Os Bichos – território e metamorfoses

Os Bichos

território e metamorfoses[1]

 

Jean Baudrillard

 

O que queriam os carrascos da Inquisição? A confissão do Mal. Era preciso dizer aos acusados que eles eram culpados apenas por acidente, pela incidência do princípio do Mal na ordem divina. Assim, a confissão restituía uma causalidade confortante, e o suplício, a exterminação do mal no suplício era apenas o coroamento triunfal (nem sádico nem expiatório) do fato de se ter produzido o Mal como causa. Senão a menor heresia teria posto sob suspeita toda a criação divina. Da mesma forma, quando nós usamos e abusamos dos bichos nos laboratórios, nos foguetes, com essa ferocidade experimental, em nome da ciência, qual confissão buscamos extorquir sob o escalpelo e os eletrodos?

 

Justamente a confissão de um princípio de objetividade do qual a ciência jamais possui garantia, pelo qual ela se desespera secretamente. Deve-se dizer aos bichos que eles não são, que a bestialidade, a selvageria, com o que elas implicam de ininteligibilidade, de estranheza radical para a razão, não existem, mas que, ao contrário, os comportamentos mais bestiais, mais singulares, mais anormais se resolvem na ciência, em mecanismos psicológicos, em conexões cerebrais etc. Deve-se destituir os bichos de bestialidade, e seu princípio de incerteza.

 

A experimentação não é apenas um meio para se chegar a um fim, ela é um desafio e um suplício atuais. Ela não funda uma inteligibilidade, ela extorque uma confissão científica como se extorquia outrora uma profissão de fé. Confissão de que os afastamentos evidentes, da doença, da loucura, da bestialidade, são apenas fissuras provisórias na transparência da causalidade. Essa prova, como outrora aquela da razão divina, deve se refazer continuamente e em todos os lugares – nesse sentido somos todos bichos, e bichos de laboratório, que são testados continuamente para extorquir comportamentos reflexos, os quais são igualmente confissões de racionalidade em última instância. Em todos os cantos a bestialidade deve dar lugar à animalidade reflexa, que exorciza uma ordem do indecifrável, do selvagem, da qual precisamente para nós os bichos, pelo seu silêncio, permanecem a incarnação.

 

Portanto os bichos nos têm precedido na via do extermínio liberal. Todos os aspectos do tratamento moderno dado aos animais retraçam as peripécias da manipulação humana, da experimentação ao forcing industrial dos criadouros.

 

Reunidos em um congresso em Lyon, os veterinários europeus se mostram inquietos com as doenças e problemas psíquicos que se desenvolvem nos criadouros industriais.

(Science et Avenir, julho de 1973).

 

Os coelhos desenvolvem uma ansiedade mórbida, se tornam coprófagos e estéreis. Parece que de nascença o coelho é um “inquieto”, um “inadaptado”. Sensibilidade maior às infecções, ao parasitismo. Os anticorpos perdem sua eficácia, as fêmeas se tornam estéreis. Espontaneamente, se se pode dizer, a mortalidade cresce.

 

A histeria dos frangos atinge todo o grupo, tensão “psíquica” coletiva que pode atingir um patamar crítico: todos os animais se põem a voar e a gritar em todos os sentidos. Terminada a crise, é a destruição, terror geral, os animais se refugiam nos cantos, mudos e como que paralisados. Ao primeiro choque, a crise recomeça. Ela pode durar várias semanas. Se se deixa de dar os tranqüilizantes…

 

O canibalismo ocorre entre os porcos. Os animais ferem-se a si mesmos. Os bezerros se põem a lamber tudo que os rodeiam, às vezes até a morte.

 

“Deve-se constatar que os animais de criadouros sofrem psiquicamente… Um zôo-psiquiátrico se torna necessário… O psiquismo de frustração representa um obstáculo ao desenvolvimento normal.”

 

Pouca iluminação, brinquedos, iluminação vermelha, tranqüilizantes, nada adianta. Entre os galináceos existe uma hierarquia de acesso ao alimento, o pick order. Nessas condições de superpopulação, os últimos na ordem não chegam a se alimentar. Tem-se tentado então suprimir o pick order e democratizar o acesso ao alimento através de um outro sistema de repartição. Fracasso: a destruição dessa ordem simbólica ocasiona a confusão total entre os galináceos, e uma instabilidade crônica. Belo exemplo de absurdo: sabe-se os estragos análogos que a boa vontade democrática tem conseguido fazer nas sociedades tribais.

