Os escravos da indústria internacional do fumo

Trabalhar ao lado dos consumidores é bom e exige fôlego, mas provocar mudanças no lado dos produtores é, se possível, ainda mais difícil. Recentemente eu estive em Curitiba, como convidado de ‘Terra de Direitos’ (2). É um grupo interessante, composto de advogados que, vinculados com o movimento dos sem-terras MST e CPT, denunciam aos muitas violações no meio rural e tentam defender as vítimas. ‘Terra de direitos’ surgiu a partir do ‘Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio e da Política Governamental de Violação dos Direitos Humanos no Paraná’, realizado nos dias 1o e 2 de maio de 2001 (3). Eles são membros de uma rede mais ampla de advogados que presta serviços a movimentos populares, a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP).

O interessante é que este novo grupo de advogados sempre parte da realidade local, mas fazem o vínculo com o global. “Pensar globalmente, agir localmente”, também na defesa dos camponeses, da biodiversidade, da terra e contra despejos forçados na área rural e urbana. Reconheço em seu modo de pensar e agir a maneira pela qual Wervel tenta abordar as questões, muito embora nós não sejamos, é claro, advogados. Mas há possibilidades de colaboração.

Tomemos, por exemplo, o fumo. A conversa evolui rapidamente nessa direção, já que eles acabaram de divulgar um levantamento interessante a respeito: ‘Fumo, escravidão moderna e violação dos direitos humanos’ (4).

O Brasil aparece como o segundo produtor mundial, depois da China, mas é o primeiro na exportação de folhas de fumo. O item está em ascensão e o fumo é um dos principais produtos agrícolas de exportação. Somente a soja e o café superam o valor das exportações de fumo. A produção está localizada principalmente no sul do Brasil, feita por agricultores familiares com pouca terra. Para ser exato, 92,7% do cultivo ocorre na Região Sul do país. A maioria dos agricultores possui propriedades com 17,9 hectares e utiliza, em média, 2,5 hectares para o cultivo da espécie que Cristóvão Colombo recebeu, há cinco séculos, dos indígenas. Os nativos utilizavam o fumo principalmente em virtude de suas propriedades medicinais. Agora, a planta causa a morte de milhões de consumidores anualmente. Além disso, a antiga liberdade da população nativa se perdeu completamente, pois quase todo o fumo é cultivado sob contrato e destinado a multinacionais (principalmente norte-americanas). Estas criam dependência para os agricultores, tanto pelo fornecimento das mudas e de agrotóxicos extremamente perigosos quanto pela compra das folhas de fumo. Neste processo tóxico, é utilizada muita mão-de-obra infantil das famílias de agricultores. Os pais encontram-se sob muita pressão, tornaram-se totalmente dependentes de poderes internacionais, invisíveis, e não têm nenhuma participação na formação dos preços impostos. O suicídio é muito comum entre os produtores de fumo: sua situação é, freqüentemente, sem perspectivas e eles têm muito veneno à mão. No livro há um gráfico dos suicídios na região do Vale do Rio Pardo (Rio Grande do Sul), com uma média de 11 pessoas por ano. Onze pessoas por ano, que desistiram de viver! Isto confirma o que eu já havia observado em 2000, que o Rio Grande do Sul apresenta o maior índice de suicídios de todo o Brasil.

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