Os desmatadores são os sem-terra?

Há anos se insinua que não são os grandes fazendeiros e sim os sem-terra que são os grandes desmatadores. Assim, o governador e fazendeiro Blairo Maggi pode afirmar com orgulho que ele possui 110.000 ha de floresta virgem, mas ele esquece de mencionar que, para ter seus 150.000 ha de monocultura de soja, ele precisou desmatar primeiro… “Totalmente legal”, é a resposta.

Se ele realizou pessoalmente o desmatamento ou queima da vegetação é uma outra questão. Nas últimas décadas, era costume utilizar pessoas pobres para esse trabalho. Elas faziam o trabalho sujo e depois eram dispensadas (1). 

Limpar: esta é a missão 

Agora a Polícia Federal apresenta um dossiê mostrando que as acusações aos sem-terra frequentemente não têm fundamento. Naturalmente, os membros do MST também realizaram desmatamentos ao longo dos anos em seus acampamentos e assentamentos. Aliás, a consciência ambiental nesses meios também aumentou gradativamente. A prioridade era – e é – a luta social, devido à terrível concentração de terras nas mãos de uma pequena elite. Terras que também, em muitos casos, foram adquiridas ilegalmente.

Constatou-se que os assim chamados sem-terra no centro-sul do Paraná foram utilizados pelos fazendeiros para desmatar suas propriedades. Chamam a isso de “limpar a área”. O valor de uma terra expurgada pode aumentar de 3 mil reais/ha para 30 mil reais/ha. Por muito menos, pessoas empunhariam a bandeira do MST e então, na surdina, empregam “pseudos” sem-terra para “valorizar” a propriedade. A polícia confirma: “Nós nos deparamos com bandeiras vermelhas. Quando vamos investigar, verificamos que os desmatadores ilegais não são do MST, mas outras pessoas pobres, contratadas pelo fazendeiro.” 

Cinco maneiras de burlar a fiscalização: 

  1. Colaboração entre um sem-terra e uma serraria

 

    Pessoas interessadas em um pedaço de terra para lavoura ocupam as fazendas com muita mata nativa. Nesse momento, já existe um acordo com uma serraria, que compra a madeira. Eles pagam uma parte em dinheiro e outra parte em material, a fim de construir fornos para produção de carvão vegetal. 

  1. Colaboração entre um sem-terra e um fazendeiro

 

    Sem autorização legal para explorar a floresta nativa, o proprietário da fazenda contrata sem-terra “falsos” para fazer o serviço. Os serviços de fiscalização ambiental podem flagrar os assim chamados sem-terra, mas encontram dificuldades em responsabilizá-los. 

  1. Acordo entre o fazendeiro e a serraria

 

    Sem muito medo de serem descoberto, o proprietário das terras negocia com o comerciante de madeira para limpar a área. Toda madeira cortada é da serraria. Enquanto isso, o valor das terras do fazendeiro pula de 3 mil reais/ha para 30 mil reais/ha. 

  1. Pequenos proprietários

 

    Já acostumados a explorar a floresta, eles cortam árvores para vender a madeira. Também desmatam para fazer lenha e produzir carvão e para ampliar a área de lavoura. Em muitos casos eles praticam a “roça de toco”: plantam as culturas entre os troncos que permanecem na área. 

  1. Corte seletivo dos fazendeiros

 

    Para escapar do controle por satélite, os proprietários de grandes áreas optam por um “corte seletivo”. Num primeiro momento, eles cortam as árvores mais rentáveis. Em seguida, removem gradualmente as outras árvores, até que, finalmente, o terreno “está limpo”. Nesse ponto, ele está pronto para a agricultura ou para o plantio de pínus e eucalipto. 

Conseguiu acompanhar? Essa é a prática no centro-sul do Paraná. Paraná, um estado relativamente pequeno e muito “europeu”, onde a fiscalização ainda é relativamente fácil (2). Como será que eles enfrentam essa questão mais ao norte, no Pará, Mato Grosso, Amazonas, onde às vezes você viaja 500 quilômetros sem encontrar viv’alma? 

    Luc Vankrunkelsven,

    Anchieta, 24 de março de 2009. 

  1. Veja “Soja e escravidão”, em “Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano”.
  2. Enquanto escrevo este texto, um parlamentar me conta que existe atualmente um debate feroz, especialmente na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, outro estado “europeu”. Alguns deputados querem se livrar da lei federal que prevê que, dependendo da largura de um rio, é proibido o desmatamento de, pelo menos, 30 metros em cada margem. Eles querem reduzir isso para 5 metros! O lobby é forte e os pequenos proprietários são utilizados como argumento: frequentemente, suas pequenas propriedades fazem divisa com um rio. Com a aplicação da lei federal – que determina a preservação de, no mínimo, 30 metros de mata ciliar – eles perderiam literalmente as terras de onde tiram seu sustento. É um pouco hipócrita, porque os pequenos são frequentemente utilizados para “limpar” as áreas sendo, em seguida, expulsos ou comprados. Assim, fazendeiros com o seu gado ou soja ocupam as margens dos rios. No entanto, como ocorre no Paraná, é possível encontrar soluções para os pequenos, os agricultores familiares. Com as práticas agroflorestais eles podem, tranquilamente, permanecer nas margens dos rios e enriquecer o meio ambiente em vez de poluí-lo. Nesse sentido, o projeto agroflorestal de Barra do Turvo desempenha uma importante função de convencimento junto aos políticos.

    Já que falamos da Europa: alguém sabe quantos metros se exige em Flandres [Bélgica]? Vejo apenas uma trilha ao lado dos rios. Nenhum sinal da mata original. Essa já foi derrubada no século XIII.

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