O dilema da carne

Das perspectivas vegetariana e carnívora, colunistas da Folha comentam "Comer Animais", do escritor americano Jonathan Safran Foer

OPINIÃO CARNÍVORA

Esperança do autor é que a consciência vença o desejo


FOER NÃO LUTA PELO VEGETARIANISMO. NUM MUNDO IDEAL, ELE SERIA CARNÍVORO. O QUE NOS RESTA? DEFENDER A CRIAÇÃO E A MORTE PIEDOSA. COMER MENOS CARNE


NINA HORTA
COLUNISTA DA FOLHA

Jonathan Safran Foer e a mulher, antes de se encontrarem, tinham vontade de ser vegetarianos.
Quando casaram, resolveram que, dali em diante, nada de carnes na mesa deles. Como uma promessa, um rito de passagem.
Em casa, muito tofu, mas, quando lhes dava na telha, por que não atum, hambúrguer ou galinha frita?
Daí a mulher engravidou e ele engravidou junto. Aquilo bateu fundo no escritor.
Começou a fazer faxina na casa, trocar lâmpadas há muito queimadas, comprar meias novas e refletir. Jonathan é, além de bom escritor, filósofo de formação.
E judeu, é bom não esquecer. Quando nasceu o filho, outro rito de passagem, ele, no seu melhor estilo judaico, resolveu contar umas histórias novas para a criança pois a família andava meio esquecida das raízes.
O menino que nascera só tinha um assunto. Comer. Não era só um ato físico, ah, não era. Foer sabia muito bem que as memórias que se misturam às comidas são a nossas vidas, os nossos valores e os da comunidade.
O alimento faz lembrar, quem não sabe disso? Quis trazer à baila o passado, compartilhá-lo com o filho. "Comer e contar histórias são duas coisas inseparáveis."
Partiu para a reflexão do cardápio de seu filho. Como ingredientes, tudo que fosse bom, que não causasse dor, que não envergonhasse e que alimentasse tanto o espírito quanto a alma.
Fez uma enorme pesquisa bem fundamentada. Não queria escrever um livro nem pró nem contra o vegetarianismo, mas simplesmente comer animais com a consciência limpa.

LIMITES
Os judeus sempre se preocuparam com isso. A comida kosher pressupõe um modo de matar que não deixa os animais sofrerem muito e marca os limites do proibido e do permitido.
Ao não comerem o proibido, sentem-se mais livres, com melhor consciência para comer o permitido.
O difícil é mudar nossas histórias. "Em termos racionais, a criação intensiva é obviamente errada, de muitas maneiras. Mas comida não é racional. Comida é cultura, hábito, identidade."
Mas, e a nossa história? Como nos livrarmos dela? Cristo dividiu um cordeiro com os amigos. Fez milagres com os peixes. Transformou água em vinho. Fomos criados achando que os animais se alegravam em se dar a nós como comida (!).
Aprendemos a pescar no riacho, a correr atrás de uma galinha escandalosa, achamos que, quanto melhor cozinhássemos, mais civilizados éramos. Descobrimos o torresmo.
Existem tantos vegetarianos ativos na sua pregação que toda a nossa história de carnívoros já toma um gosto acre. A mesa posta, o frango assado com farofa como um ato de união, de congraçamento, já trazem culpa.
E a esperança de Foer e a de muita gente é que nossa consciência ganhe a batalha contra o desejo. Devemos rejeitar essa história tão velha que estamos repetindo, mudar as histórias que estamos contando? Leva tempo, mas ele acha possível.
Foer não luta pelo vegetarianismo. Num mundo ideal, ele seria carnívoro. O que nos resta? Defender a criação e a morte piedosa. Comer menos carne.
Uma tia velha que tenho sempre filosofa. "Somos como galinhas num galinheiro lotado. Quando o dono põe o olho em uma de nós, vupt. Não tem volta."
Não há saída próxima digna de nota. Estamos todos no mesmo galinheiro e o livro é bastante bom.

 

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