 

Os animais somatizam! Extraordinária descoberta! Cânceres, úlceras gástricas, infartos do miocárdio entre ratos, entre porcos, entre frangos!

 

Em conclusão, diz o autor, parece que o único remédio é espaço – “um pouco mais de espaço, e muitos dos problemas observados desapareceriam”. De qualquer modo, “o destino desses animais se tornaria menos miserável”. Portanto ele fica satisfeito com o congresso: “As preocupações atuais concernindo o destino dos animais de criadouros vêm então unir, uma vez mais, a moral e o interesse”. “Não se pode simplesmente fazer qualquer coisa com a natureza”. Os problemas se tornando graves a ponto de prejudicar a rentabilidade da empresa, essa baixa do lucro pode fazer com que os criadores forneçam aos animais condições de vida mais normais. “Para se ter uma criação sã, deve-se de agora em diante se ocupar também do equilíbrio mental dos animais”. E ele entrevê o tempo em que se enviará os animais, como os homens, ao campo, para restaurar esse equilíbrio mental.

 

Jamais se disse de forma melhor o quanto o “humanismo”, a “normalidade”, a “qualidade de vida” não são mais que uma peripécia da rentabilidade. O paralelo é claro entre esses animais doentes de mais-valia e o homem da concentração industrial, da organização científica do trabalho, das fábricas à cadeia. Nelas também os “criadores” capitalistas foram levados a uma revisão dolorosa do modo de exploração, inovando e reinventando a “qualidade de trabalho”, o “enriquecimento de tarefas”, descobrindo as ciências “humanas” e a dimensão “psico-sociológica” da fábrica. Só a morte sem apelo torna o exemplo dos animais mais resplandecente que aquele dos homens na cadeia.

 

Contra a organização industrial da morte, os animais não têm outro recurso, outro desafio possível além do suicídio. Todas as anomalias descritas são suicidarias. Essas resistências são um fracasso da razão industrial (baixa do lucro), mas sobretudo sente-se que elas se chocam contra os especialistas na sua razão lógica. Na Lógica dos comportamentos reflexos e do animal-máquina, na lógica racional, essas anomalias são inqualificáveis. Vai-se então gratificar os animais de psiquismo, de um psiquismo irracional e desequilibrado, consagrado à terapia liberal e humanista, sem que o objetivo final tenha jamais alterado: a morte.

 

Surge assim, com simplicidade, o psiquismo do animal como um campo científico novo e inexplorado, logo que ele se revela inadaptado à morte que lhe é preparada. Da mesma forma surge a psicologia, a sociologia, a sexualidade dos presidiários, logo que se torna impossível encarcera-los pura e simplesmente[2].

 

Descobre-se que o detento tem necessidade de liberdade, de sexualidade, de “normalidade” para suportar a prisão, da mesma forma que os animais industriais têm necessidade de uma certa “qualidade de vida” para morrer nas normas. E nada disso é contraditório. O trabalhador também tem necessidade de responsabilidade, de autogestão para melhor responder ao imperativo produtivo. Todo homem tem necessidade de um psiquismo para ser adaptado. Não há outra razão para o advento do psiquismo, consciente ou inconsciente. E sua idade de ouro, que ainda perdura, coincide com a impossibilidade de uma socialização racional em todos os domínios. Jamais haveria ciências humanas nem psicanálise se não tivesse sido miraculosamente possível reduzir o homem a comportamentos “racionais”. Toda descoberta do psicológico, cuja complexidade pode desabrochar ao infinito, vêm apenas da impossibilidade de explorar à morte (os trabalhadores), de encarcerar à morte (os detidos), de engordar à morte (os bichos), segundo a estrita lei das equivalências:

 

    tanto de energia calórica e de tempo = tanto de força de trabalho

    tal delito = tal castigo equivalente

    tanto de alimento = peso ótimo e morte industrial.

 

Na medida que isso é travado, nascem o psiquismo, o mental, a nevrose, o psico-social etc., e de modo nenhum para romper essa equação delirante, mas para restituir o princípio de equivalências comprometido.

