O dinheiro graúdo compra medidas vazias

Para nós, na Europa, o discurso soa bonito: os países ricos destinarão recursos para a preservação de natureza no Sul. Na verdade, é um mecanismo para comprar ‘ar puro’ em outros lugares do planeta. Enquanto isso, nosso próprio modelo de desenvolvimento poluidor, no qual está baseada nossa riqueza, pode continuar funcionando.

Estão presentes dois representantes do Ministério do Meio Ambiente para esclarecer as oportunidades e dificuldades do financiamento futuro de uma agricultura mais ecológica. Da exposição que segue, selecionei somente a lógica e alguns efeitos do Protocolo de Kyoto. Neste protocolo, o objetivo é reverter o efeito estufa no mundo. Muitos pesquisadores afirmam que, se não houver mudanças, ao final do século o planeta terá um clima semelhante ao de 130 mil anos atrás. Naquela época, o nível do mar estava 6 metros acima do atual. O derretimento de geleiras e calotas polares é o prenúncio deste triste cenário. O CO2 seria o grande vilão. Ou seja, o trânsito, calefação de prédios, indústria pesada, refinarias de petróleo, indústria química, geração de energia elétrica com combustíveis fósseis, etc. Mundialmente, 80% das emissões de CO2 são provocadas pelo uso de combustíveis fósseis e 20% pelas queimadas visando desmatamento. No Brasil, é o inverso: 80% devido a queimadas e 20% pelo ‘combustível’ (2). É óbvio onde se concentra o dinheiro e onde as ‘alternativas’ têm, portanto, preferência. Os países industrializados, com seus 80%, direcionam as alternativas. Alguns exemplos que me ocorrem:

          Biomassa em crescimento seqüestra mais CO2 do que a floresta nativa. Dentro de uma lógica antropocêntrica e mercantilista que – além de tudo – está voltada somente para a redução do CO2 na atmosfera, os assim chamados ‘reflorestamentos’ com pinus ou eucaliptos podem, em breve, contar com o dinheiro do Protocolo de Kyoto. Ou seja, seria melhor queimar de vez a floresta amazônica e em seguida reflorestar com pinus e eucaliptos.

          A biodiversidade não é prioridade, somente a redução do aquecimento. Durante as duas semanas destes eventos sobre biodiversidade isto soa muito cínico. Um fazendeiro esperto poderia não só ganhar muito dinheiro com o elevado preço da cana-de-açúcar e a ‘energia verde’ desta cana, mas a monocultura ainda poderia gerar também um dinheiro extra no âmbito de Kyoto. É a mesma mentalidade das pessoas que, na Europa – sem ao menos ficarem ruborizadas – afirmam que um hectare de beterraba açucareira seqüestra mais CO2 do que o ecossistema de uma floresta formada.

          A cana-de-açúcar é um caso a parte. Enquanto os preços de quase todas as commodities estão numa linha descendente, o preço da cana-de-açúcar está no mesmo nível há anos e até apresenta uma tendência de crescimento. Atualmente, um fazendeiro no estado de São Paulo consegue, em um hectare de soja, uma renda de 220 reais. Com um hectare de cana-de-açúcar ele consegue, hoje, 900 reais. Se acrescentarmos a isso a possibilidade de recursos decorrentes do Kyoto, não é difícil fazer a conta. Graças à febre mundial da energia ‘verde’, renovável, a cana-de-açúcar continuará em ascensão durante anos. O fato da UE não conseguir melhorar sua posição em relação à comercialização de açúcar no âmbito da OMC faz aumentar ainda mais a febre de canaviais no Brasil. Desde 2005, houve um grande aumento na área plantada com cana-de-açúcar, na esperança de conquistar a fatia européia do mercado de mundial e, ainda, o mercado da própria Europa. Além disso, o capital francês, japonês e de outros estrangeiros está sendo investido em usinas de açúcar ‘brasileiras’. Posso estar enganado, mas minha previsão é que, novamente, haverá uma rápida mudança na paisagem de grandes regiões do Brasil. Muitos desertos de soja serão convertidos em desertos de cana-de-açúcar. Um pouco semelhante à transformação da paisagem de Flandres, após 1992 (3), resultando em ainda mais milharais. Só que desta vez é graças a Kyoto e graças ao fato de que, na Europa, não queremos alterar nosso padrão de consumo (como, por exemplo, cada um ter seu próprio carro). Agora, o bioetanol e o biodiesel são a grande esperança do agricultor. Ele finalmente recebeu uma tarefa ‘socialmente relevante’: não mais alimentar estômagos, e sim motores.

          Devido à relação mundial, anteriormente mencionada, de 80% ‑ 20%, é evidente que os ônibus a biodiesel, em Curitiba, atraem mais investimentos do que a agricultura familiar que, desde quando há registros, se preocupou em não deixar que toda biodiversidade desaparecesse de suas propriedades.

          Desde a década de 1950, uma colônia alemã domina uma região próxima a Guarapuava. Eles foram assentados lá pela Cruz Vermelha internacional, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nas últimas décadas, eles conseguiram reunir 600 mil hectares de terras agrícolas, sem se preocupar com a norma dos 20% (4). Nos últimos tempos, eles têm comprado terras com florestas, numa tentativa de legalizar sua prática ilegal. Além disso, eles anteciparam a chegada dos recursos do Kyoto, o que não se pode dizer dos agricultores familiares, menos informados. Não; estes, às vezes, são expulsos de seus habitats, numa nova onda de concentração de terras.

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