Aurora no Campo - Soja Diferente

O que estas armas têm a ver com soja?

É de conhecimento geral que há muita violência na sociedade brasileira, tanto na cidade quanto no campo. Ontem, porém, fiquei impressionado com uma empresa chamada ‘Guerra Sementes’. Já conhecia ‘Guerra’ de várias atividades industriais. A família ‘Guerra’ também conta com alguns políticos em suas fileiras, o que não deixa de ser importante para uma família industrial.

Até agora, eu conhecia Guerra principalmente das lonas dos caminhões que transportam soja e outros produtos. Sempre com o lema: ‘Guerra. Paz na Estrada.’ Pois bem, o reino dos Guerra não domina somente as estradas, mas também abrange o poder de germinação daquilo que o agricultor e a agricultora semeiam: as sementes. Isto me leva, de modo irresistível, à primeira onda da Revolução Verde e à atual guinada transgênica, que resultaram – ambas – em guerra no campo.

Será que isto não é exagero?

Se, só de brincadeira, você digitar no Google as palavras ‘guerra’ e ‘agronegócio’, você leva um susto: a linguagem bélica lá utilizada parece ser comum. O jargão de guerra mais forte que encontrei por enquanto é o do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Posso citar um trecho? “Todos sabemos que o maior negócio no Brasil, hoje, é o agronegócio. Ele vale 33% do PIB nacional. Gera 37% de todos os empregos no país e é responsável por 42% das plantações. É, portanto, o maior negócio do Brasil. Porém, é um negócio que está cada vez mais atolado, como diz o João Carlos Meirelles. Atolado numa guerra que eu chamo de Guerra Mundial, que é a guerra por mercados. Uma guerra sem quartel. Uma guerra sem lealdade nenhuma. Ao contrário, estamos assistindo agora mesmo a alguns problemas que essa guerra nos traz. O Brasil de repente é um dos maiores exportadores mundiais de açúcar, de café, de suco de laranja, de soja, de carne bovina, de carne de frango. Então, para que esta guerra seja vencida com competência, é preciso que tenhamos cada vez mais instrumentos, mais armas e mais organismos articulados em parceria. Para que a gente possa avançar competitivamente na direção, na vitória dessa duríssima guerra (1).

Involuntariamente, lembro-me de um dos livros de Herman Verbeek: Economie als wereldoorlog [Economia enquanto Guerra Mundial] (2). Foi escrito há muitos anos, mas está cada vez mais atual! Isso também vale em relação à agricultura e abastecimento de alimentos. Agora, encontram-se, na internet, páginas e mais páginas com textos e discursos associando as palavras ‘guerra’ e ‘agronegócio’. O secretário da CPT-Nacional (Comissão Pastoral da Terra), Antônio Canuto, se expressa com um enfoque totalmente diferente do que o do ministro. Em seu discurso, Canuto trata das novas formas de escravidão no agronegócio, da violência e morte, desmatamento e desertificação. Ele conclui:

 

“O agronegócio, responsável pelos conflitos e violência no campo” (3)

 

“O agronegócio, além de atingir diretamente o direito à propriedade, ao trabalho e à saúde, ainda é responsável por boa parte dos conflitos e da violência no campo. O caderno ‘Conflitos no Campo Brasil’, publicação da Comissão Pastoral da Terra, em sua edição de 2003, traz uma análise do prof. Carlos Walter Porto Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que revela o que se esconde por trás dos dados registrados: ‘Em 2003, o Centro-Oeste assume a liderança quanto ao maior número de pessoas envolvidas em conflitos, 26,09% do total, e em número de pessoas despejadas pelo poder Judiciário, 35,7% do total. Estes números adquirem um caráter ainda mais dramático se forem relacionados com a população rural de cada Estado. No Mato Grosso, por exemplo, os dados mostram um estonteante 40,8% de sua população rural envolvida em conflitos, 210.795 pessoas e um número equivalente a 6,2% da população rural do Estado tendo sofrido alguma ação de despejo, 32.275 pessoas. Uma verdadeira operação de guerra, diz o professor Carlos Walter. Com relação à violência do poder privado também é o Mato Grosso, com 9 pessoas assassinadas, que apresenta o maior índice de violência relativa, 7,6. O Pará, com 33 assassinados, fica com o índice de 6,9.’ (4)

[foto 7]

Problemática de terras no Brasil e na Europa

Manifestação de Wervel, em Gent

 

O prof. C. W. Porto Gonçalves elaborou um ranking da violência do poder público e do poder privado por estado. Por ordem, Mato Grosso, Rondônia, Goiás, Tocantins e Mato Grosso do Sul são os que apresentam os índices mais elevados. Onde se dá a expansão da moderna agricultura empresarial, cresce aí tanto a violência privada quanto a ação do poder Judiciário.

 

O professor conclui sua análise: ‘O que talvez esses dados atualizem sejam as práticas que historicamente sempre fizeram do Brasil um território moderno, como já o eram os engenhos dos séculos XVI e XVII, os mais modernos que havia no mundo à época. Eram tão modernos como o são os elevados níveis de produtividade com pivôs centrais, sementes selecionadas, solos corrigidos e máquinas agrícolas computadorizadas que, hoje, fazem a moderna e violenta paisagem do Brasil Central e da Amazônia. Afinal, hoje se mata e desmata nos Cerrados e na Amazônia, do mesmo modo que, ontem, matou-se e desmatou-se na Mata Atlântica e nas Matas de Araucária.’

 

Para finalizar, ele lê um trecho do documento final do Congresso da CPT, de 2004: O agronegócio concentra terras, águas e renda. Produz sim, a um custo sócio-ambiental altíssimo e predominantemente para a exportação, gerando divisas para uma elite privilegiada desde sempre. A irrigação de suas monoculturas consome 70% da água doce do país. Suas máquinas modernas, possantes, substituem a mão-de-obra no campo, num país cujo maior problema é o crescimento do desemprego. O agronegócio é devastador. Imensas áreas de florestas e do cerrado estão sendo ilegalmente desmatadas, secando nascentes e mananciais, sugados pelo ralo das monoculturas, pastos de capim, carvoarias, mineradoras e madeireiras. Os agrotóxicos, despejados por aviões e tratores, estão contaminando solos, águas, ar e as plantações camponesas, causando doenças e mortes.

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