 

Como bestas de carga, eles têm que trabalhar para o homem. Como bestas-rés, eles são intimados a responder o interrogatório da ciência. Como bestas de consumo, eles são transformados em carne de açougue industrial. Como bestas de somatização, eles são obrigados a falar hoje em dia a linguagem “psi”, e responder sobre seu psiquismo e as más ações do seu inconsciente[3]. O que acontece a eles é o que nos acontece. Nosso destino nunca foi separado do deles, o que constituiu uma espécie de revanche amarga sobre a Razão Humana, que é usada para edificar o privilégio absoluto do Humano sobre o Bestial.

 

Os bichos somente passaram ao estatuto de inumanidade ao fio do progresso da razão e do humanismo. Lógica paralela àquela do racismo. Só há “reino” animal objetivo depois que há o Homem. Seria cansativo refazer a genealogia de seus estatutos respectivos, mas o abismo que os separa hoje em dia, aquele que permite que se envie os bichos para responder em nosso lugar nos universos terrificantes do espaço e dos laboratórios, aquele que permite liquidar espécies inteiras arquivando-as como espécimes nas reservas africanas ou nos infernos dos zoológicos – pois não há mais lugar para eles na nossa cultura, assim como para os mortos – tudo coberto por um sentimentalismo racista (os bebês foca, Brigitte Bardot), esse abismo que os separa é posterior à domesticação, da mesma forma que o verdadeiro racismo é posterior à escravidão.

 

Em outros tempos os bichos possuíam um caráter mais sagrado, mais divino que o dos homens. Na verdade não há reino “humano” entre os primitivos, e por longa data a ordem animal é a ordem referencial. Só o animal é digno de ser sacrificado, no que respeita a deus. O sacrifício do homem vem só depois, segundo uma ordem degradada. Os homens se qualificam por afiliação ao animal: os Bororos “são” araras.  Não se trata de ordem pré-lógica ou psicanalítica – nem de ordem mental de classificação, a qual Lévi-Strauss reduziu a efígie animal (ainda que seja fabuloso que os animais tenham podido servir de língua, isso também fazia parte da sua divindade) – não, significa que Bororos e araras são parte de um ciclo, e que a figura do ciclo exclui toda partição de espécies, todas as oposições distintivas sobre as quais nós vivemos. A oposição estrutural é diabólica, ela divide e afronta identidades distintas: tal é a partição do Humano, que rejeita os bichos no Inumano – o ciclo, ele, é simbólico: ele abole as posições em um encadeamento reversível – nesse sentido, os Bororos “são” araras, que é o mesmo sentido que os Canaque dizem que os mortos passeiam entre os vivos. (Será que Deleuze visa alguma coisa do tipo no seu tornar-se animal e quando diz “Seja a pantera rosa!”?)

 

De algum modo, os animais sempre tiveram, até nós, uma nobreza divina ou sacrificial narradas por todas as mitologias. Mesmo a morte na caça é ainda uma relação simbólica, ao contrário da dissecação experimental. Mesmo a domesticação é ainda uma relação simbólica, ao contrário da criação industrial. Basta ver o estatuto dos bichos na sociedade camponesa. E não se deveria confundir o estatuto de domesticação, que supõe uma terra, um clã, um sistema de parentesco do qual os bichos fazem parte, com o estatuto do animal de interior – única espécie de animais que nos resta fora das reservas e dos criadouros – cães, gatos, passarinhos, hamsters, todos empalados na afeição de seu dono. A trajetória que tem seguido os animais, do sacrifício divino ao cemitério para cães com música ambiente, do desafio sagrado ao sentimentalismo ecológico, mostra bem a vulgarização do próprio estatuto do homem – que ainda uma vez mais descreve uma reciprocidade imprevista entre os dois.

 

Particularmente nosso sentimentalismo direcionado aos bichos é o signo indubitável do nosso desprezo em relação a eles. Ele é proporcional a esse desprezo. É à medida do seu afastamento na irresponsabilidade, no inumano, que o animal se torna digno do ritual humano de afeição e de proteção, da mesma forma que a criança à medida do seu afastamento no estatuto de inocência e de infantilidade. O sentimentalismo não é mais que a forma infinitamente degradada da bestialidade. Comiseração racista, nós travestimos os bichos a ponto de eles mesmos se tornarem sentimentais.

