História Geral

O Utopista portuense Ângelo Jorge: Subsídios para a sua biografia

Iza Luso Barbosa
(Ateneu Comercial Do Porto)

 imediato o projecto com todo o interesse, e acolhi com simpatia a ideia
de publicar os resultados da minha investigação na revista E-topia, aproveitando para saudar os
princípios que a informam e para salientar o facto de, ao endereçar convites aos vários sectores do
conhecimento, a sua Direcção estar a contribuir para a construção informada de uma visão mais
globalizante e consequentemente mais completa dos temas em foco.
Utopia e biografia
Toda a obra humana – e a literária não escapa a esse conceito – é, em grande medida,
autobiográfica; no caso das obras literárias utópicas, informadas por desejos pessoais, o conhecimento,
ainda que sumário, das circunstâncias da vida dos utopistas é sem dúvida importante. Pelo que me foi
dado apreender do Ciclo de Conferências realizado no Ateneu, as Utopias são desideratos de mundos
melhores – optimizados ao máximo! –, contraponto da realidade desagradável e até, por vezes,
insuportável. Correspondem a lugares memoráveis de uma Atlântida ou de uma Idade de Ouro imanente
da condição humana! Diríamos, mais prosaicamente, ilhas ou lugares paradisíacos onde tudo corre sobre
rodas.
Penso que as Utopias nasceram, e continuarão certamente a ser forjadas, a partir da angústia
resultante da dificuldade em se superar os dois problemas que mais afectam a Humanidade: a Paz e a
Saúde. No entanto, creio que a mais premente de todas as Utopias do nosso tempo é certamente a da
busca da Saúde – muito especialmente para os que não a têm ou a perderam, muitas vezes,
abruptamente. Creio mesmo que Irmania se poderia incluir dentro desta designação. Na verdade, julgo
que se adivinha na leitura de Irmania uma “paternidade” singular neste sentido, já que Ângelo Jorge se
preocupou em passar para o papel as suas angústias sublimadas sob a forma de uma Utopia.
Desconheço a formação literária de Ângelo Jorge mas, caso ele tivesse apreendido alguns
rudimentos de Grego Clássico, poderá aventar-se a hipótese de Irmania ser uma palavra composta de
sua autoria – Irm (irmão) e ania (que em grego significa dor, tormento, aflição). Será que o título desta
obra pressupõe literalmente um lugar onde não há dor, tormento, aflição? Na época em que Ângelo Jorge
viveu, as epidemias, como a Peste Bubónica de1899, a tuberculose, as doenças venéreas, entre tantas
outras, dizimavam sem dó nem piedade a sociedade portuense, mas também, de uma forma geral, a
população de todos os países europeus. As curas prometidas pela Ciência não chegavam, tardavam
desesperadamente… Deus – em quem se confiara em absoluto até essa época – tinha sido relegado
para um grupo de crentes que eram ridicularizados ou marginalizados. A Saúdeii e a Morte passaram da
esfera divina para o domínio da Ciência.
Quando o desespero se instalava, os pensadores ateus / maçónicos viraram-se para a Natureza-
Mãeiii buscando os seus efeitos curativos e redentores. É o caso do nosso biografado. Promotor da
Sociedade Vegetariana de Portugal,iv Ângelo Jorge procurava a cura dos males da Humanidade numa
alimentação simples, isenta de carne e, se possível, à base de fruta, como se lê em O Vegetariano:
Vida e Saúde – eis o nosso lemma.
Que a Vida explendida, natural e justa, equilibrada e boa, e que para isso todos curem de conquistar e
conservar esse dom mais que todos os outros precioso, que ninguém sabe conscientemente avaliar
senão depois que o perdeu, e que se chama – a Saúde. Várias são as razões que me impulsionam á
prática e á defesa do regímen natural de alimentação conhecido pela designação de Vegetarianismo:
razões d’ordem scientifica, umas, philosophicas, d’ordem moral e sentimental, outras, Estas, porém,
supplantam em mim aquellas.v
Creio por isso que a grande utopia de Ângelo Jorge, mais do que uma utopia vegetariana, é uma utopia
da saúde, ditada por circunstâncias pessoais a que não terá sido de todo alheia a sua convivência com
elementos da maçonaria, sobretudo com Magalhães Lima.
