OMC

Estamos na antevéspera da grande conferência da OMC, em Hong Kong (13 a 18 de dezembro de 2005). O ministro Rodrigues estará presente e fará discurso pela abertura dos mercados mundiais. Milhares de ativistas de todo o mundo também se deslocaram para a China. Entre outros, uma chamativa delegação com cerca de mil agricultores coreanos grita que não é possível continuar assim. Após 15 mil anos de agricultura – o fundamento da cultura coreana – não se passa uma semana sem que um agricultor desesperado atente contra sua própria vida. Eles sabem por que querem dar um basta nessa OMC.

Será que a intenção desse ‘livre comércio mundial’ é fazer com que famílias sejam assentadas, em liberdade, na região amazônica para em seguida serem atropeladas pelo gado? Só porque os consumidores russos e o mercado mundial de carnes assim o desejam? Eu vejo aqui, num jornal brasileiro, ao lado dos orgulhosos números da exportação brasileira, uma foto de ativistas, com seu gado, diante da Comissão Européia.

Será que a intenção é que agricultores, gado, suínos, aves pratiquem uma concorrência mundial até a morte? Morte!

 

A verdadeira agricultura familiar trabalha a terra com amor e cria os animais com cuidado, seja na América, na África, Europa, Ásia ou Austrália.

 

Guarapuava, 11 de dezembro de 2005.

 

Postscriptum

          1994-1995 foi o pico do desmatamento da floresta amazônica: 29.100 km2, entre outros, devido aos grandes incêndios na região; nos anos seguintes, ficou em torno de 18 mil km2. A partir de 2001, começou a crescer: 2001-2002: 23.100 km2; 2002-2003: 24.600 km2; 2003-2004: 27.200 km2. E o que é que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou com alegria na segunda-feira, dia 5 de dezembro de 2005? Sim, retornamos aos níveis da década de 1990. Em 2004-2005: 18.900 km2! 31% inferior ao registrado no auge, em 2003-2004. Luz no fim do túnel?

          O presidente Lula e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, lançaram na terça-feira medidas para combater o trabalho escravo. Os ‘escravos’ libertados serão incluídos no Bolsa Família, e 180 fazendeiros que os exploravam, não receberão mais financiamento. Esta terça-feira coincide com o início da Conferência Ministerial da OMC, em Hong Kong. Coincidência? Luz no fim do túnel?

          Em Hong Kong trabalha uma equipe de filmagens da Global Society. No âmbito de um projeto da União Européia (tendo parceiros como Vredeseilanden [Ilhas de Paz], Oxfam-Solidariedade, CSA [Coalizão para Estratégias Alimentares] e Wervel, da Bélgica; RAD [Rede para Agricultura Sustentável], da França; Acord – ONG  que realiza trabalho solidário na África –, da Grã-Bretanha; CPE [Confederação Européia da Agricultura Familiar], a cúpula agrícola crítica da Europa), Dirk Barrez realiza um filme sobre a onda de liberalização na agricultura; suas vítimas espalhadas pelo mundo mas, também, as alternativas criativas das organizações de agricultores. Nas atividades paralelas à conferência da OMC, ele acompanha três lideranças rurais: um do Senegal, um da França e um do Brasil. Quem representa o Brasil é Altemir Tortelli, secretário-geral da Fetraf-Sul/CUT. Com este projeto, pretendemos traduzir o filme em diversos idiomas e fazer com que seja transmitido no maior número possível de emissoras de TV, na Europa e no Brasil. O DVD, em português, pode ser adquirido na Fetraf e, em holandês, espanhol, francês e inglês, no Wervel <info@wervel.be>. Luz no fim do túnel?

 

(1)   Leia, também a crônica ‘Soja, aves, suínos e outras carnes’ no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’ (Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006). Recentemente foi criado um site em homenagem a Dorothy Stang e a causa que ela defendia: <http://www.comitedorothy.cjb.net> ou <http://geocities.yahoo.com.br/comite_dorothy2>.

(2)   Fazendeiros: latifundiários. Grileiros: aqueles que, de maneira ilegal, se apropriam e tomam posse de terras públicas; Pistoleiros: geralmente pessoas pobres que, com uma ‘pistola’, são empregadas para atirar nos sem-terra ou nos assentados dos projetos de agrossilvicultura sustentável. Carvoeiros: geralmente pessoas pobres que praticam desmatamento para produzir carvão O carvão é destinado às siderúrgicas de Minas Gerais, mas grande parte dele também é utilizado para… churrasco.

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