 

Aqueles que sacrificavam os animais antigamente não os tomavam por bichos. E mesmo a Idade Média que os condenava e os castigava dentro das formalidades era muito mais próxima deles do que nós, a quem essa prática causa horror. Eles os tinham como culpáveis: o que era lhes fazer honra. Nós os temos como nada, é sobre essa base que somos “humanos” com eles. Não os sacrificamos mais, não os punimos mais, e ficamos orgulhosos, mas é simplesmente porque nós temo-los domesticados, pior: porque fizemos um mundo racialmente inferior, até mais digno de nossa justiça, onde é totalmente razoável nossa afeição e a caridade social, até mais digno de castigo e da morte, mas onde é totalmente razoável a experimentação e o extermínio como carne de açougue.

 

É a assimilação de toda violência relacionada a eles que produz hoje em dia a monstruosidade dos bichos. À violência do sacrifício, que é aquela da “intimidade” (Bataille), sucedeu a violência sentimental ou experimental, que é aquela da distância.

 

A monstruosidade mudou de sentido. Aquela original dos bichos, objeto de terror e de fascinação, mas nunca negativa, sempre ambivalente, objeto de troca e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, nos bestiários heráldicos, e até nos nossos sonhos e fantasmas – essa monstruosidade, rica de todas as ameaças e de todas as metamorfoses, que se resolve secretamente na cultura viva dos homens e que é uma forma de aliança, nós a trocamos por uma monstruosidade espetacular: aquela do King-Kong arrancado da sua selva e transformado em vedete de music-hall. Num só golpe, o cenário cultural é invertido. Antes, os heróis culturais destruíam o bicho, o dragão, o monstro – e do sangue derramado nasciam as plantas, os homens, a cultura; hoje em dia é o bicho King-Kong que vem pilhar as metrópoles industriais, que vem nos libertar de nossa cultura, morta de ser expurgada de toda monstruosidade real e de ter rompido o pacto com ela (que se exprimia no filme pelo dom primitivo da mulher). A sedução profunda do filme vem dessa inversão de sentido: toda a humanidade é passada para o lado da bestialidade cativa, e da sedução respectiva da mulher e do bicho, sedução monstruosa de uma ordem para outra, o humano e o bestial. Kong morto por ter reconciliado-se, pela sedução, com essa possibilidade de metamorfose de um reino no outro, com essa promiscuidade incestuosa, ainda que jamais realizada, senão num modo simbólico e ritual, entre os bichos e os homens.

 

No fundo, o caminho que tem seguido os bichos não é diferente daquele da loucura e da infância, do sexo e da negritude. Lógica da exclusão, da reclusão, da discriminação e necessariamente, por sua vez, lógica da reversão, violência reversível que faz com que a sociedade inteira termine por se alinhar sobre os axiomas da loucura, da infância, da sexualidade e das raças inferiores (expurgadas, deve-se dizer, da interrogação radical que elas fariam pesar sobre o próprio âmago da sua exclusão). A convergência do processo de civilização é notável. Os bichos, como os mortos, e tantos outros, têm seguido esse processo ininterrupto de anexação para exterminação, que consiste em liquidar, depois em fazer falar as espécies desaparecidas, em lhes fazer passar o testemunho de seu desaparecimento, fazer falar os bichos, como se fazia falar os loucos, as crianças, o sexo (Foucault). Isso é muito mais alucinante para os bichos, cujo princípio de incerteza que eles fazem pesar sobre o homem, desde sua ruptura de aliança com ele, reside no fato de que eles não falam.

 

O desafio da loucura tem sido respondido historicamente com a hipótese do inconsciente. O Inconsciente é esse dispositivo logístico que permite pensar a loucura (e de forma mais geral qualquer formação estranha e anômala) num sistema de sentido ampliado ao sem-sentido e que ganharia seu lugar dos terrores do insensato, a partir de então inteligíveis sob as espécies de um certo discurso: psiquismo, pulsão, recalcamento etc. São os loucos que nos têm forçado à hipótese do inconsciente, mas em contrapartida somos nós que acabamos fazendo disso uma armadilha para eles. Pois se, num primeiro momento, o Inconsciente parece se voltar contra a Razão e portar assim uma subversão radical, se ele parece ainda carregado do potencial de ruptura da loucura, mais tarde ele se volta contra ela, pois ele permite anexa-la a uma razão mais universal que a razão clássica.