O utopista Ângelo Jorge
É parca a informação biográfica disponível sobre Ângelo Jorge. Quando deitei mãos à investigação que
me foi proposta, sabia somente que Ângelo Jorge era oriundo do Porto, de finais de Oitocentos, e tinha
viajado para o Brasil, de onde regressara já no século XX. A investigação que levei a cabo, por falta de
elementos disponíveis, não me permitiu desenhar um retrato completo do utopista portuense, pelo que os
resultados que aqui exponho deverão ser tomados como apontamentos, contributos simples para o
esboço do retrato de um homem que sonhou com um mundo de onde todas as doenças seriam
erradicadas através de uma alimentação vegetariana.
O próprio Inocêncio Francisco da Silva, no Tomo 22 do seu Diccionário Bibliográfico Portuguez,
admite a sua incapacidade para apontar os elementos biográficos principais de Ângelo Jorge, declarando
que “ignora as circunstâncias especiais da sua vida” (pp. 103 e 103 v.); publica, no entanto, uma extensa
bibliografia do utopista portuense.
A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira fornece alguns elementos bibliográficos
elementares: Ângelo Jorge terá nascido no Porto, a 4 de Setembro de 1883, e falecido a 17.11.1922. Aos
9 anos terá seguido para o Brasil, tendo regressado a Portugal em 1901 (volume 14, pp. 309-310).
O segundo volume de Poetas Portuenses – Antologia e Notas, de João Paulo Freire (Mário),
editado em 1924, pela Companhia Portuguesa Editora, dá-nos mais alguns elementos biográficos. Estes
elementos permitem-nos compreender, por um lado, a vocação de Ângelo Jorge para a escrita, e, por
outro lado, as suas circunstâncias familiares: o autor era filho de emigrantes, que de forma alguma
planeavam para o filho uma vida ligada às Letras:
Ângelo Jorge nasceu no Porto, Freguezia de Santo Ildefonso, a 4 de Setembro de 1883 e falleceu a 17 de
Fevereiro de 1922. Aos 9 annos foi para o Brazil em companhia de seus pais que lhe destinavam a vida
commercial. Regeitou. Toda a sua inclinação era para os livros e para os jornaes. Aos 10 annos deu
início aos seus trabalhos literários (…) Aos 18 annos regressou a Portugal.
Sabemos também que Ângelo Jorge teve uma filha, a quem deu o nome de Armanda-Julia Jorge, cujo
retrato em bebé (totalmente desnudada), aparece no seu livro A Questão Social e a Nova Sciencia de
Curar, que integra a Biblioteca Vegetariana (Vol. 4, 1912, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora).
Lê-se na legenda da fotografia: “Filha do auctor deste trabalho, desde nascença é educada segundo os
princípios da Nova Sciencia de Curar. É forte, saudável, alegre. A Doença hade sempre para ella ser um
mytho; e assim, será no futuro mais uma irrefutável prova da verdade naturista.”
Apesar da minha vontade de conhecer melhor a vida do autor portuense, a investigação que para
o efeito levei a cabo não deu grandes frutos, tendo sido obviada, à partida, pelos elementos biográficos
de que dispunha e que suspeito estarem incorrectos. Com efeito, aquando da minha visita ao Arquivo
Distrital do Porto, não encontrei, nos documentos relativos ao ano de 1883, o assento de baptismo de
Ângelo Jorge na freguesia de Santo Ildefonso, nem tão-pouco na do Bonfim, afim desta. O único
baptismo de um Ângelo – poderá ser este? – encontra-se a folhas 246 verso, do ano de 1888 (e não de
1883, como indica Paulo Freire), com o número 485, Conservatória do Registo Civil do 1.º Bairro:
Ângelo nascido á 1 da tarde de 12.9.1888 foi baptizado na igreja de Santo Ildefonso a 15.10.1888. Era
filho legítimo de José Bento Villar Júnior alfaiate nessa freguesia, e daí natural e de Emília Maria Roza, de
Cedofeita, recebidos em Santo Ildefonso, moradores na Rua Formoza, neto de José Bento Villar e Ana
Maria da Rocha e de Paulo José Silva e Cândida Maria Roza. Padrinhos o avô materno e a avó materna.
No que respeita ao seu falecimento, que Paulo Freire afirma ter ocorrido em 1922, também as
minhas investigações se revelaram infrutíferas: uma vez que se desconhece a freguesia do seu óbito,
consultei os jornais portuenses dessa data a fim de poder determinar a freguesia onde se finou. Na
ausência de notícias, foi-me impossível continuar o estudo. Resta a possibilidade de se vir a encontrar o
passaporte de Ângelo Jorge no Arquivo Distrital do Porto.
