O índio e a agricultura familiar

Outra pessoa entra na conversa: “O modo pelo qual a Monsanto expulsa atualmente os pequenos agricultores é o mesmo tratamento que, nós, imigrantes europeus, demos aos índios. Nossos ancestrais tomaram as melhores terras para a produção de cana-de-açúcar, café e outros produtos coloniais. Os índios foram perseguidos e expulsos para as terras marginais. E isto acontece conosco até hoje, desde a Revolução Verde da década de 1970. Os verdadeiros

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A aldeia dos indígenas no COP8-MOP3

 

agricultores familiares foram cercados por fazendeiros da cidade. Foi naquele período que surgiram as primeiras supersementes vinculadas aos produtos químicos na forma de pó, que aplicavam nas suas lavouras. Nem se utilizava água. O pó era transportado pelo ar até as chácaras dos pequenos agricultores. A estratégia dos grandes era comprar pequenas propriedades. Aqueles que tentavam permanecer na sua propriedade e com seus animais foram forçados a abandoná-los, por causa do uso dos pós tóxicos. Por fim, suas propriedades também foram tomadas. Além disso, após a euforia da década de 1970 – com seus subsídios e investimentos promissores –, muitos agricultores caíram numa espiral de dívidas no início da década de 1980. Devido à inflação elevada, muitas famílias ficaram tentadas a vender suas terras e sua propriedade. Obtinham muito dinheiro de uma única vez, o que, naquela época, gerava mais renda no banco do que a propriedade jamais poderia gerar! Este período de ‘fartura’, porém, não durou muito tempo: logo eles haviam perdido tanto seu dinheiro quanto seu trabalho e suas terras.”

Eu continuo a reflexão: “Semana passada, Marfil me contou sobre sua infância na região cafeeira no norte do Paraná. Naquela época, as comunidades floresciam com muitas propriedades familiares, assim como havia muitas escolas, lojas, ofícios, bares e igrejas. Não devemos idealizar o passado, mas a economia era saudável, pois o dinheiro continuava a circular na zona rural. Ao longo da década de 1980, as pessoas começaram a vender suas propriedades. Eles partiam para a cidade ou compravam, com o dinheiro apurado com a venda, propriedades muitos maiores no Mato Grosso. Lá, alguns ficaram ricos; outros perderam tudo naquele fim de mundo. Nesse meio tempo, nos municípios prósperos de outrora, hoje só se encontram algumas poucas grandes propriedades. Os proprietários, fazendeiros, moram nas cidades e o dinheiro também flui naquela direção. Já não existe muito café, pois nas grandes propriedades hoje se cultiva principalmente soja e algodão. As economias locais estão em declínio. Há poucas lojas pequenas. Quase não há mais escolas. Um triste resquício de vida comunitária e muita pobreza. É uma história triste, que nós também conhecemos na Europa. Na região populosa de Flandres isto não é muito aparente, mas na França também há muitas regiões com vilas quase abandonadas, onde só vivem alguns idosos. Afinal, isto é um problema global. Há pouco tempo, li na internet uma matéria sobre agricultores indianos que colocaram duas vilas à venda. Um gesto de desespero, pois sua adorada vida camponesa se tornara insuportável. Não é à toa que há uma epidemia de suicídio entre agricultores naquela região.”

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