 

Os loucos eram outrora mudos, hoje em dia todo mundo está a sua escuta, encontrou-se a grade sobre a qual recolher suas mensagens absurdas e indecifráveis. As crianças falam, não são mais seres ao mesmo tempo estranhos e insignificantes para o universo adulto – as crianças significam, elas são tornadas significantes – não para alguma “libertação” de sua palavra, mas porque a razão adulta se dotou dos meios mais sutis para afastar a ameaça de seu silêncio. Os primitivos também são entendidos, se os solicita, se os escuta, não são mais bichos. Lévi-Strauss bem disse que suas estruturas mentais eram as mesmas que as nossas, a psicanálise os ligou ao Édipo e à libido – todos os nossos códigos têm funcionado bem, e eles têm respondido. Se se havia os enterrado sob o silêncio, enterra-se hoje sob a palavra, palavra “diferente” certamente, mas sob o mote da “diferença”, como outrora sob aquele da unidade da Razão, não nos enganemos nisso, é a mesma ordem que avança. Imperialismo da razão, neo-imperialismo da diferença.

 

O essencial é que nada escape ao império do sentido, à partilha do sentido. Certamente, por trás de tudo isso, ninguém nos fala, nem os loucos, nem os mortos, nem as crianças, nem os selvagens, e no fundo nós não sabemos nada deles, mas o essencial é que a cara da Razão foi salva, e que tudo escapa ao silêncio.

 

Os animais, não falam. Num universo de fala crescente, de constrangimento para a confissão e a fala, só eles permanecem mudos, e desse fato eles parecem recuar para longe de nós, para trás do horizonte da verdade. Mas é isso que faz com que tenhamos intimidade com eles. Não é o problema ecológico que é importante. É ainda e sempre aquele do seu silêncio. Em um mundo em vias de não fazer nada além de falar, em um mundo reunido à hegemonia dos signos e dos discursos, seu silêncio pesa cada vez mais sobre nossa organização do sentido.

 

Certamente lhes fizeram falar, e de todas as formas, umas menos inocentes do que outras. Eles têm falado o discurso moral do homem na fábula. Eles têm suportado o discurso estrutural na teoria do totemismo. Eles entregam todos os dias sua mensagem “objetiva” – anatômica, psicológica, genética – nos laboratórios. Eles têm servido alternadamente de metáfora para as virtudes e os vícios, de modelo energético e ecológico, de modelo mecânico e formal na biônica, de registro fantasmático pelo inconsciente e, mais recentemente, de modelo de desterritorialização absoluta do desejo no “tornar-se animal” de Deleuze (paradoxal: tomar o animal como modelo de desterritorialização embora ele seja por excelência o ser do território).

 

Nisso tudo, metáfora, cobaia, modelo, alegoria (sem esquecer seu “valor de uso” alimentar), os bichos têm um discurso obrigatório. Em nenhum lugar eles falam verdadeiramente, já que eles só fornecem respostas que lhes são demandadas. É a maneira deles de reenviar o Humano a seus códigos circulares, por trás dos quais seu silêncio nos analisa.

 

Nunca se escapa à reversão que se segue a qualquer exclusão. Recusar a razão aos loucos leva cedo ou tarde a desmantelar as bases dessa razão – os loucos se vingam de algum modo. Recusar aos bichos o inconsciente, o recalcamento, o simbólico (confundido com a linguagem) é, cedo ou tarde, se pode esperar, em uma espécie de desenvolvimento ulterior àquele da loucura e do inconsciente, tornar a pôr em causa a validade desses conceitos, tal como eles nos regem hoje em dia, e nos distinguem. Pois se antes o privilégio do Homem estava fundado sobre o monopólio da consciência, hoje em dia ele é fundado sobre o monopólio do inconsciente.