Dada a projecção da figura de Ângelo Jorge no meio literário português, bem como a sua
influência no círculo vegetariano que então se constituiu na cidade do Porto, e de que faziam parte
elementos influentes da sociedade da Invicta, não é senão de estranhar a escassez de elementos
biográficos do autor. Contudo, a partir da leitura das suas obras, somos capazes de compreender que a
sua preocupação com a saúde tinha origem em problemas pessoais que ele acreditava poder vir a
superar através de uma alimentação correcta.
A escolha da sede do Instituto de Cultura Vital da Sociedade Vegetariana foi cuidadosa, como
Ângelo Jorge deixa bem claro quando o publicita no seu livro A Questão Social e a Nova Sciencia de
Curar: o Instituto foi montado na R. Nova de S. Chrispim (n.º 203), no “hygienico local do Monte das
Antas, circumdado de florestas magnificas, a uma altitude soberba, com vastos panoramas e muito ar
oxigenado”. A preocupação com o “ar oxigenado” abre uma janela sobre uma preocupação reiterada de
Ângelo Jorge e sobre a possibilidade de a sua morte ter sido devida a problemas respiratórios,
provavelmente causados pela tuberculose que então tanta gente vitimava na época. Estamos aqui,
porém, não no campo da biografia mas no da especulação. E estou hoje convicta de que, em relação a
Ângelo Jorge, todas as forças deverão ser mobilizadas no sentido de melhor lhe descobrirmos a vida para
melhor compreendermos a obra. Pela minha parte, tentarei dar o meu contributo.
Do que não restam dúvidas é que, apesar de tudo, Ângelo Jorge morreu bastante jovem, não
tendo conseguido superar os seus problemas de saúde pois, à luz dos actuais conhecimentos de
nutricionismo, uma alimentação vegetariana não é a mais adequada para os que sofrem de doenças
como a tuberculose, podendo até ser prejudicial a uma constituição física depauperada.
Bibliografia existente na Biblioteca do Ateneu Comercial do Porto
As parcas informações biográficas sobre Ângelo Jorge são compensadas por uma abundante bibliografia,
que poderá ser encontrada na Biblioteca do Ateneu Comercial do Porto. Deixam-se aqui as referências
mais importantes dos autores que pertenceram e promoveram a Sociedade Vegetariana de Portugal:
Abramowski, Dr. O.L.M., A Dieta Frugívora e o Renovamento Físico, V volume da Biblioteca Vegetariana,
tradução do Dr. João Volmer, aumentada com apensos elucidativos (entre estes figuram: um texto sobre
o Instituto de Cultura Vital da Sociedade Vegetariana e o estatuto Programa da Sociedade Vegetariana
de Portugal), Sociedade Vegetariana de Portugal Editora, Av. Rodrigues de Freitas, 393, Porto. Tip.
Universal Figueirinhas & C.ª, Rua das Oliveiras, 75-77, Porto, 1912. Cota 11.231.
Carqué, Otto, A Base de todas as reformas na alimentação, tradução de José Vitorino Pinto, estudante de
Medicina, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora, Av. Rodrigues de Freitas, 393, Porto. Empresa
Gráfica “A Universal”de Figueirinhas & Mota Ribeiro, Lda, Rua Duque de Loulé 111, Porto, 1912. Cota
11.230.
Colliére, Dr. Henri, O Vegetarianismo e a Physiologia Alimentar, tradução de Ângelo Jorge, 1911,
Sociedade Vegetariana de Portugal, Avenida Rodrigues de Freitas, 393, Composto e Impresso na Typ. de
Francisco Joaquim de Almeida, Rua das Carmelitas 102 a 106 (Porto). Cota 11.232.
Jorge, Ângelo, A Questão Social e a Nova Sciencia de Curar, IV volume da Biblioteca Vegetariana,
Sociedade Vegetariana de Portugal Editora, Av. Rodrigues de Freitas, 393, Porto, 1912. Cota 11.235.
Contém um retrato fotográfico da filha do autor Armanda-Júlia Jorge.
O Vegetariano, 1.ª série, vol. I, 1909-1911. Secretário de Redacção Ângelo Jorge, Proprietário Manuel
Teixeira Leal (propriedade dos vegetarianos Marcos Pinheiro da Fonseca, Eduardo de Lima Lobo,
Jeronymo Caetano Ribeiro e Manoel Teixeira Leal), Composto e Impresso na Typ. de Francisco Joaquim
de Almeida, Rua das Carmelitas 104 (Porto). Cota 11.229.
Souza, Dr. Amílcar de, O Naturismo, Sociedade Vegetariana Editora, Av. Rodrigues de Freitas, 393,
Porto. Empresa Gráfica “A Universal” de Figueirinhas & Mota Ribeiro, Lda, Rua Duque de Loulé 111,
Porto, 1912, Cota 11.228. Contém uma fotografia de Amílcar de Souza, em calções.
