicaram assim para outros e então repassando essa definição incorreta sucessivamente.

Meu palpite sobre o que aconteceu foi que vegans estritos ficaram horrorizados ao verem pessoas comendo produtos animais jogados fora e ao questionarem porque pessoas preocupadas com direitos dos animais estavam comendo tais coisas tiveram a resposta que "É freegan." O que, é claro, é verdade – qualquer comida que é descartada é comida freegan. É claro que o ato de comer comida descartada não-vegan não é a DEFINIÇÃO de freegan, da mesma forma que a definição de um vegan não é alguém que come brócolis. Alguns freegans comem carne descartada. Outros não. Da mesma forma que alguns vegans comem brócolis e outros, eu imagino, não gostam. Ser freegan não requer nem exclui alguém de comer alguma coisa que foi descartada. Dito isso, muitos freegans são freegans por causa das práticas exploratórias responsáveis pela criação dos bens cotidianos. Eles não desenham linhas imaginárias entre carne de animais torturados ou uvas cultivadas por trabalhadores cruelmente explorados ou café cultivado onde antes ficava uma floresta que foi desmatada para a plantação. Para um freegan, qualquer coisa que compramos é moralmente suspeito, e recuperando coisas sem contribuir para continuar a produção desses produtos com o nosso dinheiro é um imperativo moral. Para muitos freegans, comer um bife do lixo parece MUITO mais ético do que comprar comida vegan em que sua produção contribuiu para uma infinidade de formas de exploração raramente consideradas pela maioria dos vegans.

Para o vegan típico esta é uma mensagem desconfortante – ela sugere que ao invés de ficar apontando os outros, eles precisam olhar mais profundamente em suas próprias práticas de consumo. É muito mais fácil culpar os outros do que se sentir responsável, então eu suspeito que muitos vegans convenientemente ignoram as políticas mais amplas dos freegans focalizando em criticar ALGUNS freegans por comer carne. Como resultado, o freeganismo em suas mentes se tornou alguém que irá comer carne se for para o lixo – um "trapaceiro".

De qualquer forma, esta é minha teoria.

Se você observar o ensaio "Porquê Freegan?", o ensaio mais velho e mais circulado que eu já vi no assunto sobre freeganismo, ele oferece uma definição muito similar da utilizada pelo site Freegan.info.

Então no final, talvez fosse muito mais simples inventar uma nova palavra, já que existe tanta confusão sobre esta. Mas ao mesmo tempo, esta palavra foi criada para significar algo, e parte de mim quer recuperá-la ao invés de cedê-la às pessoas que não a entendem, se sentem ameaçadas por ela, ou ambas. Eu também me chamo de um anarquista sem apologia, apesar de muitas pessoas terem associações negativas com ESTE termo…

Fonte: http://freegan.info/?page=Portugues 

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