 

Os bichos não possuem inconsciente, bem se sabe. Eles sonham sem dúvida, mas trata-se de uma conjetura de ordem bio-elétrica, e a linguagem lhes falta, a qual só dá um sentido ao sonho inscrevendo-o na ordem simbólica. Podemos criar fantasmas sobre eles, projetar sobre eles nossos fantasmas e crer partilhar essa situação. Mas isso é cômodo – de fato os bichos não nos são inteligíveis nem sob o regime da consciência, nem sob o do inconsciente. Não se trata, portanto, de forçar para que se encaixem aí, mas justamente o contrário, isto é, ver no que eles põem em causa essa própria hipótese do inconsciente, e a qual outra hipótese eles nos forçam. Tal é o sentido, ou o não-sentido de seu silêncio.

 

Tal foi o silêncio dos loucos, que nos forçou à hipótese do inconsciente – tal é a resistência dos bichos, que nos força a mudar de hipótese. Pois se eles nos são e permaneceram para nós ininteligíveis, todavia vivemos de algum modo em inteligência com eles. E se vivemos assim, não é certamente sob o signo de uma ecologia geral onde numa espécie de nicho planetário, que é apenas a dimensão ampliada da caverna platônica, as quimeras dos bichos e dos elementos naturais viriam manter relações com a sombra dos homens sãos e salvos da economia política – não, nossa inteligência profunda com os bichos, mesmo em via de desaparição, é estabelecida sob o signo conjugado, inverso em aparência, da metamorfose e do território.

 

Nada parece mais fixo na perpetuação da espécie do que os bichos, e no entanto eles são para nós a imagem da metamorfose, de todas as metamorfoses possíveis. Nada mais errante, mais nômade em aparência do que os bichos, e todavia sua lei é aquela do território[4]. Mas deve-se afastar todos os contra-sensos sobre essa noção de território. Não é de modo algum a relação ampliada de um sujeito ou de um grupo com seu próprio espaço, espécie de direito de propriedade privada orgânica do indivíduo, do clã ou da espécie – tal é o fantasma da psicologia e da sociologia ampliada a toda ecologia – nem essa espécie de função vital, de bolha ambiental na qual se sintetizam todo o sistema de necessidades[5]. Um território não é sequer um espaço, com o que esse termo implica para nós de liberdade e de apropriação. Nem instinto, nem necessidade, nem estrutura (seja ela “cultural” ou “comportamental”), a noção de território se opõe assim de algum modo àquela de inconsciente. O inconsciente é uma estrutura “enterrada”, recalcada, e indefinidamente ramificada. O território é aberto e circunscrito. O inconsciente é o lugar da repetição indefinida do recalcamento e dos fantasmas do sujeito. O território é o lugar de um ciclo finito de parentesco e de trocas – sem sujeito, mas sem exceção: ciclo animal e vegetal, ciclo dos bem e das riquezas, ciclo do parentesco e da espécie, ciclo das fêmeas e do ritual – não há sujeito e tudo nele se troca. As obrigações são nele absolutas, a reversibilidade total, mas ninguém conhece nele a morte, já que tudo se metamorfoseia. Nem sujeito, nem morte, nem inconsciente, nem recalcamento, já que nada detém o encadeamento das formas.

 

Os bichos não possuem inconsciente, uma vez que eles possuem um território. Os homens possuem um inconsciente somente depois que eles não possuem mais território. Seu território e suas metamorfoses lhes foram ao mesmo tempo subtraídos – o inconsciente é a estrutura individual de luto na qual se retorna sem cessar, e sem esperança, a essa perda – os bichos são a nostalgia. A questão que eles nos colocam seria então esta: não estaríamos vivendo desde hoje além dos efeitos de linearidade e de acumulação da razão, além dos efeitos de consciência e de inconsciente, sobre esse modo bruto, simbólico, de ciclo e de reversão indefinida sobre um espaço finito? E para além do esquema ideal que é aquele da nossa cultura, de toda cultura talvez, aquele da acumulação de energia, e de sua libertação final, não sonhamos antes com implosão do que com explosão, antes com metamorfose do que com energia, antes com obrigação e com desafio ritual do que com liberdade, antes com ciclo territorial do que… Mas os bichos não colocam questões. Eles se calam.

 

 

Notas:

 

[1] O presente texto foi publicado no livro Simulacres et Simulations de Jean Baudrillard, em 1981, porém foi escrito na década de 70 (N. T.).

