Onde foram parar as migalhas para os cães?

 

Lanço um último olhar para a faixa do Itaú Personnalité: “Um Natal perfeito para você. Shows diários até 5 de janeiro, entre 18 horas e 20h30, acada 20 minutos.” O boneco de neve e o segurança me cumprimentam. The show must go on. O show deve continuar.

Creio que os 20 minutos já se passaram, pois, de repente, o Papai Noel e o Boneco de Neve começam a falar e se movimentar. As crianças cantam suas canções. O templo cospe neve. Realmente, este é um ‘Natal perfeito’ para mim. Eu posso até sentir náuseas; os brasileiros se aglomeram junto com suas crianças e apreciam. Seus rostos brilham como numa transfiguração. Eles adoram. E quem sou eu para colocar pontos de interrogação nisso?! No natal é representado explicitamente o que, ao longo do ano, se assume de maneira implícita: os Sábios [Magos] e a Sabedoria vêm do exterior. Os imigrantes italianos, alemães, poloneses sentem uma profunda saudade da Europa de seus antepassados. Brasil: espelho da Europa. Brasil: espelho dos Estados Unidos da América. Papai Noel e Boneco de Neve no tórrido verão da colônia. Para onde fugiu o espírito do Índio? Onde se escondeu a alma do Negro?

 

Não vejo migalhas sob a mesa. Não há migalhas para os cães. Só há grandes presentes de natal para banqueiros e seus clientes.

Abatido, tomo o metrô para a Estação Rodoviária do Tietê. Na parada Armênia vejo a ‘Igreja Internacional da Graça de Deus’.

De fato, a religião do dinheiro é uma igreja internacional (1). Com seus templos, seus sacerdotes e sacerdotisas. Seus bonecos de neve, seus ‘papais noéis’ e seus seguranças. Sua grama-inglesa tóxica e palmeiras que balançam ao vento. Para poucos, às custas de muitos. Graças a Deus.

 

Almoço na rua atrás da rodoviária, num bairro popular.

Respiro aliviado. Há muitos cães circulando. Migalhas. Nada de sacerdotisas, nem fotos.

Uma latinha de refrigerante me concede um piscar de olhos confortante: “Viva o lado Coca-Cola da vida.”

De que lado eu estou?

 

São Paulo, 27 de novembro de 2006.

 

Postscriptum 1:

Alguns dias mais tarde, eu me deparo com belas casinhas de cachorro expostas ao longo do movimentado anel rodoviário de São Paulo. Estranho. Estão à venda. Quem as colocou ali? E quem compra? Um pouco adiante, debaixo das pontes, vejo pilhas de estrados de madeira (paletes). Os sem-teto recolhem os restos da cidade e fazem obras de arte. ‘Lixo luxo’: fazer luxo do lixo. Para sobreviver. Um cão com os cães. Será que aprenderam isso das beneditinas que atuam nas ruas? Há 25 anos, elas deram início ao projeto ‘Cor da rua’, no bairro Liberdade. Reencontrar o próprio valor na arte e na beleza. Será que, nesta massa de pedras cinzentas, isto poderia ser o caminho para a libertação?

 

Postscriptum 2:

Poucos dias antes do natal compro, em Chapecó, o ‘Diário do Iguaçu’. O jornal publica, na coluna Opinião, um texto de Paulo Vendelino Kons que começa assim: “Devemos procurar o Menino Jesus não nas belas imagens dos presépios. Devemos procurá-lo entre as crianças subnutridas que nesta noite deitaram sem ter o que comer. Entre os pequenos vendedores de jornais que dormirão envoltos em jornais nas marquises… No engraxate que talvez tenha conseguido ganhar o necessário para comprar um presente para sua mãe.”

Em meio a toda esta loucura de purpurina e comércio, para mim é um consolo que em um recanto deste imenso país esta coluna Opinião possa começar com uma citação de Oscar Romero. Romero, o arcebispo de El Salvador, ‘O Salvador’. Não, a salvação não vem dos presépios iluminados; muito menos é encontrada em templos de ‘papais noéis’ e bonecos de neve. Natal ou a festa da máxima anestesia religiosa. Oscar Romero tinha lá suas idéias sobre o assunto. Foi por isso que ele foi eliminado. Como um vira-lata.

 

(1)   Veja o trabalho de Franz Hinkelammert e de outros ‘teólogos economistas’. Eles desmascaram o capitalismo como a religião dominante. Para eles, a teologia deveria ser uma crítica a esta religião dominante.

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