Viaud-Bruant, Vivamos de Fructos, I volume da Biblioteca Vegetariana, tradução prefaciada pelo Dr.
Amílcar de Souza, Sociedade Vegetariana de Portugal Editora, Av. Rodrigues de Freitas, 393, Porto. Tip.
Costa Carregal, Travessa de Passos Manuel, 25-29, Porto, 1912. Cota 11.233.
Neste mesmo livro encontra-se também uma notável conferência realizada no Ateneu Comercial do
Porto, em 14 de Junho de 1912, pelo Dr. Jaime de Magalhães Lima, intitulada “0 Vegetarismo e a
moralidade das raças”, e a indicação de este livro constituir o 9.º volume da Sociedade Vegetariana. Cota
11.233-A. Existe também em forma de separata, com o retrato fotográfico do autor com as suas longas
barbas, com a cota 11.234.
i Será curioso notar que, num poema de sua autoria, “A dor do Pensamento”, o autor utiliza a
palavra Utopia:
Penso na vida, nas paixões, na glória…
Scismo no bem, na paz, na liberdade…
Mas tudo à minha volta é escuridade,
Quimera vã… miragem ilusória…
Sangue, traições e prantos – eis a História.
Ódio e perfídias – eis a Humanidade,
A Dor Humana é a única verdade,
Por sobre o pó da vida transitória.
Ai do triste que em meio á cerração,
Olhos postos na Ideia que é seu guia,
Vai passando com alma e coração.
Tangendo hunos d’amor e rebeldia
Na lira sonorosa da Ilusão,
No carrilhão dourado da Utopia!…
In, Poetas Portuenses – Antologia e Notas, de João Paulo Freire (Mário), 2.ºVolume,
Porto 1924, Companhia Portuguesa Editora,
ii A Saúde e a Morte na Europa foram encaradas até ao Liberalismo / Industrialização, de uma
forma completamente oposta à dos nossos dias. Ambas decorriam da vontade soberana e
indiscutível de Deus. Nos testamentos dessas épocas encontramos sempre essa ideia
presente. Como exemplo, transcreve-se um excerto de um testamento manuscrito da
Freguesia da Touguinha, Vila do Conde, do Livro de Testamentos dessa freguesia do Arquivo
Distrital do Porto : “Em Nome da Santissima Trindade, Padre filho e Spirito Sancto trez
pessoas distintas e hum so Deos verdadeiro. Diz Manoel Gonçalves de huma doença, que lhe
Deus deu, achandose apavorado mandou fazer esta nomeaçam para descargo de sua alma.
Ordenou o seguinte, a saber donde deixa a sua filha Antonia por sua herdeyra e testamenteira
de bens imoveys e de tudo o que se achar e compondo aos mays irmãos. E declaro mays que
lhe fique a sua roupa libre, e desembargada, em que bem achar huma saya e duas ma(n)tilhas
e hum manteo de panno que ganhou pelo seu officio e por minha morte me faram tres officios
de sinco padres cada officio; o primeyro sera de todo o monte. E mays. Hoje na Matta 29 deste
mes de Fevereyro de 1727.”
iii Cf. Jorge, Ângelo “ A Questão social e a Nova Sciencia de Curar”.
iv A sociedade Vegetariana de Portugal, fundada no Porto em 1911, é uma sociedade
filantrópica que tem por fim promover a saúde e o bem-estar da Humanidade, aconselhando
uma alimentação e uma higiene conforme à natureza, cujo Estatuto –Programa que tem por
órgão O Vegetariano , mensário ilustrado de saúde, dirigido pelo Dr. Amílcar de Souza e com
sede na Avenida Rodrigues de Freitas, n.º 393 (antiga Rua de S. Lázaro), na cidade do Porto.
No seu §2.º declara-se ser esta sociedade alheia a questões ou assuntos político – religiosos.
In, O Vegetariano 1.ª série, Vol. I, 1909-1911.
v O Vegetariano, 1.ª série, Vol. I, 1909-1911, Secretário de Redacção Ângelo Jorge ,
Proprietário Manuel Teixeira Leal, (propriedade dos vegetarianos: Marcos Pinheiro da Fonseca,
Eduardo de Lima Lobo, Jeronymo Caetano Ribeiro e Manoel Teixeira Leal), Composto e
Impresso na Typ. de Francisco Joaquim de Almeida, Rua das Carmelitas 104 (Porto).

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