 

2 Assim, no Texas, quatrocentos homens e cem mulheres experimentam a penitenciária mais afável do mundo. Uma criança nasceu nela em junho último. Houve apenas três evasões em dois anos. Homens e mulheres fazem as refeições juntos e se reencontram nas sessões de terapia de grupo. Cada detento possui a única chave do seu quarto individual. Os casais conseguem ficar sozinhos nos quartos vazios. Até hoje, trinta e cinco presos fugiram, mas a maioria retornou por vontade própria.

 

3 Perde-se totalmente em português o jogo de palavras que Baudrillard cria neste parágrafo. As frases que “qualificam” os bichos se iniciam no original da seguinte forma: “Bêtes de somme, …”. “Bêtes de sommation, …”. “Bêtes de consommation, …”. “Bêtes de somatisation, …”. (N.T.).

 

4 A errância dos bichos é um mito, e a representação atual, errática e nômade, do inconsciente e do desejo, é da mesma ordem. Os bichos nunca foram errantes, nunca foram desterritorializados. Toda uma fantasmagoria libertadora se desenha em oposição aos constrangimentos da sociedade moderna, uma representação da natureza e dos bichos como selvageria, liberdade de “satisfazer todas as suas necessidades”, hoje em dia de “cumprir todos os seus desejos” – pois o rousseauismo moderno tem adquirido a forma de indeterminação da pulsão, da errância do desejo e do nomadismo da infinitude – mas é a mesma mística das forças sutis, não codificadas, sem outra finalidade além de sua própria erupção.

 

Ora, a natureza livre, virgem, sem limite nem território, onde cada um erra à sua vontade, nunca existiu, senão no imaginário da ordem dominante, do qual ela é o espelho equivalente. Nós projetamos como selvageria ideal (natureza, desejo, animalidade, rizoma…) o próprio esquema de desterritorialização do sistema econômico e do capital. A liberdade não está em nenhum lugar além do capital, é ele que a produz, é ele que a aprofunda. Há então uma exata correlação entre a legislação social do valor (urbano, industrial, repressivo etc.) e a selvageria imaginária que lhe opõe: ambas são “desterritorializadas”, e à imagem uma da outra. Aliás, a radicalidade do “desejo”, como se vê nas teorias atuais, cresce na mesma proporção da abstração civilizada, de modo nenhum como antagonista, mas segundo o mesmo movimento imperiosamente, aquele de uma mesma forma sempre mais decodificada, mais descentrada, mais “livre”, que engloba ao mesmo tempo nosso real e nosso imaginário. A natureza, a liberdade, o desejo etc., não exprimem um sonho inverso do capital, eles traduzem diretamente o progresso ou os estragos dessa cultura, eles até mesmo o antecipam, pois eles sonham com a desterritorialização total onde o sistema impôs apenas uma relativa: a exigência de “liberdade” é sempre apenas aquela de ir mais longe do que o sistema, mas no mesmo sentido dele.

 

Nem os bichos nem os selvagens conheciam a “natureza” no sentido dado por nós: eles conheciam apenas territórios, limitados, marcados, que são espaços de reciprocidade intransponíveis.

 

5 Assim, Henri Laborit recusa a interpretação do território em termos de instinto ou de propriedade privada: “Nunca se pôs em evidência, fosse no hipotálamo ou em qualquer outro lugar, a relação de um grupo celular ou de vias nervosas diferenciadas com a noção de território… Não parece existir um centro do território… Não é útil apelar a um instinto particular” – mas é para melhor o reenviar a uma funcionalidade das necessidades ampliadas aos comportamentos culturais, que é a vulgata hoje em dia comum a toda economia, psicologia, sociologia etc.: “O território se torna assim o espaço necessário à realização da ação gratificante, o espaço vital… A bolha, o território representam assim o pedaço de espaço em contato imediato com o organismo, no qual ele “opera” suas trocas termodinâmicas para manter sua própria estrutura… Com a interdependência crescente dos indivíduos humanos, com a promiscuidade que caracteriza as grandes cidades modernas, a bolha individual é limitada de maneira considerável…” Concepção espacial, funcional, homeostática. Como se o que estivesse em jogo para um grupo, para um homem ou até para um bicho, fosse o equilíbrio de sua bolha e a homeostase de suas trocas, internas e externas!

 

 


[1] O presente texto foi publicado no livro Simulacres et Simulations de Jean Baudrillard, em 1981, porém foi escrito na década de 70 (N. T.).

[2] Assim, no Texas, quatrocentos homens e cem mulheres experimentam a penitenciária mais afável do mundo. Uma criança nasceu nela em junho último. Houve apenas três evasões em dois anos. Homens e mulheres fazem as refeições juntos e se reencontram nas sessões de terapia de grupo. Cada detento possui a única chave do seu quarto individual. Os casais conseguem ficar sozinhos nos quartos vazios. Até hoje, trinta e cinco presos fugiram, mas a maioria retornou por vontade própria.

[3] Perde-se totalmente em português o jogo de palavras que Baudrillard cria neste parágrafo. As frases que “qualificam” os bichos se iniciam no original da seguinte forma: “Bêtes de somme, …”. “Bêtes de sommation, …”. “Bêtes de consommation, …”. “Bêtes de somatisation, …”. (N.T.).

[4] A errância dos bichos é um mito, e a representação atual, errática e nômade, do inconsciente e do desejo, é da mesma ordem. Os bichos nunca foram errantes, nunca foram desterritorializados. Toda uma fantasmagoria libertadora se desenha em oposição aos constrangimentos da sociedade moderna, uma representação da natureza e dos bichos como selvageria, liberdade de “satisfazer todas as suas necessidades”, hoje em dia de “cumprir todos os seus desejos” – pois o rousseauismo moderno tem adquirido a forma de indeterminação da pulsão, da errância do desejo e do nomadismo da infinitude – mas é a mesma mística das forças sutis, não codificadas, sem outra finalidade além de sua própria erupção.

Ora, a natureza livre, virgem, sem limite nem território, onde cada um erra à sua vontade, nunca existiu, senão no imaginário da ordem dominante, do qual ela é o espelho equivalente. Nós projetamos como selvageria ideal (natureza, desejo, animalidade, rizoma…) o próprio esquema de desterritorialização do sistema econômico e do capital. A liberdade não está em nenhum lugar além do capital, é ele que a produz, é ele que a aprofunda. Há então uma exata correlação entre a legislação social do valor (urbano, industrial, repressivo etc.) e a selvageria imaginária que lhe opõe: ambas são “desterritorializadas”, e à imagem uma da outra. Aliás, a radicalidade do “desejo”, como se vê nas teorias atuais, cresce na mesma proporção da abstração civilizada, de modo nenhum como antagonista, mas segundo o mesmo movimento imperiosamente, aquele de uma mesma forma sempre mais decodificada, mais descentrada, mais “livre”, que engloba ao mesmo tempo nosso real e nosso imaginário. A natureza, a liberdade, o desejo etc., não exprimem um sonho inverso do capital, eles traduzem diretamente o progresso ou os estragos dessa cultura, eles até mesmo o antecipam, pois eles sonham com a desterritorialização total onde o sistema impôs apenas uma relativa: a exigência de “liberdade” é sempre apenas aquela de ir mais longe do que o sistema, mas no mesmo sentido dele.

Nem os bichos nem os selvagens conheciam a “natureza” no sentido dado por nós: eles conheciam apenas territórios, limitados, marcados, que são espaços de reciprocidade intransponíveis.

[5] Assim, Henri Laborit recusa a interpretação do território em termos de instinto ou de propriedade privada: “Nunca se pôs em evidência, fosse no hipotálamo ou em qualquer outro lugar, a relação de um grupo celular ou de vias nervosas diferenciadas com a noção de território… Não parece existir um centro do território… Não é útil apelar a um instinto particular” – mas é para melhor o reenviar a uma funcionalidade das necessidades ampliadas aos comportamentos culturais, que é a vulgata hoje em dia comum a toda economia, psicologia, sociologia etc.: “O território se torna assim o espaço necessário à realização da ação gratificante, o espaço vital… A bolha, o território representam assim o pedaço de espaço em contato imediato com o organismo, no qual ele “opera” suas trocas termodinâmicas para manter sua própria estrutura… Com a interdependência crescente dos indivíduos humanos, com a promiscuidade que caracteriza as grandes cidades modernas, a bolha individual é limitada de maneira considerável…” Concepção espacial, funcional, homeostática. Como se o que estivesse em jogo para um grupo, para um homem ou até para um bicho, fosse o equilíbrio de sua bolha e a homeostase de suas trocas, internas e externas!

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